Dentro de duas semanas, celebraremos o domingo da alegria, alegria pela proximidade do Natal, pelo nascimento daquele que foi prometido por Deus, que não falha.

Nesse mesmo dia, na Igreja de Santo António, em Barcelos, iremos dar a bênção às grávidas, que, com Maria, vivem na feliz expetativa do nascimento dos seus filhos. Toda a gravidez é, de algum modo, promessa de esperança.

Também o povo de Deus vive na feliz esperança da vinda do Messias. A esperança casou com o futuro que já amanhece. É o tempo do Advento, que hoje começa.

Tempo de gestação.
Tempo grávido de novidade.
Tempo quase tão lindo quanto o que se lhe seguirá, porque a expectativa já gera vida.
Assim o novo ano litúrgico.
Assim tudo o que é novo em Deus.

Rebentos que o Senhor faz germinar, que despontam do alto e é preciso regar, vigiar de coração desperto, pois corações embriagados com mil afazeres estão prenhes de coisas que habitam na escuridão das gavetas e armários e facilmente se aterrorizam com os sinais no cosmos, no sol, na lua, nas estrelas, na terra e no mar.

É mais fácil encontrar segurança nas gavetas do próprio umbigo do que em Deus, no telemóvel e no chão do que no horizonte. Só olhamos para o alto na hora de fazer selfies. O olhar e o coração tornam-se pesados, como o de Caim, antes e depois de matar o seu irmão, como vamos também nós matando “Abel” com a nossa indiferença.

Mas neste Advento, «as forças celestes serão abaladas», as forças dos amuletos para dar sorte e afastar o mau olhado, dos signos, da cruz usada como superstição e outras coisas para comprar benesses de Deus ou do diabo, serão sacudidas, para dar lugar à fé no «Filho do homem que vem numa nuvem, com grande poder e glória».

É o próprio Senhor que vem e, com ele, uma chuva de bênçãos. Não se impõe. Vem ao nosso encontro.

Às vezes é a própria vida que é uma luta e nos torna cabisbaixos, dá vontade de desistir, de baixar os braços e adormecer.

Seja como for,
erguei-vos e levantai a cabeça!
Alargai o vosso olhar!
Vêde o sol que nasce das alturas e o brilho nos olhos de quem acredita.

Erguei-vos e levantai a cabeça
rezai para ver a vida desde Deus, com lucidez e confiança,
rezai, porque na oração cresce a esperança
rezai, porque a oração expressa confiança

Quando pedimos ao Senhor que nos livre de todo o mal, e de todas as coisas que se abatem sobre nós como trovoada, os trovões não desaparecem, mas o Senhor ajuda-nos a mantermo-nos de pé. Por sermos gente. Para sermos gente. Gente que se distingue dos outros bichos de Miguel Torga, não só pela racionalidade, mas sobretudo pela confiança no Senhor, nosso Deus.

Dom Martinho da Costa Lopes, sacerdote diocesano, Administrador Apostólico da Diocese de Díli, foi um incansável defensor dos direitos humanos. Na homilia que proferiu no dia 13 de Outubro de 1982, falou da morte de inocentes, usados como arma de guerra. No final da Missa, foi chamado ao comando da Intel e, sozinho, perante os generais indonésios disse corajosamente: «(…) em virtude da missão profética, que me assiste, sinto-me na necessidade imperiosa de denunciar ao mundo inteiro, como fiz esta tarde, o genocídio que se está praticando em Timor para que, ao morrermos, o mundo saiba ao menos que morremos de pé!».

É assim que o Senhor nos quer!
Que vivamos e morramos de pé,
que vivamos a olhar para o alto,
despertando a fé em nós e nos outros,
buscando Deus na vida,
acolhendo o seu Reino que já está a acontecer,
vivendo com os mais frágeis a aventura de cada dia,
multiplicando gestos que sustentam a esperança.

É tempo de responder na vida a Deus que nos quer erguidos. Hoje!

Não sei qual é «o primeiro dia do resto da tua vida», que Sérgio Godinho canta, mas, para mim, o primeiro dia do resto da minha vida é este, é hoje!

E o hoje está cheio – não de angustia e terror – mas da bondade e misericórdia de Deus:
hoje nasceu para vós um Menino (Lc 2,11)
hoje vimos maravilhas (Lc 5,26)
hoje chegou a salvação a esta casa (Lc 19,9)
Hoje estarás comigo no paraíso (Lc 23,43)
Hoje é o futuro da nossa vida e morte em Deus que se vai fazendo

Hoje, neste primeiro domingo do advento, assistimos ao desmoronar do mundo velho, do sofrimento, de angustias passadas.

Hoje levanto a cabeça e encho-me novamente de esperança.
Não quero, não posso dar-me por vencido,
não podemos dar-nos por vencidos.

Coloquemos a nossa confiança naquele Menino, Palavra e Pão.
É Deus, mas também é homem,
foi morto, mas a sua ressurreição devolve-nos a esperança.

Quando virdes tudo isto, sabei que «a vossa libertação está próxima».
Ele não se impõe. Vem ao nosso encontro. Vamos ao seu encontro!

E ao pegarmos no Menino, no presépio de Belém, sabemos que estamos nós em boas mãos!

 

Leituras:

1ª: Jr 33,14-16. Salmo: 25/24,4bc-5ab.8-9.10.14. R/ Para Vós, Senhor, elevo a minha alma. 2ª: 1 Ts 3,12–4,2. Evº: Lc 21,25-28.34-36. I Sem. do Saltério.

 

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