O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo” (Is 50,5). A pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mc 8,29a) ressoa no nosso coração e dela não podemos fugir. É pergunta que não aceita respostas evasivas.

“Quem é este que fala com autoridade” (Cf. Lc 4,32), “a quem até o vento e o mar obedecem” (Cf. Mc 4,41), e que toca ‘prodigiosamente’ (Cf. At 2,22) a vida de quem n’Ele acredita?

Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias ou um dos profetas (Cf. Mc 8,28). O jackpot há-de sair a alguém. Saiu a Pedro: “Tu és o Messias” (Mc 8,29b), disse ele. Acertou na resposta. Talvez a soubesse. Mas sem compreender o seu alcance.

Para Pedro, o Messias vem para impor o seu Reino, de algum modo como os líderes políticos e religiosos de então. Jesus não nega que é o Messias mas logo se identifica com o Filho do homem, que ama e se entrega aos outros por amor.

Lógica que anciãos, sacerdotes e escribas não entendiam. Nem nós. Neste mundo, que é o nosso, onde muitos são incapazes de preocupar-se com o bem estar dos outros quanto mais dar a sua vida por eles. Primeiro ‘eu’, segundo ‘eu’ e terceiro ‘eu’.

E porque Jesus é tão diferente, “tem de sofrer e ser rejeitado” (Cf. Mc 8,31) como são rejeitados todos os que são diferentes.

Jesus não admite a infantilização da fé ou que se brinque com a vida, por isso repreende Pedro com palavras duras para o fazer despertar. E diz muito claramente a quem o ouve: “Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo”, esqueça-se de si próprio, comece a olhar para lá do seu umbigo, “tome a sua cruz”, feita de outros rostos e outras vidas, perfumada de sacrifícios e doação, “e siga-Me” (Cf. Mc 8,34).

A descoberta da identidade messiânica de Jesus não pode ser meramente intelectual ou tipo totoloto; é na imitação de Cristo, no discipulado, no seguimento, entregando igualmente a nossa vida, que se descobre.

É verdade que nem sempre é fácil perceber o que fazer e como o fazer, como viver e como dar vida, o que pode ser motivo de ‘ansiedade’ e ‘angústia’ (Cf. Sl 116,3).

E é verdade que, com a morte dos profetas, Deus parece ter-se calado, o que torna as coisas mais difíceis. Um silêncio particularmente ensurdecedor diante do sofrimento das crianças e dos inocentes.

Quando chegamos a Laleia, em Timor-Leste, o número de crianças que morriam antes dos 5 anos era medonho. Também eu, padre, no primeiro funeral que fiz de um bebé, me perguntei em lágrimas onde estava Deus. Mas logo o Senhor nos inspirou a fortalecer o trabalho da Pastoral da Criança e da Pastoral da Saúde e, mais tarde, a abrir uma pequena clínica, conseguindo-se, em apenas uma década, reduzir drasticamente a taxa de mortalidade materno-infantil.

Onde estava Deus? Estava em quem dava vida.

Nós precisamos de razões e de racionalizar a fé mas Deus estava e está na vida, na doação de vida aos outros.

Acreditar que Jesus é o Messias significa, pois, ir dando vida, para que a morte não tenha a última palavra na nossa vida e na vida dos outros, mesmo que isso exija sacrifício e cruz. Parece um contra-senso mas não é, porque “a fé sem obras está morta” (Cf. Tg 2,17) e porque Jesus disse: “quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á” (Mc 8,35b).

A quem me pergunta ‘onde está Deus?’ eu respondo: na tua vida, de facto, ainda não é fácil encontrá-lo, mas está lá,... oxalá um dia se veja mais e melhor...

Toda a vida de Jesus é, portanto, uma vida com sentido. Mas a sua cruz, a sua doação ‘apaixonada’ aos homens e a sua morte também.

O mesmo poderíamos dizer da vida e morte do Pe. Mychal Judge, franciscano e capelão dos bombeiros de Nova Iorque, vítima do 11 de setembro de 2001.

E da quase desconhecida Dª Teresa Granado que, em Coimbra, se dedicou ao cuidado de crianças e adolescentes abandonados ou vítimas de maus tratos.

E de tantos pais que se sacrificam inteiramente pelos seus filhos.

E de alguns filhos que cuidam com amor dos pais até ao fim.

Tudo vidas e mortes com sentido.

Mas há vidas que, por não encontrarem sentido, optam por uma morte - sem nenhum sentido - e que destrói completamente família e amigos, tantas vezes fazendo-os carregar o fardo de um sentimento de culpa que, na verdade, não têm.

Falamos do suicídio. E falamos do suicídio com um profundo respeito por todos aqueles que o cometeram e pelas suas famílias. É por eles, de um modo especial, que gostaria que rezassemos hoje.

