No dia de Natal, foi lançado para o espaço o telescópio James Webb. Mesmo a grande distância, um astrónomo atento consegue perceber que aquele ponto minúsculo que se move no espaço profundo não estava lá meses antes.

Do mesmo modo, de olhos postos no céu, os Magos deram-se conta de que havia ali uma luz diferente das que já conheciam, uma luz mais intensa. Seria, muito provavelmente, uma conjunção do planeta Júpiter com o planeta Saturno que pareceriam uma única grande estrela.

Mas, como eles conheciam a promessa da vinda do Messias, despertos e de coração inquieto, leram no alto o que quem anda de olhos no chão não pode ler.

Eram suficientemente sábios para poderem descortinar os sinais do tempo e, ao mesmo tempo, suficientemente inocentes para seguirem uma estrela.

Sophia de Mello escreveu:

«Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma»

(primeira estrofe de “O mar dos meus olhos”)

Por isso, seremos Magos nós também quando conseguirmos ver:

  • Na explosão de uma estrela, uma explosão do amor de Deus.
  • Na passagem de um cometa, Deus que passa pela nossa vida.
  • E no céu, na lua, no sol e nas estrelas, os sinais visíveis da presença de Deus invisível.

Os Magos viram uma estrela, é certo, mas sabiam ao que iam e não iam atrás da estrela mas d’Aquele que «atrai a si todos os povos mergulhados na escuridão» para os iluminar: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?»

E eis que a estrela «parou sobre o lugar onde estava o Menino». Conta o evangelista Mateus que eles «sentiram grande alegria», como quem estremece diante do encontro iminente com aquele que há muito se procura.

«Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.»

Encontraram o Menino e sua Mãe sem quaisquer sinais exteriores de realeza, de riqueza ou de poder.

Possivelmente habituados a uma vida confortável, os Magos podiam ter desdenhado das condições do presépio, da roupa rasgada ou do cheiro dos animais, ou então desconfiado de toda aquela indigência, mas, sábios que eram, sabiam que Deus tem predileção pelos pobres e pelos sinais de pobreza.

Então, «prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O».

Depois, ofereceram-lhe ouro, isto é, tudo o que possuíam, mirra, perfume que penetra na pele, pelo qual se ofereceram a si próprios, e incenso, adorando-O como o seu único Deus. Bem diferente dos presentes de hoje!

Portanto, esta não é a festa dos Magos mas de Jesus, nem a festa dos presentes mas do encontro.

Hoje há quem deseje tomar o lugar da estrela de Belém: temos estrelas no mundo do cinema, da música, do desporto e agora também dos “influencers digitais”. Mas o que há ali de brilho para além da purpurina e dos fios brilhantes que adornam os vestidos do réveillon? Muita coisa boa com certeza. Mas em Jesus há salvação e vida, que dá sentido à vida.

Cada um escolha, em liberdade, aquilo de que se alimenta o seu coração.

O nascimento de Jesus em Lucas, que escutamos ontem, culmina com a adoração dos pastores; o Evangelho de Mateus, que lemos hoje, na adoração dos magos.

O relato dos Magos mostra que Jesus não veio apenas para salvar Israel mas toda a humanidade. Judeus e não judeus, de diferentes modos, têm acesso a Jesus. A salvação é universal, é para toda a criação. Leonardo Boff afirma que Jesus Cristo é «capaz de atrair e unificar tudo o que há no céu e na terra» pelo que, num mundo onde não faltam trevas, «o encontro com a Estrela que guiou os magos produz hoje, como ontem, alegria e sentimento de integração».

Como dizíamos, a salvação é, portanto, para todos.

Mas nem todos a acolhem. O orgulho de Herodes não o deixaria perceber a presença do Filho de Deus nem que estivesse mesmo debaixo do seu nariz.

Pelo contrário, sinal da humildade dos Magos, é o facto de que no caminho pediram ajuda a outros: «Onde está o rei dos judeus?»

Podemos e devemos perguntar. A oração, a leitura espiritual, a Confissão e o diálogo com quem está também a percorrer esse caminho de fé e de encontro, são o telescópio dos cristãos.

Aliás, se pensarmos bem, reconheceremos que no nosso caminho houve ou há um testemunho bonito de doação e de amor, alguém que nos ensinou a rezar, uma avó, um professor, uma catequista, um confessor, ou alguém com um brilhozinho nos olhos que se deixou conduzir e, se calhar sem o saber, nos conduz ao Senhor.

Por fim, «regressaram à sua terra por outro caminho». Porque o caminho anterior era o da procura, agora é o do encontro.

Na nossa vida nunca deixamos de procurar, é certo, mas às vezes, tal como os pássaros, é bom ter onde poisar.

A Sagrada Liturgia será possivelmente um dos nossos poisos mais seguros. A Eucaristia a mais perfeita das Epifanias. Romano Guardini, teólogo católico, falava da liturgia como um jogo e dizia que «é preciso renunciar à falsa prudência da idade adulta que para tudo quer encontrar um fim», uma utilidade. Na liturgia não há outro fim além de «estar e viver na presença de Deus».

Sem essa inocência, é possível que os Magos estivessem, ainda hoje, fechados num laboratório a dissertar sobre aquela estrela.

 

Leituras:

1ª: Is 60, 1-6. Salmo: 71 (72), 2. 7-8. 10-11. 12-13. 2ª: Ef 3, 2-3a. 5-6. Evº: Mt 2, 1-12

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