Leituras: 1ª: Lv 19,1-2.17-18. Salmo 103/102,1-2.3-4.8.10.12-13 R/ O Senhor é clemente e cheio de compaixão. 2ª: 1 Cor 3,16-23. Evº: Mt 5,38-48. III Semana do Saltério

Ouvimos com frequência as pessoas questionarem a sorte dos maus e o azar dos bons: “Eu não roubo nada a ninguém e a mim tudo me acontece”. É possível que nos identifiquemos com este lamento ou outros semelhantes. É possível que em certos momentos da nossa vida questionemos a justiça de Deus. É possível que, por vezes, estejamos tão magoados com a vida que o Evangelho de hoje não pareça fazer qualquer sentido:

O Senhor «faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos» (Evangelho)

O sol nasce sobre bons e maus e a chuva cai sobre justos e injustos porque, para Deus, o homem vem antes do bom ou do mau, do justo ou do injusto e aquele, como eu, também é “templo de Deus”.

«O templo de Deus é santo e vós sois esse templo» (2ª leitura)

Se Deus fosse justo, pensamos nós, Ele faria nascer o sol e cair a chuva apenas sobre os bons; os maus haveriam de ser condenados a um mundo de trevas e a ressequirem sem água e morrerem. Mas essa seria, porventura, a nossa justiça; não a de Deus. O Senhor não nos trata segundo os nossos erros, segundo os nossos pecados. Como um pai, Ele compadece-se dos seus filhos. (Cf. salmo)

«O templo de Deus é santo e vós sois esse templo»

Eu receio que, por vezes, o nosso desejo de justiça esconda, na verdade, um certo desejo de vingança ou de arranjar bodes expiatórios para alguma coisa que correu menos bem na nossa vida.

A história de Caim e Abel mostra-nos esta tendência do ser humano para a inveja, o ódio, a mentira, a vingança, a violência. O direito civil pretende, assim, colocar alguma ordem na vida social, refrear a violência, com ameaças de castigo e prisão. O direito civil é necessário, mas não deixa de ser uma paz e harmonia construída com recurso à força, pelo menos da lei.

Costuma dizer-se que “ninguém está acima da lei”, mas ainda mais depressa se ouve “cá se fazem cá se pagam”! O que Jesus hoje nos diz é que é preciso superar isso, é preciso superar a lei de Talião, “olho por olho e dente por dente”. Não se trata de abolir a lei, de que as sociedades precisam, mas antes de superá-la:

«Não resistais ao homem mau» (Evangelho)

Que expressão incrível de Jesus, carregada de novidade naquele tempo e no nosso, e que projeto de vida para nós! Não resistir ao homem mau não significa assentir no mal, no pecado! Não significa fechar os olhos ou fazer de conta. Não se trata de qualquer espécie de relativismo moral ou ético. Trata-se, sim, de quebrar o círculo vicioso de violência, não apenas com a força da lei, mas sobretudo com o coração e com o perdão.

«Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado.» (Evangelho)

«O templo de Deus é santo e vós sois esse templo»

Não se trata de nos deixarmos “comer por lorpas” ou por “burros”. Trata-se de uma opção muito clara pela não-violência ativa. Se me buzinarem e chamarem nomes no meio do trânsito eu não respondo; se uma pessoa anda a falar mal de mim, rezo por ela, para que o Senhor tenha piedade dela. Se me olharem de "esguelha" eu respondo com um olhar meigo.

Penso já vos ter falado aqui de um padre que admiro muito. Não são muitos; por isso permitam-me que volte a falar dele. Chama-se Chris Riley, é australiano, e trabalha há 40 anos com jovens em risco. Conheci-o na Austrália e depois ele veio visitar-nos em Timor-Leste para ver o andamento de alguns projetos apoiados pela Youth off the Streets. Para ele, não há “jovens que nascem maus”; há, sim, maus ambientes, circunstâncias e famílias que têm um impacto negativo no seu crescimento. A instituição por ele fundada paga aos melhores advogados para tirar estes miúdos da prisão e depois garante-lhes acompanhamento a vários níveis: médico, psicológico, social, académico, etc.

Chris Riley podia refugiar-se na lei e ocupar-se com uns biscates na sacristia, esperando que estes jovens apodrecessem na prisão, ou podia, como fez, garantir que lhes era dada uma segunda oportunidade, tentando “corrigi-los” (1ª leitura) através de uma justiça regenerativa, feita com cabeça e amor.

«O templo de Deus é santo e vós sois esse templo»

«Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus. […] Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos?» (Evangelho)

Ao longo de séculos a Igreja caminhou de mãos dadas com o poder civil e político. Isso ajudou-a a sobreviver (e vice-versa), mas fez com que o dinheiro, as propriedades e o carreirismo se misturasse com o incenso oferecido a Deus na liturgia. Muitas das nossas instituições e "comissões fabriqueiras" movem-se com o objetivo de arranjar dinheiro para queimar foguetes e não pela oração e o Evangelho… não o fazem também os pagãos?

 

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