A missão de Jesus é entregar a sua vida aos Homens. Mas sabe que, pelos Homens, vai ser entregue à morte.

“O Amor não é amado”, dizia São Francisco de Assis, em lágrimas, depois que o Senhor lhe imprimiu no corpo as chagas da sua Paixão e de perceber mais perfeitamente o amor de Deus e a miséria dos Homens.

“O Amor não é amado”

Na verdade, não podemos dizer que amamos a Deus quando o nosso coração transborda de ódio e rancor por alguém.

Não podemos dizer que acreditamos no Senhor, se não fazemos da nossa vida, como Ele, uma entrega aos outros.

Não podemos dizer que adoramos Jesus, se fugimos da sua condição humilde.

Nem podemos seguir o Mestre que faz milagres, se não o seguirmos também no caminho do calvário.

Por isso, enquanto caminham através da Galileia, Jesus procura estar a sós com os seus discípulos, dedicar-lhes o pouco tempo que lhe resta, para que ao menos entendam o essencial do “Evangelho da Vida”.

Eles pensam que esta é uma viagem como tantas outras que fizeram com o Mestre. Mas o Senhor sabe que o caminho para Jerusalém só terá retorno na Ressurreição. Não há tempo a perder. É preciso prepará-los.

Os discípulos caminham, mas não nos passos de Jesus. Pelo contrário, enquanto Jesus, que é de condição divina, tomou a condição de servo e humilhou-se a si próprio (Cf. Fl 2,6-11), eles “discutiam uns com os outros sobre qual deles era o maior” (Mc 9,34).

Está na hora de expor claramente o que se vai passar, terá pensado Jesus: os Homens, por quem me entrego todos os dias, vão matar-me, declarou (Cf. Mc 9,31).

É a segunda vez que fala nisso. Começa a tornar-se incómodo. Aquilo que o Senhor lhes diz poria fim ao triunfo messiânico que esperam, por isso “têm medo de o interrogar” (Mc 9,32). Preferem fazer de conta que não é nada com eles. É melhor não saber. É mais fácil fugir aos problemas, não pensar nisso ou andar entretidos com o Big Brother.

Primeiro não perguntaram sobre o sentido do que o Senhor acabara de dizer, depois não responderam à pergunta de Jesus sobre o que discutiam. Deixa ver se estas ideias lhe passam! Mas não passam.

Não perceberam nada! Não percebemos nada! Não importa quem é o maior, mas quem mais se entrega, quem mais ama, quem mais dá vida, quem mais serve. “Quem quiser ser o primeiro será o último e servo de todos” (Mc 9,35b).

Para que entendam, “Jesus pega numa criança e coloca-a no meio deles” (Cf. Mc 9,36), não tanto pela sua inocência ou pureza, mas porque é frágil como frágil é a vida e como frágeis são as relações, e pega na criança porque é pequena, como pequenos somos nós diante do mistério da entrega de Jesus pela humanidade.

“O Amor não é amado”

Mas quando nos encontramos na cama de um hospital, percebemos a nossa fragilidade e pequenez e o sentido da imposição das cinzas no início da Quaresma... “lembra-te que és pó”. Assim se compreende, também, a futilidade da discussão dos discípulos sobre qual deles é o maior.

Somos pó, mas pó a que o Senhor pode e quer dar vida, se nos abrimos a acolhemos os outros na sua debilidade.

Quem acolhe Jesus, na humana fragilidade de cada ser humano, acolhe também a sua divindade: “Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe” (Mc 9,37).

Também nós fazemos caminho com Jesus e nos passos de Jesus, quando ajudamos os mais frágeis e pequenos a sentirem que são, de facto, os primeiros aos olhos de Deus.

Mas não somos ingénuos. Percebemos que, nos dias de hoje, quem tem uma posição clara na defesa da vida, desde a concepção à morte natural, que se opõe ao aborto e à eutanásia, arrisca-se, como Jesus, a ser caluniado e perseguido (Sb 2,10-20), a ser considerado medieval ou atrasado.

Vivemos num tempo de grande diversidade de marcas de cosméticos mas de pensamento único e do politicamente correto, definido não por essa multidão de nomes e rostos anónimos que todos os dias entrega a sua vida pelos filhos, trabalha para lhes oferecer oportunidades de futuro e paga impostos, mas por parasitas que vivem de comentários da vida dos outros e que só entenderão o que é o amor se primeiro perceberem que são pó.

“O Amor não é amado”

Pensemos, pois, em quem realmente é importante para nós. Os cantores famosos? Ou o padeiro que, de madrugada, trabalha para eu ter pão fresco pela manhã?

Os desportistas que ganham milhões? Ou os funcionários que recolhem o lixo e mantêm as nossas cidades limpas?

“Aquelas que querem namorar com o agricultor”? Ou o agricultor de mãos calejadas que, faça chuva, faça sol, trabalha a terra para encher de cor e legumes frescos a nossa feira?

Os influencers, não se sabe bem de quê? Ou os professores que ano após ano, sem saberem onde vão ser colocados, arriscam entregar-se à educação dos filhos dos outros?

As atrizes das novelas? Ou as assistentes operacionais que, por um salário miserável, de dia, de noite, fins-de-semana e feriados, dão de comer e ajudam na higiene daqueles que mais amamos e que se encontram nos lares ou doentes nos hospitais?

[Mundo parvo este, que alimentamos com o comando da televisão]

Grande, é quem põe a sua vida ao serviço dos outros, ao serviço da vida. Aqueles que não esperam homenagens, nem medalhas, nem tocam trombeta cada vez que fazem algo de bom.

Grande, é quem sabe ser impossível ser feliz com gente infeliz à sua volta.

Grande, é quem trabalha duro pelo pão de cada dia, mas sabe também que a vida não é só trabalho, e o que os move, mais do que o dinheiro, é o compromisso pela construção de um mundo mais justo e fraterno.

Para Jesus, há uma enorme grandeza na humildade da nossa entrega.

Para que o Amor seja amado.

 

Leituras:

LEITURAS: 1ª: Sb 2,12.17-20. Salmo 54/53,3-4.5.6 e 8. R/ O Senhor sustenta a minha vida. 2ª: Tg 3,16 – 4,3. Evº: Mc 9,30-37. I Semana do Saltério.

 

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