1. A Ascensão do Senhor é a sua entrada na glória mas também a exaltação do ser humano pois Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. E isso torna-se um convite perene a vivermos na terra de corações ao alto, perpetuando a presença de Jesus entre nós, como instrumentos de amor, justiça, paz e verdade. Deste modo, Jesus comunica-nos a sua vida divina, e a prática das boas obras torna-se o melhor modo de comunicar o nosso amor a Deus e aos outros. Esta comunicação humana-divina dá-nos o mote para falarmos do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que hoje celebramos.
2. Se em anos anteriores o Papa Francisco refletiu sobre os verbos «ir e ver» e «escutar» como necessários para uma boa comunicação, este ano propõe a reflexão sobre o «falar com o coração», pois «é o coração que nos move para uma comunicação aberta e acolhedora». E «falar com o coração», isto é, falar cordialmente, implica as primeiras duas. Se o comunicador não vai e vê e escuta o outro, não consegue colocar-se no seu lugar, sentir empatia, e acaba por fazer do que pensa e dos seus preconceitos o centro da notícia. A notícia aparece de algum modo, mas sem o «milagre do encontro».
Na sua mensagem para este dia, Francisco cita o Evangelho segundo S. Lucas para nos lembrar que «a boca fala da abundância do coração» (Lc 6,45), pelo que a comunicação exige um processo contínuo de purificação. Pode um homem que fala mal dos outros, que chama ‘tolo’ a este e ‘palerma’ àquele, incapaz de «ver para além das aparências», testemunhar «a verdade no amor» (Ef 4,15)? Ninguém intelectualmente honesto pode acreditar que sim. É preciso purificar o próprio coração para que o ato de comunicar possa acontecer plenamente.
Comunicar cordialmente significa que a pessoa que nos ouve facilmente perceberá que aquilo que falamos não é dito da boca para fora mas profundamente sentido. E esse estilo de comunicação é responsabilidade de todos e não apenas dos jornalistas.
O Papa Francisco propõe São Francisco de Sales como modelo de comunicador: «A sua mansidão, humanidade e predisposição a dialogar pacientemente com todos, e de modo especial com quem se lhe opunha, fizeram dele uma extraordinária testemunha do amor misericordioso de Deus.» Esse é o «falar segundo o estilo de Deus» que todos devemos aprender. No contexto atual, a forma como se comunica de modo a tornar alguma ideia viral parece mais importante do que a própria verdade dos factos. Urge, pois, diminuir o volume de quem fala alto e grosso, tentando impor-se a si mesmo, e dar voz a quantos estão «empenhados em desmantelar a psicose bélica que se aninha nos nossos corações».
3. No passado fim-de-semana, a atriz inglesa Kate Winslet, ganhou o prémio BAFTA de melhor atriz principal, o quarto da sua carreira, e aproveitou o discurso de agradecimento para alertar para o impacto das redes sociais na vida das crianças e jovens. No seu último filme, ela interpreta o papel de Ruth, mãe de Freya, uma adolescente que se distancia cada vez mais da vida real à medida que a internet consome o seu quotidiano entre scrolls nas redes sociais. Ao terminar, deixou o apelo emocionado: «Queremos os nossos filhos de volta».
4. Também a Igreja está presente de forma ativa nas redes sociais. E «também na Igreja devemos fazer a nossa parte a fim de promovermos uma utilização responsável da tecnologia e um estilo de comunicação que beneficie a humanidade» (Papa Francisco, O que vos peço, em nome de Deus. Editorial Presença: Barcarena, 2023, p. 37). No entanto, contam-se pelos dedos os projetos interessantes de evangelização usando as redes sociais. O que mais se vê é uma utilização quotidiana de ferramentas que se usa porque “todos usam” mas que levantam inúmeras questões éticas que parecem estar a passar ao lado dos nossos bispos. É pena.
5. É bom que neste Dia Mundial das Comunicações Sociais nos perguntemos sobre a forma como usamos as redes sociais. É uma forma saudável? É cordial? Cada um de nós deverá fazer um sério exame de consciência.