No Evangelho do passado domingo, enquanto Jesus falava da doação da sua vida aos Homens, os discípulos discutiam entre si sobre qual deles era o maior. Andavam com Jesus, mas não nos passos de Jesus. Hoje, no texto que Marcos nos oferece (Mc 9,38-43.45.47-48), as coisas não melhoraram muito.

João fez-se porta-voz dos discípulos e, julgando ter feito uma grande coisa, disse: “Mestre, nós vimos um homem a expulsar demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco” (Mc 9,38).

Quiseram impedi-lo de fazer o bem, só porque não andava com eles? Só porque não era do seu grupo? Expulsava demónios em nome de Jesus mas não pertencia ao grupo de ‘eleitos’, a quem, como percebemos, a vaidade subiu rapidamente à cabeça mas que tardaram a crescer na humildade que o Mestre lhes ensinara.

“Não o proibais […] Quem não é contra nós é por nós” (Cf. Mc 9,39-40).

• Quem não é contra o amor, é pelo amor.
• Quem não é contra o bem, é pelo bem.
• Quem não contra a vida, é pela vida.
• Quem não é contra a justiça, é pela justiça.
• Quem não é contra a criação, é pela criação.

Pois o amor, o bem, a vida, a justiça e o cuidado da criação, são obras de Deus.

E deixar-se levar pelo amor, o bem, a vida, a justiça e o cuidado da criação, é deixar-se levar por Deus, pelo Espírito de Deus, que sopra onde quer e quando quer.

Um episódio semelhante é-nos narrado na primeira leitura (Nm 11,25-29). Josué pede a Moisés que proíba Eldad e Medad de profetizarem, pois o Espírito de Deus havia poisado sobre os setenta anciãos do povo, cujas profecias, na verdade, foram ‘sol de pouca dura’, e não sobre aqueles dois que não foram para a tenda.

Moisés toca-lhe, então, na ferida: “Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta” (Nm 11,29). É verdade, Josué e João (e nós, tantas vezes) deixaram-se mover pelo ciúme!

Se o que aqueles dois homens no acampamento estão a fazer, tal como aquele que expulsa demónios, é bom, para quê impedi-los? Por ciúmes? Por inveja? O seu sentimento não deveria ser de alegria pelos dons que eles receberam? O nosso sentimento não deveria ser de alegria pelos dons que os outros receberam? Seja de profetizar, de expulsar demónios, de cantar, tocar violino, cuidar do jardim ou escrever poemas?

O Espírito Santo atua como bem entende. Ninguém, nem a Igreja, é dono do Espírito.

A nós toca-nos, tão só, tentar perceber, no meio do ruído e da confusão do mundo, onde e em quem Ele atua. E, se estivermos atentos, percebemos se o que alguém faz é para agradar a Deus ou por vaidade diante dos homens, e se o que alguém diz deixa que Deus fale e toque os nossos corações ou, pelo contrário, respira ciúme, inveja e um ego doente, que tenta chamar à atenção dos outros a todo o custo.

O Espírito Santo continua a atuar no mundo, na minha história, na nossa história, na minha tenda, na nossa tenda, mas também fora dela.

E os discípulos de Jesus – porventura como nós – confundiam o seu próprio grupo com o reino de Deus, ideia que perdurou de algum modo até ao Concílio do Vaticano II com o axioma: “Fora da Igreja não há Salvação”. Isto é, quem não fosse batizado, não tinha salvação possível.

Hoje compreendemos que fora da misericórdia e do amor é que não há salvação e que o reino de Deus se estende além da instituição eclesial, além das nossas comunidades, grupos, paróquias e igrejas, além dos nossos partidos políticos, da nossa cor, raça, língua ou nação. Todos aqueles que se empenham na construção de um mundo melhor, mesmo não se identificando com o nosso grupo ou sequer com uma religião, fazem crescer o reino de Deus.

Todo o ser humano ou grupo que expulsa demónios da nossa sociedade está, de certa forma, a abrir caminho para o reino de Deus. E expulsar demónios da nossa sociedade significa trabalhar para a libertar do mal, do vício do jogo, do álcool ou drogas, da fome, da guerra, da violência doméstica e violência sexual, do abuso de poder, da corrupção, dos ‘salários miseráveis’ (Cf. Tg 5,4), etc.

Toda a pessoa sensata quer o bem. Toda! Essa é a nossa natureza. É verdade que há alturas da vida em que parece que o mal se apodera de nós, nos sentimos no lodo. Mas basta um momento de lucidez e de vontade de mudança no nosso coração para Deus 'ter ponta por onde lhe pegar' e nos ajudar, com a sua graça, a voltar a levantar a cabeça, a erguer os olhos ao Céu e para aqueles que estão ao nosso lado.

Numa ocasião, Mahatma Gandhi, que praticava a religião Hindu, disse o seguinte: “sabemos que nunca conheceremos Deus se não combatermos o mal, mesmo à custa da nossa vida”. Isto significa que conhece mais facilmente a Deus um ateu que faz o bem e combate o mal do que quem se diz religioso mas não faz o bem nem combate o mal, a começar pelo mal que há em si próprio.

Aliás, os exageros literários que Jesus toma em seguida – cortar a mão ou o pé ou arrancar o olho que é ocasião de escândalo – (Cf. Mc 9,42-48), não servem senão para expressar de forma absoluta o dever de fazermos o bem e evitarmos o mal.

Mas se há escândalos maus, também há escândalos bons. As pessoas muitas vezes escandalizavam-se com Jesus (Cf. Mc 6,3) pois ele curava ao sábado, sentava-se à mesa com gente de má fama, aceitava mulheres no seu grupo e deixava-se, inclusive, tocar por algumas delas com má reputação. De tal modo, que Jesus proclama: “Bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo” (Mt 11,6).

Do mesmo modo, quem se escandaliza por eu ou outra pessoa declinar o convite de uma família conhecida e abastada da cidade para ir comer com os pobres um prato de arroz e atum no refeitório social do GASC (Grupo de Acção Social Cristã, de Barcelos) ainda não percebeu nada do Evangelho.

E quem se escandaliza por eu ou outro padre abraçar no confessionário uma senhora que, nalgum momento da sua vida, se prostituiu e agora chora compulsivamente a sua história pessoal e o seu pecado, também ainda não percebeu nada do Evangelho.

Por vezes perdemo-nos. Mas estou certo de que a procura sincera de sentido para a vida há de levar-nos, de algum modo, e em algum momento, a Deus, umas vezes mais a direito, outras vezes mais a torto, umas vezes mais rápido, outras vezes mais devagar. É preciso dar tempo ao coração para se recompor!

E, em muitos casos, há de levar-nos também a reconhecer na Igreja Católica um caminho belíssimo para chegar a Deus e uma família com a qual podemos, juntos, construir um mundo mais fraterno. Cada um ao seu ritmo.

Hoje celebramos o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, este ano sob o tema: “Rumo a um nós cada vez maior”.

Criados à imagem da Santíssima Trindade, portanto comunhão na diversidade, não podemos permitir que aqueles que habitam as periferias existenciais, entre os quais se contam os migrantes e refugiados, sejam os que mais sofrem diante de nacionalismos exacerbados e individualismos radicais, que dividem o ‘nós’, que dividem as pessoas, e que ferem de morte a comunhão entre as nações, as religiões, os grupos, as comunidades.

Sermos membros da Igreja Católica, torna-nos chamados a abraçar a sua universalidade, a acolher a diferença e a diversidade como um dom de Deus, “a sair pelas estradas das periferias existenciais para cuidar de quem está ferido e procurar quem anda extraviado, sem preconceitos nem medos, sem proselitismo, mas prontos a ampliar a tenda para acolher a todos” (sobre estes dois parágrafos anteriores ler a Mensagem do Papa Francisco para o 107º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado).

Num acampamento, pode haver muitas tendas diferentes, de diversas cores, umas maiores, outras mais pequenas, do mesmo modo que há muitas religiões, filosofias e formas de estar na vida, mas, cada qual, a seu jeito, cumpre a função de acolher alguém e, se aberta, ser ponto de chegada e partida, e ponto de encontro. O importante é estar aberta!

Na grande tenda da Criação, na nossa Casa comum, nunca se fechem as portas a ninguém. Ela seja espaço para acolher, para estar, celebrar, viver, sem ciúmes nem invejas, sem sincretismos que abafem as diferenças, mas gratos porque a diversidade da Criação é, de facto, um tesouro inestimável que me enriquece a mim, que nos enriquece a nós.

Quem não é contra nós é por nós”.

Por isso alegremo-nos e celebremos a vida, de portas abertas, na nossa tenda e fora dela!

 

Leituras:

LEITURAS: 1ª: Nm 11,25-29. Salmo 19/18,8.10.12-13. 14. R/ Os preceitos do Senhor alegram o coração. 2ª: Tg 5,1-6. Evº: Mc 9,38-43.45.47-48. II Sem. do Saltério.

 

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