No passado domingo celebrou-se o
Domingo da Alegria.

O nascimento de alguém para a vida
- ou para a morte -
devia ser sempre domingo
porque a vida é um hino de louvor
ao Senhor dos dias
e a morte não é senão um até já
de quem nos precede no colo do Pai.

Na primeira leitura
Miqueias anuncia a alegria
num contexto de sofrimento,
tal como se percebe melhor o valor de algo
na sua ausência.

Anuncia a alegria - tão ansiada -
do nascimento de quem reinará sobre Israel.
«Ele será a paz».
Será tranquilidade, abundância de vida, felicidade plena.
Será Deus encarnado na nossa história
para acender as tochas de eternidade no coração.

«Será a Paz».
Nome e missão confundem-se
para esclarecer os cristãos
que procuram, acolhem e partilham essa Paz
como quem partilha pão.

Irá nascer em Belém-Efratá,
Belém, “casa do pão”,
Efratá, “fecunda”.
Ó fecunda casa do pão
que nos deste o Salvador!

Sim, partilhar a Luz e a Paz de Belém,
nunca estéreis,
como quem partilha Pão.

Por isso todo o cristão devia ser padeiro.
Alimentar-se e servir o Pão, a Paz e
a Luz de Belém aos outros.

Há quem se contente com migalhas,
como a comunidade a que se dirige
a Carta aos Hebreus.
É pena, pois Deus dá-se por inteiro.
Rapidamente passamos do entusiasmo a uma fé morna,
como café quente servido em chávena fria.

E sabemos que “casa onde não há pão,
todos ralham e ninguém tem razão”.
Mas na casa de Deus nunca falta.

Faltas tu.
Falto eu.

«Eis-me aqui», Senhor!
«Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’».

Deus chama e envia.
Chama e envia Abraão.
Chama e envia Miqueias.
Chama e envia Maria,
tal como na Eucaristia nos chama e envia a nós.

«Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se
apressadamente para a montanha»
e para lá das montanhas,
livre de si mesma, leve
como quem voa nas asas do Espírito
ao amanhecer de um dia de Primavera.

A Mãe de Deus e Mãe dos Homens
fez-se serva d’Ele e nossa,
para levar a Isabel a alegria
de ter sido tocada por Deus,
para vencer em nós
a orografia da solidão e do desânimo,
e juntos dançarmos de olhos postos no Céu!

Ó Senhora do Estremecimento…
Isabel estremece de alegria dizendo:
«Bendita és tu entre as mulheres».
Tu estremeces de alegria dizendo:
«a minha alma glorifica o Senhor…».
João Batista estremece de alegria no seio de Isabel.
Tudo e todos estremecem diante de Jesus,
que vem para sacudir os corações empoeirados,
libertar-nos dos embrulhos,
salvar-nos de nós mesmos,
e voltar a pôr-nos a caminho.
O resto é acessório.

Ou será que quanto mais luzinhas a piscar
mais encontro com Deus?
Não, é a Luz de Belém que ilumina os olhos e o coração.

Ou será que quanto mais presentes
mais ganho a Deus?
Não, os magos levaram a Jesus ouro, incenso e mirra,
porque reconheciam a sua realeza, divindade e humanidade.
Nós oferecemos presentes sem realeza nem divindade,
tantas vezes sem Jesus.

Ou será que quanto mais pessoas tiver
na minha festa de Natal mais amigos terei no Céu?
Não, o verdadeiro encontro dá-se a caminho,
nunca nas estações e apeadeiros.

Ó Senhora do Estremecimento…
De que valem luzes brilhantes
oferecidas por olhos doentes?
De que valem flores bonitas
oferecidas por um coração feio?
De que valem muitos amigos
se a vida de nenhum me fala do Céu?

E voltamos ao caminho
e voltamos ao encontro
de Deus e Maria, de Deus e Isabel,
de Maria e Isabel, de Jesus e João.
E de Deus connosco
Emanuel
na pobreza de um presépio

Ó Senhora do Estremecimento…
está quase
estamos quase

 

Leituras:

1ª: Mq 5,1-4a. Salmo: 80/79,2ac e 3b.15-16. 18-19. R/ Senhor, nosso Deus, fazei-nos voltar, mostrai-nos o vosso rosto e seremos salvos. 2ª: Heb 10,5-10. Evº: Lc 1,39-45. IV Semana do Saltério.

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