Leituras: 1ª: Is 58,7-10. Salmo 112/111, 4-5.6-7.8a e 9. R/ Para o homem reto nascerá uma luz no meio das trevas. 2ª: 1 Cor 2,1-5. Evº: Mt 5,13-16. I Sem. do Saltério.

Vós sois o sal da terra! (Cf. Mt 5,13)

Não vós todos. Não nós todos! Os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição por causa da justiça… (Cf. Mt 5,3-12)

Os que vivem as bem-aventuranças como bem-aventurados. Os que vivem as bem-aventuranças como gente feliz, apesar das vicissitudes da vida. Gente bem-aventurada e feliz, apesar das vicissitudes da vida, porque unidos a Jesus.

Ele é o sal.

O sal salva-nos da putrefação e dá sabor. Há, dentro e fora da Igreja, hierarquias, instituições, associações, confrarias e grupinhos que já não salgam nada nem se deixam salgar. E o sal corrompido é inútil! (Cf. Mt 5,13)

Vós, que subistes ao monte para me escutar, descei.

Sede sal da terra e luz do mundo!

Não do vosso ‘mundinho’, essa ‘redoma de vidro’, onde vos conservais, sem sal e sem sabor, mas de todo o cosmos, de todo o mundo criado e, em particular, das periferias existenciais. São tantas a precisar de sal e luz… a pobreza, o desemprego, o consumo de álcool e drogas, a violência, as mudanças climáticas, a solidão, etc.

Permitam-me que hoje sublinhe a urgência de iluminarmos uma dessas periferias existenciais, a do fim de vida, da nossa morte natural.

No próximo dia 11, memória litúrgica de Nª Sª de Lurdes, celebraremos o Dia Mundial do Doente, isto a poucos dias da discussão no Parlamento português da despenalização da eutanásia.

O que é a eutanásia? A eutanásia é uma ação ou omissão que provoca a morte de alguém, a seu pedido, com o objetivo de eliminar o sofrimento.

Mas «a verdade, é que com a eutanásia e o suicídio assistido, não se elimina o sofrimento, elimina-se a vida da pessoa que sofre. Tal como não se elimina a pobreza eliminando a vida dos pobres.» (Cf. desdobrável “Perguntas e Respostas sobre a Eutanásia”)

O recurso à eutanásia é uma forma fácil e económica de desistir das pessoas que, na verdade, precisam de maiores cuidados.

Uma pessoa em fim de vida precisa, não que a matem, mas que a ajudem a viver o tempo que lhe resta com a maior qualidade de vida possível, assegurando cuidados especializados, multidisciplinares, que a ajudem a aliviar a dor física mas também a dor psíquica e a dor espiritual, tendo a família e amigos como parte essencial desse processo.

No hospital, por vezes, acontece alguns doentes, sobretudo idosos, me dizerem que gostariam de morrer. Na maior parte das situações são pessoas que estão em sofrimento, sim, mas sofrimento sobretudo psicológico e espiritual. O que a maior parte destas pessoas precisa, na verdade, é de um abraço amigo, de serem ouvidas nas suas necessidades concretas que, tantas vezes, passam mais pela busca de sentido, da possibilidade de resolver questões do passado, de curar feridas interior, de obter o perdão de alguém ou de Deus, de sanar relações e de ter a oportunidade de viver o processo da morte não como um tabu mas como algo de natural, próprio da nossa fragilidade e finitude.

Na mensagem para o Dia Mundial do Doente deste ano, o Papa Francisco, dirige-se aos profissionais de saúde dizendo:

«A vossa ação tenha em vista constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a atos como a eutanásia, o suicídio assistido ou a supressão da vida, mesmo se o estado da doença for irreversível. […] A vida há de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte: exigem-no simultaneamente tanto a razão como a fé em Deus, autor da vida. Em certos casos, a objeção de consciência deverá tornar-se a vossa opção necessária, para permanecerdes coerentes com este “sim” à vida e à pessoa. Em todo o caso, o vosso profissionalismo, animado pela caridade cristã, será o melhor serviço ao verdadeiro direito humano: o direito à vida. Quando não puderdes curar, podereis sempre cuidar com gestos e procedimentos que proporcionem amparo e alívio ao doente.»

Vós sois o sal da terra! Vós sois a luz do mundo!

Não permitamos que 230 deputados decidam em nosso nome aquela que é, porventura, a maior aventura de toda a humanidade: a própria vida!

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

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