Uma das chaves de leitura do Evangelho de João é o “Eu sou”: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6a), «Eu sou o bom pastor» (Jo 10,11a), «Eu sou a ressurreição e a Vida» (Jo 11,25a), etc.

João Batista tem uma consciência muito clara de quem é e de quem não é: é um homem, não é Deus; é uma simples testemunha, não é o Messias, nem Elias, nem o Profeta. Uma testemunha, com uma existência iluminada por Deus, seguro que Aquele a quem empresta a sua voz dá sentido à sua vida. Fala pouco, mas diz muito com a vida. E nós sabemos o quanto os bons testemunhos arrastam as pessoas, fazendo mexer qualquer coisa dentro delas que inspira à mudança.

Ora, a fama de João ameaçava aqueles que viviam do culto oficial, os poderosos que granjeavam as vénias de todos e que não queriam perder o controle sobre a “fé” do povo.

Por isso enviaram emissários para o questionar: «Quem és tu?» (Evangelho), pergunta feita sem qualquer curiosidade mas com desdém, como quem pergunta: “quem é que julgas que és?”

Rodeado daqueles que o procuravam e ouviam, só uma pessoa com enorme maturidade espiritual e humana é capaz de não se aproveitar da pergunta e da situação para se exibir e responde: «Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’». João é apenas uma voz! A voz que clama no deserto dos nossos corações e das nossas vidas, cheias de coisas e tantas vezes vazias de sentido. É uma voz mas não é a Palavra.

Naquilo que poderia parecer “outro assunto”, as leituras deste domingo, convidam-nos à alegria: «Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus» (primeira leitura); «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (salmo); «Vivei sempre alegres» (segunda leitura).

No entanto, em tempos de pandemia, a alegria parece faltar-nos. A separação e ausência daqueles que amamos, a privação de liberdade e tantas outras coisas que a pandemia nos “roubou”, favorecem mais os sentimentos de ansiedade e tristeza do que de alegria.

Mas o Espírito do Senhor vem em auxílio da nossa fragilidade e angústia. Por isso, mesmo em tempos dolorosos e difíceis, é preciso não deixar «apagar o Espírito», rezando sem cessar, colocando-nos sempre na presença e nas mãos de Deus e deixando-nos conduzir por Ele, como fez João Batista. Talvez, ainda assim, nos seja difícil sorrir mas, pelo menos, viveremos estes tempos, que são os nossos, com alguma serenidade.

A serenidade é um dos frutos de quem, tanto diante de Deus como dos homens, sabe quem é e quem não é. Obrigado João.

 

Leituras:

1ª: Is 61,1-2a.10-11. Salmo Lc 1,46-48.49- -50.53-54. R/ Exulto de alegria no Senhor. 2ª: 1 Ts 5, 16-24. Evº: Jo 1,6-8.19-28. III Semana do Saltério.

 

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