Nos inícios de 2007, numa das várias viagens que tive de fazer a Nusa Dua, na Indonésia, fiquei alojado em casa de um sacerdote alguns anos mais velho do que eu e fui com ele visitar várias famílias pobres da sua paróquia, num bairro de pescadores, sendo na sua maioria pessoas oriundas da ilha de Flores em busca de uma vida melhor.

Ficou-me na memória uma família em particular, que sofria com a doença de uma filha adolescente.

Sentados no chão da varanda, formando uma roda com os filhos, habituaram-se assim a comer, a rezar e a olhar um curto mas firme horizonte de esperança.

Convidaram-nos a sentar com eles. Ofereceram-nos chá de gengibre, que aceitamos com agrado.

A mãe chorou, de dor pela condição da filha, e de gratidão, porque o Senhor enviou à sua pobre casa, dois homens de Deus, para rezar com eles, um dos quais não falava sequer a sua língua, mas que se tinha dignado sentar no chão
daquele pequeno mundo, coberto com chapas enferrujadas de zinco, onde nenhuma autoridade civil ou pessoa importante quis entrar.

De algum modo, sentar é permanecer. É estar com… Para ouvir e falar. Para beber chá e rezar.

É assim que Jesus envia os seus apóstolos, dois a dois, sem nada para o caminho, sem segurança pessoal, sem meios.

Envia-os dois a dois, sem mochilas carregadas de ‘rococó linguístico’, que traquejam de caridade quem tem de ouvir, mas de mãos abertas, para dar e receber, para se darem e se receberem.

Dois a dois - a caminho - é condição para a missão! Não ‘cowboys solitários’, que dizem ir em nome da Comunidade, mas que estão sós diante do seu ego.

Só dois a dois se pode ser sinal do Reino de Deus, só em comunidade se pode testemunhar o Evangelho.

Podem ser pastores simples como Amós, ou pescadores como Pedro, novos ou velhos, homens ou mulheres, com ou sem o dom da palavra... porque Deus, ao contrário de nós, não divide as pessoas em categorias!

A única condição é que vão dois a dois, porque, se Deus é amor, quem não é capaz de sonhar a dois, escutar e partilhar a vida, trabalhar e sentar no chão despido, a beber o chã da comunhão e solidariedade com os pobres, não pode ser testemunha de Jesus.

Dois a dois para viverem o sonho de paz de que Deus fala ao seu povo e aos seus fiéis. Dois a dois, sem pararem pelo caminho, sem se perderem com coisas secundárias, ou prostituindo-se como Amasias e tantos funcionários do templo que procuram agradar a tudo e a todos menos a Deus.

Dois a dois, sem fazer disso profissão ou ganha pão. É vocação! É o Senhor que chama e envia, quem, como e quando quer. Primeiro doze, a Israel, depois 72, a quantos de coração a Ele se convertem. Para fazer-nos seus filhos. Dar-nos a conhecer o mistério da sua vontade e enviar-nos.

Porque é urgente partir, viver como arrependidos, e com os demónios do medo, que paralisam, todos expulsos. Cuidar dos enfermos no corpo, porque a vida é frágil. Muito frágil. Todos o sabemos e sentimos.

E curar os enfermos no espírito, sedentos de fama e poder, com o coração em guerra e capaz de pisar seja quem for. É urgente levar a paz aos corações armados até aos dentes. Sim, há corações com dentes.

Construir a paz é trabalhar e comer juntos, é sentar em roda, com a menina doente ao centro, com todos os meninos e meninas ao centro, com todos os emigrantes e refugiados, com todos os idosos e os que sofrem, com a terra que clama, com Jesus, ao centro.

E com cães solidários com a magreza dos donos, ali por perto como se fossem família, porque beber chá de gengibre, em copos altos e velhos de plástico, sentados no chão como quem tem todo o tempo do mundo, CREIO que faz mais pela paz do que qualquer pregação.

 

Leituras:

1ª: Am 7,12-15. Salmo 85/84,9ab-10.11-12.13-14. R/: Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor e dai-nos a vossa salvação. 2ª: Ef 1,3-14. Evº: Mc 6 7-13. III Semana do Saltério.

 

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