Diante dos textos que escutamos neste XXVII Domingo do Tempo Comum, e que apresentam, de algum modo, o sentido do matrimónio, que pode um padre atrever-se a dizer? Eu diria que alguma coisa, com certeza, com propriedade.

  • Primeiro, porque falamos do sentido do matrimónio cristão, que a Sagrada Escritura ajuda a iluminar, e porque todos ou quase todos nós crescemos no seio de famílias cristãs, percebendo, portanto, o que são e intuindo como deveriam ser.
  • Segundo, porque todos os homens e mulheres, sejam solteiros, casados, viúvos, consagrados ou celibatários, têm de tomar decisões de que depende a sua felicidade e que exigem igual maturidade afetiva.
  • Terceiro, porque ainda há alguns casais – infelizmente poucos – que procuram apoio espiritual, o que nos permite compreender o que os une e o que os separa.

Comecemos, então, por tentar entender o que nos dizem os textos bíblicos proclamados hoje.

O Evangelho, segundo São Marcos, começa com uma pergunta que os fariseus colocaram a Jesus para o desacreditarem diante das pessoas que se agruparam à sua volta: “é lícito ao marido divorciar-se da mulher” (Cf. Mc 10,2)? No paralelo deste texto em Mateus (Mt 19,3-12), percebe-se que a pergunta dos fariseus, mais do que questionar a legalidade do divórcio, é se a lei deve ser aplicada de forma rígida (divórcio só em casos graves, como adultério) ou mais liberal (divórcio por qualquer causa, como a sopa estar fria ou salgada, o que pode parecer um exemplo absurdo mas que, como sabemos, às vezes, em algumas casas, é o suficiente para desencadear palavras ou gestos agressivos).

Mas Jesus não é advogado nem se faz juiz, por isso, não responde em termos jurídicos à provocação dos fariseus. Não deixa, no entanto, de dizer que o divórcio, a separação e a divisão, não fazem parte do plano original de Deus, e que Moisés teve a sensibilidade de o permitir apenas por causa da dureza do nosso coração e para, de algum modo, e sobretudo, proteger a mulher, naquela sociedade patriarcal, para que também ela tivesse possibilidade de escolha.

Isto significa que Jesus não se fica nem quer que nos fiquemos pelo que a lei permite ou deixa de permitir, porque quando aí chegamos, pelo menos no que diz respeito ao divórcio, é porque as coisas já não estão bem, e quer elevar a discussão em torno do matrimónio, para ser lido à luz não do que separa mas do que une, isto é, à luz da sua vocação original, que é ser imagem de Deus Uno-Trino, comunhão na diversidade: homem e mulher, iguais em dignidade, semelhantes, mas diferentes, que se completam, unidos, “uma só carne” (Cf. Gn 2,24b), um para o outro, um com o outro, um no outro.

E quando Jesus diz “não separe o homem o que Deus uniu” (Cf. Mc 10,9), fá-lo não para proibir o divórcio, porque isso seria impor ou abolir leis, missão que não quis assumir, mas, como Ele mesmo disse, “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Cf. Jo 10,10b) e, nessa linha, para ajudar a dar sentido ao matrimónio, alimentado pelo amor e doação recíproca, amor e doação de que Ele próprio nos deu o exemplo até ao fim.

Ora, se Jesus não pretende impor uma lei, então, o que é que Deus uniu, que o homem não deve separar? Deus une, não por magia, mas santificando e abençoando, duas pessoas, que se querem mutuamente, e num ato de vontade e liberdade humana, se dão e se recebem mutuamente. Isso significa que os esposos são, efetivamente, os ministros do sacramento do matrimónio e que o sacerdote ou diácono que assiste à celebração, simplesmente recebe o consentimento dos esposos em nome da Igreja e dá a bênção da Igreja.

Daqui derivam duas questões. Primeiro, que maturidade humana, espiritual, psíquica e afetiva é necessária para que duas pessoas se unam desta forma? E, segundo, que fazer quando essa união já só existe no papel ou no cartão de cidadão mas não na vida do dia a dia? Deixemos esta questão para o fim – sem dela fugirmos – e vamos à primeira.

