Leituras: 1ª: Is 49,3.5-6. Salmo 40/39,2 e 4ab.7-8a.8b-9.10-11ab R/ Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade. 2ª: 1 Cor l, 1-3. Evº: Jo 1,29-34. II Sem. do Saltério.

Os Capuchinhos em Portugal celebram, neste domingo, o Dia das Missões Capuchinhas. Neste domingo, pois é o mais próximo do dia 16 de janeiro, data da festa litúrgica dos mártires de Marrocos. Foi o testemunho destes protomártires franciscanos que fez despertar a vocação de Santo António de Lisboa, há 800 anos atrás, e que nos continua hoje a impelir à Missão.

Os tempos são outros, as sociedades modificaram-se profundamente e a Igreja, em certo modo, também. Também os lugares de missão se alteraram; a velha Europa, que outrora enviou missionários para os lugares mais recônditos da terra, hoje recebe missionários dessas mesmas terras e os principais protagonistas deixaram de ser apenas os sacerdotes e consagrados para dar lugar a uma missão partilhada com os leigos. Mas mesmo já não enviando missionários em grande número como antes, a Igreja tem de permanecer, como diz frequentemente o Papa Francisco, uma Igreja “em saída”.

Ora, que estilo e que dinâmicas missionárias, Jesus e a experiência posterior da Igreja, de séculos de missionação, nos ensinaram e podem enriquecer hoje o anúncio do Evangelho, na nossa própria terra?

Antes de mais, olhemos para Jesus. Ele é o «Cordeiro de Deus» (Evangelho). Aquele em cuja vida divina mergulhamos no Batismo (domingo passado) é um manso cordeirinho e, no entanto, quem se confia à proteção de Deus, sabe que Ele é, na verdade, a nossa força (1ª leitura). Ele não nos quer como seus servos, mas como amigos. Ele faz de nós, por isso, luz das nações, para que a sua amizade e a sua salvação chegue até aos confins da terra (2ª leitura).

O missionário é, portanto, um batizado, que sente um apelo muito forte de Deus, para partir da sua para outra terra ou, não sendo possível, a viver de forma desinstalada, questionando as suas próprias opções de modo a conformar a sua vida com aquela que sente ser a vontade de Deus.

Depois, o missionário sente um apelo muito forte das pessoas, em especial o “grito dos pobres”, que em cada tempo e lugar podem ser diferentes. São Francisco cuidou de leprosos; o Pe. Américo cuidou de crianças e jovens em risco. Hoje, importa reler as novas urgências, os novos pobres… Alterações climáticas, emigração, inteligência artificial, proteção de dados, violência doméstica, etc. Conseguimos ouvir o “grito dos pobres” porque o Senhor abre-nos os ouvidos (salmo) para ouvirmos e lermos o mundo que nos rodeia. Se não ouvirmos e lermos bem a vida do povo de Deus e as suas necessidades, corremos o risco de andar a dar respostas a perguntas que ninguém fez; a falar de coisas e com uma linguagem que ninguém compreende.

No rosto dos pobres e dos mais frágeis o missionário descobre o rosto de Cristo, que procura servir com as suas próprias mãos; por isso, tudo quanto se faz nas missões ad gentes procura ser uma resposta a uma necessidade do povo de Deus. Enquanto se dá essa resposta, o Evangelho é, ora de forma explícita ora de forma implícita, anunciado.

Nos últimos 6 de 9 anos que vivi em Timor-Leste, os anos mais difíceis, mas mais felizes da minha vida, padres, irmãos, leigos e leigas trabalhávamos, comíamos e rezávamos juntos, sonhávamos a missão de forma sinodal. Rimos juntos muitas vezes e também juntos nos chateamos e choramos. Um rosto de Igreja verdadeiro, não clerical e doente como tantas vezes neste cantinho à beira mar plantado.

Juntos, sempre juntos, discerníamos aquilo que sentíamos ser a vontade de Deus para aquela Missão, para aquelas pessoas, para a sua Igreja:

  • Era necessário fortalecer a Catequese, a formação de adultos e toda a pastoral litúrgica; juntos fizemo-lo!
  • Era necessário construir centros pastorais em Laleia e Samalai para apoiar o trabalho de evangelização, mas também para atender as pessoas, cada qual com as suas necessidades; juntos fizemo-lo!
  • Era necessário montar uma rede de integração e apoio a pessoas com deficiência em 4 distritos; juntos fizemo-lo!
  • Era necessário restaurar a Igreja de Laleia e a capela de Samalai e construir uma nova capela em Cairui; juntos fizemo-lo!
  • Era necessário criar um Jardim de Infância, para as crianças de 4 e 5 anos de idade, que passeavam com catanas na mão mas nunca tinham pegado num lápis; juntos fizemo-lo!
  • Era necessário abrir uma clínica, para reforçar o atendimento da Pastoral da Criança, que servia 400 pessoas por mês, entre senhoras grávidas e crianças até aos 5 anos de idade; juntos fizemo-lo!
  • Era necessário montar uma estação de rádio para chegar junto dos que estavam mais longe e dos doentes que não podiam vir à Igreja; juntos fizemo-lo!
  • Era necessário valorizar a cultura local, nomeadamente recuperando o padrão dos panos tradicionais, e pô-la em diálogo com a fé; juntos fizemo-lo!
  • Era necessário ajudar várias famílias pobres a reconstruir as suas casas; juntos fizemo-lo!

Muitas, muitas outras coisas fizemos juntos, como Igreja; mas o que fica não é o que se fez mas como e com quem se fez, como e com quem se construiu Igreja, comunidade, família.

Nós andávamos de chinelos e vestíamos roupa muito simples, como as pessoas da aldeia; comíamos do que havia, sem desperdiçar ou resmungar por a comida estar quente ou fria, ter muito ou pouco sal; trabalhávamos com as nossas próprias mãos; não havia tempo para a murmuração, era preciso carregar água, cimento, estrume ou o que fosse necessário; acordávamos muito antes do nascer do sol e íamos descansar quando toda a aldeia já dormia há muito; por vezes desanimados, esgotados e doentes, permanecíamos focados na Missão; era preciso visitar as comunidades nas montanhas, sob a chuva torrencial ou sob um sol escaldante; conhecíamos cada pessoa pelo nome, porque cada uma passa a fazer parte de nós; e terminávamos sempre o dia como começávamos, em silêncio, diante da cruz ou do sacrário, com essa certeza de que Deus é a nossa força (1ª leitura).

Ficam as pessoas! Fica uma imensa saudade das pessoas e desse estilo de vida e de Missão; Fica o Senhor que nos enviou e volta a enviar; fica o essencial.

Queridos irmãos e irmãs, hoje Deus continua a enviar-nos em Missão. A nós! Aqui também! É certo que a comunidade cristã se reúne todas as semanas para celebrar a Eucaristia. E procura fazê-lo com beleza e dignidade, envolvendo pessoas para ler bem, para cantar, para servir o altar, etc. Quem não gosta de sair da Igreja de "alma lavada" e coração cheio!? Mas o grande campo missionário é lá fora. São imensos os desafios que a sociedade hoje nos coloca; por isso, são necessários missionários que elevem a reflexão ética desses desafios.

Podemos fazer umas coisas por aí, quiçá uns “biscates litúrgicos”, e chamar-lhe Igreja ou Missão, ou podemos deixar que Deus transforme toda a nossa vida, e nos conduza por onde Ele quiser.

Boa Missão!

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

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