Leituras: 1ª: Sir 15,16-21. Salmo 119/118,1-2.4-5.17- -18.33-34. R/ Ditoso o que anda na lei do Senhor. 2ª: 1 Cor 2,6-10 Evº: Mt 5,17-37. II Semana do Saltério.

Deus pôs diante do nosso nariz, o bem e o mal, a vida e a morte. (Cf. 1ª leitura)

Criou-nos livres para escolhermos. E deu-nos uma lei, que não pretende ser um fardo pesado, mas, pelo contrário, guia, farol, luz que ilumina o caminho diante de nós.

«Felizes os que andam na lei do Senhor e observam as suas ordens.» (Cf. salmo)

Felizes os que cumprem os dez mandamentos, os que vão à Missa ao Domingo, os que rezam, os que vão a Fátima todos os anos, os que dão uma boa esmola a Santo António, mas…

Muito, muito mais felizes os que, para além disso tudo, muito além, muitos mais dentro, muito mais fundo, O procuram de todo o coração.

Mas então cumprir os 10 mandamentos não chega? Deus na sua infinita misericórdia lá saberá. Jesus disse de forma muito clara: «Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus.» (Evangelho)

É que viver os mandamentos, aparentemente, é fácil. Não matar, não cometer adultério, não jurar falso, etc…

Difícil é ler o que está nas entrelinhas, difícil é procurar o Senhor para lá do preceito, dos mínimos. Difícil é sentir esse desejo ardente de procurar e amar o Senhor «com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com todas as nossas forças» (Cf. Dt 6,5) e viver segundo o que Ele nos inspira.

Não matar! Nós não andamos aí a matar-nos uns aos outros, pois não? Andamos, sim! E de que maneira! Não com pistolas, mas com a língua, com vinganças, com ódios e murmurações…

São Francisco dizia aos seus Irmãos na exortação nº 25: «Bem-aventurado o servo que tanto ama e respeita o seu irmão quando está ausente, como quando está presente, e nada diz dele na ausência, que com caridade lhe não pudesse repetir na presença» (Exortação nº 25)

Visto desta forma, bem lido nas entrelinhas, matamos ou não matamos?

Vem São Francisco, vem outra vez, trazer aos homens, a paz e o amor. (2x)

Não cometer adultério! Ohhhh… quantas vezes adulterando o projeto de felicidade a dois. Se não há carinho, se não há futuro sonhado, planeado e vivido a dois, há adultério. Claro que há! Se não há divisão de tarefas em casa, há adultério…

O mesmo se diga de dois amigos que o são movidos por algum interesse que não seja o da pura amizade. Adultério! Ou de um religioso ou um padre que se contenta em levar os homens ao riso em vez de os levar a Deus. Adultério!

Vem São Francisco, vem outra vez, trazer aos homens, a paz e o amor. (2x)

Poderíamos continuar! Toda a sagrada escritura deve ser lida nas entrelinhas. Mas para isso não basta devorar livros e participar em muitos cursos.

É preciso rezar. É preciso meditar. É preciso aprender a amar o silêncio. É preciso pedir incessantemente ao Senhor que nos conceda o Espírito Santo.

Só Ele «penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus» (Cf. 2ª leitura). É preciso crescer na sabedoria de Deus. Ela permite-nos, de uma forma absolutamente nova, sentir a presença do Senhor, amá-lo, mas também conhecermo-nos mais verdadeiramente a nós mesmos e aos outros, olharmos para o mundo e para os outros com novos olhos, menos assassinos e menos adúlteros.

E corremos o risco de chegar a perceber que, afinal,

“Só Deus basta”

Mas para perceber na sua complexidade isto, que parece tão simples, há um longo caminho interior a percorrer.

«Onde mora a caridade e sabedoria,
aí não há nem temor nem ignorância.
Onde mora a paciência e humildade,
aí não há ira nem perturbação.
Onde mora a pobreza com alegria,
aí não há cobiça nem avareza.
Onde mora o recolhimento e a meditação,
aí não há dessossego nem dissipação.
Onde o amor de Deus guarda a porta (Lc 11,21)
aí não pode entrar o inimigo.
Onde mora a misericórdia e descrição,
aí não há nem superfluidade nem dureza de coração»
(Exortação nº 27ª, de São Francisco de Assis)

À medida que cultivamos mais e mais a sabedoria de Deus na nossa vida, vai-se tornando mais fácil perceber as coisas com clareza e vivermos com paciência quando as respostas parecem tardar.

“Só Deus basta”

 

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