Estamos no mês de setembro, também por vezes designado por ‘Setembro Amarelo’. O Padre Lício Vale explicou ao Vatican News que tudo começou com um jovem americano chamado Mike Emme, que adorava carros, em especial o Ford Mustang de 1968.

Numa ocasião encontrou um num campo abandonado. Depois de comprá-lo, trabalhou afincadamente para o reconstruir e pintou-o de amarelo. Os amigos chamavam-lhe ‘Mustang Mike’. Era um jovem muito alegre, amoroso e sempre disposto a ajudar os outros mas estava a sofrer por dentro. Apesar de sociável e extrovertido não sabia como traduzir por palavras a dor interior que sentia, nem como procurar ajuda. Até que tirou a sua própria vida. Tinha 17 anos.

Com a dor da perda, os amigos fizeram cartões com mensagens sobre a importância de pedir ajuda, marcando-as com fitas amarelas, a cor do carro do seu amigo. Foi então que começaram a ser contactados por pessoas que decidiram procurar ajuda, inspiradas pelos cartões.

E foi assim que nasceu o Yelow Ribbon, uma associação fundada pelos seus pais e amigos, e o ‘Setembro Amarelo’, mês de prevenção do suicídio.

Em Portugal, em média, três pessoas por dia põe termo à vida. A maior incidência de casos está nos homens com mais de 65 anos, do interior e sul do país e dos meios rurais. Uma em cada seis mortes de pessoas entre os 10 e os 29 anos em Portugal é por suicídio.

Falar sobre o suicídio encoraja o ato? Não. Falar sobre isto, para que deixe de ser tabu, também na Igreja, pode ser o primeiro passo para alguém procurar ajuda e encontrar algum alívio por poder partilhar o que lhe causa sofrimento interior, psíquico e/ou espiritual.

Há inúmeros fatores de risco, entre os quais, por exemplo, ter pensamentos ou planos de suicídio, já o ter tentado antes, conhecer alguém que o tenha consumado, estar isolado, ter doença mental, ser impulsivo, abusar de álcool e/ou drogas, ter uma doença grave ou não ter esperança no futuro.

A verdade é que a grande maioria das pessoas que morrem por suicídio sofrem de depressão, uma doença terrível, é certo, que causa enorme sofrimento na pessoa, mas para a qual existe tratamento disponível.

Por isso temos de estar vigilantes, no sentido fraterno e evangélico da palavra. Temos de estar atentos aos chamados ‘sinais de alarme’ que denotem alterações no comportamento dos nossos familiares, amigos e colegas de trabalho e possam constituir uma oportunidade para oferecer ajuda. Por causa da pandemia devemos manter o distanciamento físico mas não o distanciamento afetivo.

Por isso, se desconfia que alguém possa ter ideação suicida não desvalorize. Fale com essa pessoa. Ouça sem fazer qualquer juízo de valor e depois encoraje-a a procurar a ajuda de um profissional de saúde. Se o perigo for iminente ligue você mesmo para o 112 e não deixe a pessoa sozinha.

Se é você mesmo ou você mesma que tem ideias de suicídio, se sente desesperado/a ou que nada há a fazer, saiba que não é verdade. Há quem o/a possa ajudar. O primeiro passo será ligar para o 112 ou para a linha do SNS24 (808242424).

Se o seu sofrimento é marcadamente espiritual fale com um padre em quem confie, Ele ajudá-lo-á ou indicará alguém que possa ajudar.

Toda a vida tem sentido, mesmo quando não o encontramos.

Na nossa cruz e na nossa vida, nunca falte lugar para quem está em grande sofrimento psicológico e/ou espiritual. Se alguém com ideação suicida, que precise de falar, encontrar em nós não um tagarela - são tantos - mas alguém capaz de escutar ativamente, com certeza será maior a probabilidade de confiar e pedir ajuda.

E aí está Deus. Em quem escuta e dá vida.

 

Leituras:

LEITURAS: 1ª: Is 50,5-9a. Salmo 115/114,1-2.3-4.5-6.8-9. R/ Andarei na presença do Senhor, sobre a terra dos vivos. 2ª: Tg 2,14-18. Evº: Mc 8,27-35. IV Semana do Saltério.

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

 

 

Número Europeu de Emergência (112)

Se alguém está em perigo de vida, ligue imediatamente 112 e siga as indicações.

 

Serviço de Aconselhamento Psicológico (SNS 24)

Se tem sintomas de depressão ou tem pensamentos de suicídio, utilize o Serviço de Aconselhamento Psicológico, integrado na linha telefónica do SNS 24, através do 808 24 24 24.

 

Linhas de apoio

Contactos e Serviços Disponíveis