Dizíamos há pouco que somos imagem de Deus Uno-Trino, imagem de uma relação amorosa onde cada pessoa divina – Pai, Filho e Espírito Santo –, se despoja e se entrega. Visto desta forma, fazem todo o sentido as palavras do consentimento: “Eu, Maria, recebo-te por meu esposo a ti José, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.”

“Recebo-te”. E se recebo, recebo com um dom, nunca como uma conquista ou propriedade, nunca como posse, passível de ser dominada e controlada.

Dito isto, facilmente se compreende que tanto o amor maduro como a separação não surgem do nada. Com a paixão, vem a exigência, raramente cumprida, de um verdadeiro e profundo conhecimento mútuo, de discernimento, de reconhecimento das diferenças, de crescimento na capacidade de estar atento e de prover às necessidades do outro, de compromisso e fidelidade.

Se isto se aplica à relação entre duas pessoas, o mesmo se diga da entrega de uma pessoa solteira a um projeto que tem em vista o bem comum, ou da consagração de um jovem numa Ordem Religiosa - como o Frei Ricardo Pinto fará neste dia na ordem dos Capuchinhos -, ou, ainda, do zelo pastoral de um padre pela comunidade cristã que lhe foi confiada.

Mas, se olharmos novamente para a relação a dois, para o início da relação a dois, o namoro, felizmente, temos exemplos belíssimos de jovens que, ao longo de vários anos, procuram ir-se conhecendo e partilhando um pouco a vida naquilo que é, geralmente, próprio dessa idade: ir ao cinema, fazer desporto e estudar juntos, experimentar o primeiro beijo, sair com os amigos, etc.

Mas também conhecemos inúmeros casos em que o ciúme e a vontade de controlar o outro, a toda a hora e minuto, dão lugar à violência. Segundo um estudo da APAV, estima-se que mais de 20% dos jovens são ou já foram vítimas de algum tipo de conduta abusiva por parte do/a namorado/a, e que se manifesta de múltiplas formas: verbal, psicológica, relacional, física e/ou sexual.

E, pior ainda, às vezes os adultos menosprezam a violência no namoro dos jovens como se fosse menos grave do que no casamento ou em qualquer outra circunstância.

Se olharmos agora para o noivado, felizmente, também temos exemplos maravilhosos de jovens que se preparam intensamente para o matrimónio, com sentido de responsabilidade, sonhando e projetando o futuro a dois, no que se inclui a preocupação com a casa e a boda, mas também a Eucaristia. Há, inclusivé, noivos que rezam juntos, pedindo a Deus que ilumine os seus caminhos e a família que querem construir. Serão poucos mas há. E há noivos que participam em cursos de preparação para o matrimónio, não como uma obrigação mas como uma oportunidade, para melhor compreender o sacramento e ouvir o testemunho de outros jovens casais.

Mas também há noivos que, desde o início, vivem um enorme equívoco, confundindo eros com ágape, erotismo com amor, atração, que passa, com compromisso, que fica, e que fazem da preparação para o casamento uma enorme azáfama entre convites, vestido, mobília e eletrodomésticos, fotógrafo, flores, e lua de mel num lugar instagramável. Tudo coisas exteriores, porventura necessárias, mas exteriores. No meio de toda essa azáfama, terá havido espaço de crescimento humano, espiritual e afetivo? Para além de concordarem no local e na banda de música que anima o copo de água, concordam com o que é essencial na vida e realmente determinante para o futuro da família que querem construir?

E, nas vésperas do casamento, o sacerdote, depois de lhes explicar o sentido das Escrituras e do Matrimónio Cristão, às vezes sem saber muito bem se será necessário recordar-lhes quão importante é celebrarem antes o Sacramento da Confissão, atreve-se a perguntar-lhes: compreenderam tudo? têm alguma dúvida que achem que eu vos poderia ajudar a esclarecer? há alguma coisa relacionada com a celebração que vos esteja a preocupar? E um dos noivos diz – “sim, preocupa-me que na boda vou ter de dançar”...

