No deserto, o povo judeu lamenta-se da sua sorte. Talvez tivesse sido melhor não dar ouvidos a Moisés e permanecer no Egipto. Escravos, mas de barriga cheia. Ali não faltava pão e carne.

Mas será que o pão e a carne satisfazem plenamente alguém?

Uma mulher timorense contou-me uma vez que, no tempo da ocupação indonésia, os militares ofereciam arroz e búfalos à população, construiram escolas e centros de saúde, e desenvolveram a rede elétrica e de distribuição de água. “Quase não precisávamos de trabalhar”, acrescentou, “mas não éramos livres.”

O ser humano tanto é capaz de passar uma vida inteira a queixar-se da sua sorte e a lamentar-se, numa espécie de insatisfação doentia, que ‘azeda a carne’ e esgota quem está ao lado, como de lutar por valores maiores do que si próprio, que ‘adoça o pão’ e mobiliza quem está ao lado.

As multidões, semelhantes às que “murmuraram no deserto contra Moisés e Aarão” (Ex 16,2), também continuam atrás de Jesus e Ele confronta-as com a verdadeira razão para o seguirem: “procurais-me porque comeste dos pães e ficastes saciados” (Jo 6,26). Acusa-os de um discipulado materialista.

«Que devemos, então, fazer para praticar as obras de Deus?» (Jo 6,28), perguntaram-lhe. Querem obras concretas, a papinha toda feita, que Jesus ou alguém – o horóscopo ou a bruxa por vezes também servem - lhes diga, com absoluta certeza, que se salvam se acenderem uma vela, rezarem 24 Pai-Nossos ou oferecerem uma galinha ao padre da freguesia.

Queremos um Deus que caiba na concretude dos nossos estômagos e das nossas limitações, um Deus que nos seja favorável e nos dê saúde, uma vez que passamos uma vida inteira a fazer o bem, numa troca de favores ou numa imagem que construimos de Deus, que facilmente se desmorona diante do sofrimento e do mal. Esse Deus, feito à nossa medida, de facto, não existe nem pode existir, pois o primeiro critério da ação divina é a liberdade com que nos criou e que nos responsabiliza.

Ora, Jesus, por muito bondoso que seja, é também mestre, pedagogo, e sabe que o caminho não é nem pode ser o da infantilização da fé e da vida.

Por isso lhes diz: “Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna” (Jo 6,27), isto é, trabalhai tendo como motivação não apenas o prato de comida mas algo mais, que dê sentido à vida, que alargue os vossos horizontes.

Pois… é possível ter a barriga cheia e o coração vazio.
Cheia de refeições caras, viagens luxuosas e roupas vistosas, e o coração vazio de amor.
Cheia de likes no Instagram e de coisas inúteis, mas o coração vazio de generosidade, doação, sacrifício, caridade, entrega, do que vale a pena… vazio de Deus.

Basta abrirmos as secções ‘Vida’ e ‘Glamour’ no portal sapo.pt ou qualquer revista cor-de-rosa, para percebemos a que São Paulo se refere quando diz: “os pagãos vivem na futilidade dos seus pensamentos” (Cf. Ef 4,17-18).

Mas então que trabalho é esse que Jesus nos pede, “pelo alimento que dura até à vida eterna”? Acreditar n’Ele.

Acreditar é um trabalho? Sim! Acreditar em Jesus não é um exercício teórico mas um trabalho, que há-de ocupar-nos ao longo de toda a nossa vida, que nos compromete, cuidando dos mais frágeis à nossa volta, dando alento a quem está triste, perdoando a quem nos fez mal, lutando pela justiça e pela paz, empenhando-nos mais ativamente na Igreja, essencialmente, vivendo como Jesus viveu e amando como Jesus amou, como diz a canção do Padre Zezinho.

Um dia uma criança me parou
Olhou-me nos meus olhos a sorrir
Caneta e papel na sua mão
Tarefa escolar para cumprir
E perguntou no meio de um sorriso
O que é preciso para ser feliz?

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que eu dormiria muito mais feliz

Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que eu dormiria muito mais feliz

O modo que temos de crer em Jesus é amar como Ele amou. É acolhê-lo nas suas palavras bondosas e nos raspanetes merecidos, é renovarmos-nos pela transformação espiritual”, “pondo de parte o homem velho” que há em nós e “revestirmos-nos do homem novo, criado à imagem de Deus” (Cf. Ef. 4,22-24), é aceitar a lógica de Deus, que “faz chover o maná” (Cf. Sl 78(77), 24) sobre bons e maus, é deixarmos-nos conduzir pelo Espírito Santo que nos habita, fazermos-nos amor que conduz ao Amor, pão partido que conduz ao “pão da vida” (Jo 6,35), o único que sacia completa e verdadeiramente.

É também cuidar da Terra Prometida, de toda a criação, que avança junta “para a meta comum, que é Deus, numa plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina.” (Cf. LS, nº 83)

Na semana em que esgotamos os recursos naturais de 2021, vale a pena questionarmos-nos se precisamos realmente de tanta carne na panela.

A cinco meses do final do ano, já estamos a viver em crédito, que há de ser pago pelas gerações mais novas, as nossas crianças e aqueles que ainda não nasceram.

Ao jornal The Guardian (28/07/2021), o cientista da NASA Peter Kalmus afirmou que “temos zero anos antes do colapso climático e ecológico, porque ele já chegou”.

Desde 2015, todos os anos são batidos recordes de temperatura máxima, milhões de hectares de floresta ardem e inundações destroem casas e ceifam vidas. Entre 1970 e 2016 houve um declínio médio de 93% das espécies migratórias nos rios da Europa e 28 mil espécies da fauna e da flora no mundo estão em perigo de extinção já nesta década.

Já o desperdício alimentar no mundo ronda os 40%... 4 em cada 10 peixes, 4 em cada 10 cenouras, 4 em cada 10 maças, 4 em cada 10 batatas.

Mas continuamos a consumir como se não houvesse amanhã, a recusarmos-nos a mudar os nossos hábitos, a pegar no carro para fazer 300 metros, a usar garrafas de plástico como se fossem a seguir desaparecer por milagre, a comprar roupas baratas, feitas no Bangladesh por mão de obra infantil, como se não fosse nada connosco,… até a desgraça um dia nos bater à porta, neste ‘cantinho à beira-mar plantado’.

Mas ainda vamos a tempo, de viver como Jesus vivia, “em plena harmonia com a criação.” (LS, nº 98)

A tempo de reconhecer a sobre-exploração humana do planeta, a tempo de pedir perdão a Deus, assumindo a nossa responsabilidade individual, a tempo de diminuir o consumo de recursos, de água, de carne e peixe, de reduzir o desperdício e de evitarmos que a Terra Prometida se torne numa terra que nada produz.

Ainda vamos a tempo de “sonhar como Jesus sonhou”
Ainda vamos a tempo de “sorrir como Jesus sorria”
“E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que eu dormiria muito mais feliz.”

 

Leituras:

1ª: Ex 16, 2-4. 12-15. Salmo 77 (78), 3 e 4bc. 23-24, 25 e 54. 2ª: Ef 4, 17. 20-24. Evº: Jo 6, 24-35. II Sem. Saltério.

 

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