«Mulher, é grande a tua fé.»
Que fé? perguntamos nós, porque ela era pagã, não pertencia ao povo judeu, o povo da Aliança, não frequentava a sinagoga e, muito provavelmente, invocava outros deuses.
A fé grande desta mulher, em oposição à dos discípulos de Jesus, «homens de pouca fé», não estava fundada em sistematizações doutrinais, mas no ‘credo’ das mães, - sim, há um ‘credo das mães’ -, de que a misericórdia de Deus, diante do sofrimento humano, e, em particular das crianças e dos mais frágeis, não atende às fronteiras criadas pelos homens.
Vejamos o texto. Uma mulher aproximou-se de Jesus aos gritos: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.» Entrar aos gritos não é propriamente a melhor maneira de nos aproximarmos de alguém, sobretudo se esperamos algo dela.
Mas nós compreendemos e até conseguimos sentir-nos solidários com esta mulher. A sua filha vive atormentada por um demónio. As reações podem ser diversas: uns gritam, outros choram, outros ficam sem conseguir reagir. Mas qual é a mãe que não fica atormentada com as tormentas dos filhos?
«Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.» Mas Jesus «não lhe respondeu uma palavra.» E a nós, que começamos a sentir como nossa a dor desta mulher, causa-nos estranheza o silêncio de Jesus. Mas eis que, após a intercessão dos discípulos, não pelos melhores motivos mas apenas para que ela deixasse de os incomodar, Jesus se justifica: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Ah! Bendito ‘não’, capaz de fazer desistir filósofos e teólogos mas insuficiente para roubar a esperança a esta mulher e calar o seu grito de desespero. E se não vai de pé, vai de joelhos! «Socorre-me, Senhor», disse ela. Mas Ele retorquiu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos».
«É verdade, Senhor;» – insistiu ela, com inteligência – «mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Dá a impressão que este é o momento em que Jesus repensa de algum modo o seu ministério. Graças à perseverança desta mãe, Ele percebe que a sua missão não passa apenas pelas «ovelhas perdidas da casa de Israel» mas por todas as ovelhas. «Todas, todas, todas», diria o Papa Francisco.
É incrível como esta mulher, com a sua dor, ajudou Jesus de Nazaré a repensar o seu ministério. E quantas mulheres incríveis me têm ajudado a mim ao longo dos anos a repensar o meu ministério para o tornar mais inclusivo. E quantas mulheres e homens incríveis não estão todos os dias ao nosso lado ajudando-nos a ser mais abertos e tolerantes, formando de todos os povos um só povo e uma só família.
Esta mulher tinha razão... Como poderia Deus excluir quem quer que fosse da sua mesa?
Os homens que criam fronteiras, que erguem barreiras, que dividem a humanidade em classes e categorias diferentes, esses são os verdadeiros pagãos.
«Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas».