No meio de tantas festas e promoções que vendem alegria para todas as carteiras e gostos, que significado tem para os cristãos celebrar hoje o Domingo da Alegria? Todos os outros dias serão dias de penitência?

Com certeza que não. Mas as leituras deste domingo, todas elas, recordam-nos a razão de ser e de sempre da nossa alegria: «O Senhor está próximo».

Sofonias vai ainda mais longe e diz que o Senhor não só está perto de ti, como «está no meio de ti», no meio de ti, como povo, mas também como indivíduo, que andas dividido com tantas coisas que te desestruturam e desagregam, para te dar unidade interior e libertar de uma vida que encontra alegria apenas em ditos que provocam o riso fácil ou em coisas que satisfazem por uns minutos, mas não preenchem inteiramente nada nem ninguém.

Pelo contrário, a verdadeira alegria nasce de um coração que se renova continuamente, pelo que quem vive a sua vida moral e espiritual da mesma maneira há 5, 10 ou 20 anos, sem crescer, sem aquecer nem arrefecer, devia ficar alarmado.

Mas a renovação do coração nunca é forçada, seja pela força da lei, seja por quaisquer outras forças, porque o amor também não pode ser forçado. Deus «renova-te com o seu amor». É com amor, não com anedotas nem com leis humanas, por vezes desumanas. E não só te renova como «exulta de alegria por tua causa». A tua renovação é causa de alegria para Deus, teu Criador.

É certo que o Advento, como a Quaresma, nos aponta um caminho que exige um certo esforço. Mas a penitência não é um fim em si mesmo, antes um meio amoroso e consciente de renovação e preparação para acolher Jesus que vem e que traz equilíbrio à nossa vida.

Por vezes vivemos entre a euforia e o desânimo. Euforia no sucesso, desânimo no fracasso. Num dia radiantes, no dia seguinte tristonhos. Parece que já não sabemos viver de forma serena. Por isso é que a alegria hoje celebrada é a que nasce da paz interior. «Não vos inquietais com coisa alguma». Não desanimes, «não desfaleçam as tuas mãos».

Veja-se o exemplo de Paulo, preso em Roma, que vive a sua situação pessoal com serenidade e escreve aos filipenses não para se queixar da sua sorte, fazer de coitadinho, ou pedir coisas, mas para os exortar à alegria e a não caírem em desalento: «estai sempre alegres no Senhor». Ele, que aguarda o martírio, procura animar os que estão livres. Ou será que ele era o homem livre desta carta e desta história?

Ser alegres é desígnio dos cristãos. Para o Papa Francisco, a “Alegria do Evangelho”, não é apenas um documento, publicado e esquecido, mas uma forma de estar na vida.

Também a pregação de João Batista não tem em vista a repressão ou condenação, mas a libertação, através de uma vida moralmente responsável. A sua pregação era aquilo que deveria ser sempre: sem expressões que só o pregador entende para granjear aplausos do povo simples, mas compreensível e respondendo às inquietações de quem o questionava e ouvia.

Às multidões dava coisas genéricas, mas concretas e necessárias: «quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma» e «quem tiver mantimentos faça o mesmo».

Aos publicanos dizia: «não exijais nada além do que vos foi prescrito», isto é, não sejais agentes de corrupção.

Aos soldados dizia: «não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente», abusos frequentes dos soldados daquele tempo.

E, apesar de arrebatar multidões, João deixava muito claro que não se anunciava a si mesmo, mas ao Senhor que vem. É o encontro com o Messias, o Emanuel, mais forte do que ele, que João queria ajudar a preparar. É o encontro com Ele que nós hoje queremos preparar.

Na verdade, tanto João como Paulo mostram uma enorme maturidade espiritual ao evitarem ser o centro das atenções e colocarem todo o foco nos outros, aqueles a quem é preciso vestir e dar de comer, e no Senhor.

Nunca ouvimos João e Paulo desfazerem-se em críticas por tudo e por nada, lamentarem-se, fazerem-se de vítimas ou queixarem-se. Pelo contrário, acolhem os desafios que a vida e a missão lhes oferecem com muita serenidade e alegria.

Lembro-me de há uns anos conviver algum tempo com uma pessoa que cultivava uma certa imagem de maturidade e santidade. Houve uma altura em que a internet falhou na sua casa por uns dias e parecia que o mundo estava a desabar. Nenhum amigo o aturava. A santidade e o equilíbrio numa vida em Deus demandam serenidade nos bons e nos maus momentos, se possível escondendo o bem que Deus faz em nós e por meio de nós.

Compreender isto, que é o “bê-á-bá” de qualquer manual básico de Teologia Espiritual, é de importância vital porque reside aqui o segredo para uma vida interior intensa, descentrada de si mesmo para se centrar no Senhor e nas necessidades dos outros.

Por isso, a grande questão, ouvida então como hoje se deve fazer ouvir, é também um ato de coragem:

«E nós, que devemos fazer?»

Talvez não nos colocássemos essa questão há muito tempo… Talvez não a tenhamos ainda colocado diretamente ao Senhor ou se a colocamos talvez não tenhamos dado tempo para que surgisse a resposta. Ou talvez porque vamos encontrando respostas nas coisas que compramos ou talvez até por medo da resposta.

Para cada um de nós, Deus tem um desígnio. Aceitemo-lo com alegria, sem gastarmos os anos a tentar ser quem não somos. Aceitemos e cresçamos para Deus, causa da nossa alegria, gratos por tudo e por todos quantos Ele coloca na nossa vida.

 

Leituras:

1ª: Sf 3,14-18a. Salmo: Is 12,2-3.4bcd.5-6. R/ Exultai de alegria, porque é grande no meio de vós o Santo de Israel. 2ª: Fl 4,4-7. Evº: Lc 3,10-18. III Sem. do Saltério.

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