Na tradição bíblica, o deserto é, como sabemos, lugar de prova e lugar de luta. 40 dias, 1 ano de Covid-19, 40 anos, ou o tempo de uma vida e de toda a vida, o deserto vem antes do anúncio, o silêncio vem antes da palavra.

Mais do que lugar de conversão, como para João Batista, o deserto torna-se lugar de prova messiânica, de luta contra Satanás. Mais do que espaço de purificação na linha dos zelotas, os de então e os de hoje, o deserto é campo de batalha.

Nas culturas mais antigas, já se encontravam os diabos mais diversos para tentar explicar a existência do mal. Continuamos a encontra-lo, tantas vezes, na pessoa dos que pensam e vivem de forma diferente de nós. E cada um parece ter o seu, feito à medida, como se o nosso olhar enviesado e o coração entorpecido pelo pecado pudessem ser bons alfaiates.

Mas o diabo que Jesus vence (Evangelho) é o que se expressa na opressão dos mais pobres e frágeis da sociedade, na violência que mata e na mentira que distorce e deforma e que impede o ser humano de viver em liberdade, como verdadeiros filhos de Deus.

A ida ao deserto, reveste-se, assim, de desígnio de uma vida inteira, de quem se deixa impelir pelo Espírito; de luta contra o que explora o homem e não o deixa ser homem, para – como Jesus – a todos conduzir a Deus (segunda leitura).

Mas não basta passar pelo deserto, como turistas, como pode acontecer passar esta e todas as quaresmas da nossa vida. É preciso estar no deserto, numa atitude de constante luta e vigilância.

Há anos, num determinado contexto e determinada realidade humana, carregada de sofrimento e angustia, uma pessoa dizia-me: «os senhores padres costumavam passar por aqui; agora estão estão cá. E isso faz toda a diferença».

É preciso estar! É preciso ir e estar no deserto para calar esse ego diabólico e fora do sítio que nos eleva a reis do Facebook e arredores mas nos vai matando por dentro e anula quem está ao nosso lado. O deserto, diz Pablo d’Ors (O Amigo do Deserto, Quetzal, Lisboa, 2019), coloca diante de nós «um horizonte vazio, um espelho do nada em que consiste o homem, por mais que se esforce por parecer o contrário» (p. 139).

Eis-nos no primeiro domingo da Quaresma, numa quarentena que já dura há quase um ano. Achar que por isso, pela idade, estututo ou por registo de 'obras valerosas dilatando a fé e o império' (Lusíadas, Canto I,2) já não precisamos de ir ao deserto, será, com certeza, pura ilusão. Pelo contrário, a confusão generalizada, a ansiedade, a falta de serenidade diante da doença e, sobretudo, a prevalência de tantas situações de opressão e desumanidade, podem ser alguns sinais de que hoje, mais que nunca, não nos podemos furtar ao combate.

Por nós mesmos, e por quantos connosco saíram da ‘arca’ (primeira leitura).

 

Leituras:

1ª: Gn 9,8-15. Salmo 25/24, 4bc-5ab.6-7bc. 8-9. R/ Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade, para os que são fiéis à vossa aliança. 2ª: 1 Pe 3,18-22. Evº: Mc 1,12-15. I Semana do Saltério.

 

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