Quando eu era pequenino, passava grande parte do dia em casa da minha avó Rosa. Desde que chegava da escola primária até à hora em que a minha mãe saía do trabalho e nos vinha buscar, a mim e aos meus irmãos, aquela era a nossa casa, onde comíamos, fazíamos os deveres e brincávamos. Foi a casa onde crescemos.

Com a avó Rosa viviam duas filhas solteiras, que ganhavam a vida fazendo camisolas e casacos que as pessoas de vários lugares da freguesia lhes encomendavam. Uma fazia as malhas numa máquina que lhe exigia muito do braço. A outra cozia as peças e dava-lhes a forma final numa velha máquina de costura da Singer, cuja pedaleira em ferro rangia como um comboio a vapor.

A minha avó, já idosa, nunca tirava o avental, como quem está sempre pronto para servir. O avental tinha um bolso fundo de lado a lado, onde ela guardava o lenço, o terço e o que calhasse. Costumava ficar sentada a um cantinho da sala de costura, que era também o quarto dela, e onde só podíamos entrar se tirássemos as sapatilhas e nesse dia não lhe tivéssemos partido nenhum vaso a jogar à bola.

Ela passava ali longas horas, rodeada de restos de linhas de todas as cores que as minhas tias já não podiam usar no seu trabalho e deitavam fora.

Aquele emaranhado de linhas, mais cedo ou mais tarde, acabaria por se tornar uma colcha, que, mais cedo ou mais tarde, haveria de cobrir a cama de algum dos netos.

Ao contrário das minhas tias, que tinham de correr para ganhar para as despesas, o trabalho da minha avó era feito devagar, em silêncio e aproveitando o que não servia às filhas. Mas a obra das suas mãos, trémulas pela doença de Parkinson, estava cheia de amor.

Nós só víamos linhas mas ela sabia muito bem em que é que as linhas se haveriam de tornar.

Também no Evangelho deste domingo vemos o que parece ser um emaranhado de personagens, com diferentes histórias e motivações políticas e religiosas, mas sabemos que é Deus que conduz a história e que da confusão e ruído das nossas vidas pode tecer uma grande história de amor.

Em poucas linhas, Lucas nomeia sete personagens. Se fosse hoje podia ser o G7, os sete países que dominam o comércio e a economia mundial. Em perspetiva bíblica, sete é o número da totalidade, por isso, aqueles sete representam todo o poder político e religioso de então.

Mas, no meio de tanta gente importante e poderosa, de tantas autoridades políticas, religiosas e militares, no meio de tantas beldades que vestem roupas de marca e de tantos influencers digitais, «a Palavra de Deus foi dirigida a João», um pregador itinerante, que fala para quem o quiser ouvir, mas que só quem sai da sua zona de conforto pode entender. Porque, no meio de tantos palácios, templos e catedrais, e praças, jardins e ruas engalanadas com coisas que dizem ser do Natal, a Palavra de Deus foi pregada no deserto.

E é ali, em terra árida, sedenta de água, de vida e de Deus, que melhor se ouve a Palavra dirigida a João e a nós.

Ali onde não há black friday’s, e ruídos só o do vento, nada que nos distraia do essencial, do que realmente importa.

Ali onde percebemos que a vida é muito mais do que o scrolling que fazemos no Instagram, pois ali há palavra e imagem mas também horizonte.

Ali onde é preciso voltar uma e outra vez para nos conhecermos melhor e nos reconhecermos como pessoas.

É, pois, preciso ir ao deserto e é preciso fazer deserto.

É preciso rebaixar montes e colinas, calando quem fala alto e grosso, como se isso lhes desse mais razão, e dando voz a quem fala baixo e com amor, para que reine a paz.

É preciso altear os vales, corrigindo as desigualdades, para que se vá dobando um novelo de justiça.

É preciso aplanar as veredas escarpadas, derrubando as fronteiras desumanas que separam os povos e impedem os migrantes de procurar um lugar seguro para as suas famílias, «para que toda a criatura veja a salvação de Deus».

É preciso endireitar os caminhos tortuosos, reconhecendo e reparando o mal cometido, para que mudemos, para que o mundo mude.

É preciso. Mas o que é preciso só é possível se levarmos a sério o nosso batismo. E batizar significa submergir.

Não se trata apenas de mergulhar as linhas com que nos cosemos em corante sintético, que é o mesmo que usar maquilhagem ou aplicar filtros para dar uma ‘corzinha’ diferente à vida, mas antes afundar conscientemente o que há de mau, injusto, egoísta e voz grossa em nós para que possa emergir uma vida nova, capaz de sentimentos, palavras e gestos cheios de bondade e ternura. É assim que se «preparam os caminhos do Senhor». É desta fibra que se fazem os discípulos de Jesus.

E, então, juntos como a roca e o fuso, de coração renovado, percorramos as margens. João as do Jordão, nós as da sociedade, para dizermos àqueles que - como os judeus a quem Baruc escreve - atravessam uma situação pessoal, familiar ou profissional difícil, de exílio, de doença e sofrimento: não desanimes, tem calma, estou aqui ao teu lado, desabafa se quiseres, eu choro contigo, mas «os que semeiam em lágrimas recolhem com alegria», tem coragem, «levanta-te!», «todos veremos a salvação de Deus». Todos!

Neste tempo de Advento, sejamos generosos e corajosos na mudança do que em nós houver a mudar, para que possamos reconhecer, como João Batista e a minha avó, os planos de Deus no meio de tantos fios emaranhados da nossa história pessoal e coletiva.

 

Leituras:

1ª: Br 5,1-9. Salmo: 126/127,1-2ab.2cd-3.4-5.6. R/ Grandes maravilhas fez por nós o Senhor: por isso exultamos de alegria. 2ª: Fl 1,4-6.8-11. Evº: Lc 3,1-6. II Semana do Saltério.

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.