Olhemos, por fim, para os casais. Há quem diga que o amor é o que mais faz sofrer, mas também o que mais realiza a pessoa humana. E não tenhamos dúvidas de que no meio das tristezas e canseiras, há muito casais que conseguem encontrar alegria e descanso no colo um do outro, que vêm na educação cristã dos filhos uma tarefa irrenunciável e que vão envelhecendo juntos, cuidando um do outro, com paciência nos dias maus, e com um sorriso cheio de cumplicidade nos dias bons. Que lindo! Não podemos deixar de o propor aos nossos jovens, mesmo quando a cultura dominante lhes propõe o facilitismo como modo de vida, até nas coisas do coração.

Mas, voltando à questão ainda não respondida, que fazer quando essa união já só existe no papel? Isto não significa que não tenha havido preparação prévia ou esforço mútuo. Sabe Deus como tantas vezes houve, de facto, enorme esforço de ambos, mas, pelas mais diversas razões, que não nos cabe a nós julgar, se recaiu em infidelidades profundas, vícios escondidos, interferência de familiares, agressividade cada vez maior, desinteresse crescente, etc., que podem levar ao reconhecimento de que, pelo menos no coração, a separação já está consumada, que aquilo que, num dado momento, Deus uniu em duas pessoas, já não existe.

Será possível que Deus queira uma união que já não é união, mas desunião, separação, e, nalguns casos, um autêntico inferno? Quererá Deus que a nossa vida seja um inferno? Cada um responda conforme a imagem que tem do Deus de Jesus Cristo, compassivo e misericordioso.

Numa catequese sobre a Família, a 24 de junho de 2015, o Papa Francisco afirmou: “Há casos em que a separação, [...] por vezes, pode tornar-se até moralmente necessária, quando se trata de defender o cônjuge mais frágil, ou os filhos pequenos, das feridas mais graves causadas pela prepotência e a violência, pela humilhação e a exploração, pela alienação e a indiferença.”

Mas reconhecer que uma relação fracassou, apesar da dor que causa, não rompe necessariamente o ideal conjugal. E, não se rompendo o ideal conjugal, outras possibilidades se podem abrir, também elas, porque não, queridas e abençoadas por Deus.

Por essa razão é que no capítulo VIII da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco, pede à Igreja que, sem facilitismos e sem banalizar o que é santo, seja “mãe” e acolha com caridade os divorciados que contraíram uma nova união, não só tendo em vista o acesso aos sacramentos, após um “processo de discernimento acompanhado por um pastor”, mas com o “propósito de colocarem a vida inteira à luz do Evangelho”. Naturalmente que a Amoris Laetitia, que vale a pena ler em família, é muito mais do que esse capítulo oitavo, e aponta de forma lúcida muitos dos desafios que os casais hoje enfrentam.

Mas a verdade é que há muitos casos em que ainda é possível investir no amor para que o processo de separação estanque e se comecem a curar feridas antes que seja tarde de mais.

Para isso é preciso voltar ao diálogo, tentar perceber com sinceridade o que cada um sente e o que está por trás desse mal crescente. Dar nomes ao que está mal. Perceber o que não está a funcionar e porquê. Reconhecer onde ambos estão a falhar.

Claro que isto só é possível com um grande ‘banho de humildade’ e uma vontade genuína em reacender a chama do amor. Uma conversa com um casal que tenha passado pelo mesmo, ou, no caso de pessoas com fé, com um padre em quem confiem, às vezes pode fazer muito bem, porque se há palavras que separam e matam, também há palavras que unem e dão vida.

Quando ouço dizer que há cada vez mais divórcios, não consigo deixar de pensar que estamos a ler isto ao contrário. O que há é cada vez menos amor e isso, sim, devia preocupar-nos. Por isso, sem julgar os outros, amemos, amemos com todas as nossas forças e vivamos para o amor.

 

Leituras:

LEITURAS: 1ª: Gn 2,18-24. Salmo 128/127,1-2.3.4-5.6. R/ O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida. 2ª: Heb 2,9-11 Evº: Mc 10,2-16. III Semana do Saltério.

 

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