«Ia Jesus pôr-se a caminho, quando um homem se aproximou correndo» e lhe perguntou: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?» (Cf. Mc 10,17) Essa é a grande questão para qualquer bom judeu, como para qualquer bom cristão. A vida eterna.

Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser uma questão estranha para quem cresceu acreditando que o cumprimento escrupuloso dos mandamentos, desde a juventude (Cf. Mc 10,20), seria o suficiente para se salvar. No entanto, é possível que ele tenha interpelado Jesus porque, no fundo, essa forma de religiosidade não o satisfazia totalmente. Por isso, é uma pergunta corajosa e, colocada de joelhos, um ato de humildade.

Que hei de fazer para ser feliz? Não é o que todos queremos? Que hei de fazer para viver mais plenamente e experimentar, aqui e agora, o amor e a salvação de Deus a correr-me nas veias? Não é isso a vida eterna?

No caso deste homem, não é a falta de dinheiro que o impedia de ser feliz, pois «ele tinha muitos bens» (Cf. Mc 10,22). Mas por dentro continuava paupérrimo. Talvez o Mestre pudesse ajudar a preencher esse seu vazio interior, indicando o que lhe estaria a faltar. «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me» (Mc 10,21b). Vender o que tenho? Dar o dinheiro aos pobres? Um tesouro no Céu? Eu queria muito a vida eterna, mas não pensei que fosses exigir assim tanto de mim!

A economia divina não é igual à economia de mercado e a bolsa de valores morais não é igual à bolsa de valores mobiliários. A lógica de Jesus é muito diferente da nossa. Quando pensamos “falta-me uma coisa”, pensamos em como poderemos adquirir essa coisa que nos falta. Era o que este homem esperava. Juntar à sua coleção de bens, ritos e práticas, qualquer coisa mais que lhe estaria a faltar para poder ser feliz e salvar-se.

Mas Jesus diz a este homem – todos/as nós – que a única coisa que lhe falta é libertar-se dessa coisa e de todas as coisas que tinha acumulado sem necessidade e restituí-las aos pobres. Não digo partilhar, mas restituir. Devolver o que eu acumulei para ter uma despensa e armários repletos de coisas de que não preciso, mas fazem falta a outrem.

Por isso, quando alguém questiona porque é que Deus permite que milhões de pessoas passem fome e sede, temos de colocar essa questão do avesso: se tudo é dom de Deus, porque é que eu me acho no direito de acumular coisas de que não preciso e estragar outras tantas?

Só a título de exemplo, segundo cálculos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, em 2016, só os países industrializados, desperdiçavam 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos por ano, o que chegaria para alimentar os quase mil milhões de pessoas que passam fome ou têm uma alimentação deficitária. O responsável por esse desperdício não é Deus, somos nós. Mas, porque não queremos mudar nada nos nossos hábitos de consumo, é mais fácil culpar Deus, que tem as costas largas.

Portanto, este texto do Evangelho não é contra os ricos, não é contra quem tem dinheiro. Jesus sentiu, inclusive, simpatia, afeição, por este homem rico (Cf. Mc 10,21a). E o que comemos, vestimos e as obras no telhado não se pagam com ar e vento. Precisamos de dinheiro.

A grande questão é quando se gera uma espiral de insaciabilidade… Numa sociedade onde valemos pelo tamanho da nossa carteira, quem tem cinco quer dez, quem tem dez quer cem e quem tem cem quer mil. Nunca chega. E, desse modo, o dinheiro torna-se um deus. Como aquele homem, ajoelhamos diante de Jesus, mas retiramo-nos pesarosos, para adorar a ‘deusa raspadinha' e o ‘deus euromilhões’. De algum modo, isso faz parte da nossa natureza. O ser humano acredita no que lhe dá segurança. Em bebés era o colo da mãe; em adultos, a carteira.

Repito, este texto do Evangelho, não é contra os ricos. É contra aqueles que acumulam o que não precisam e não partilham com quem precisa, não restituem o que é dos pobres.

E esse pecado também os pobres o podem cometer. Por exemplo, se um pobre não partilha um pão que tem a mais com outro pobre, o deixa estragar, e, por fim, o deita fora, esse pobre não perde um pão, perde um irmão. Perde uma oportunidade de amar, … uma oportunidade de seguir o Senhor.

Isso acontece quando deixamos o dinheiro empobrecer-nos, tirar-nos as coisas mais valiosas: o desprendimento, a generosidade, a liberdade interior, a capacidade de ler as situações e o mundo com sabedoria. E enganamo-nos a nós mesmos achando que podemos comprar a felicidade, mais 10 anos de vida e até Deus.

Todos, pobres e ricos, temos a obrigação ética de evitar um estilo de vida consumista e abraçar um estilo de vida sóbrio, sinples, um pouco austero, que, de algum modo, valorize o que é realmente importante.

Mas é óbvio que também há muitos ricos cujo estilo de vida nos deve chocar profundamente e que, em vez de admirar e aplaudir, temos o dever moral de questionar. Por exemplo, como é possível que milhões de pessoas tenham de percorrer quilómetros todos os dias em busca de água potável e meia dúzia andem a passear no espaço, a 2,54 milhões de dólares por pessoa, por minuto? Estes não perderam milhões de dólares, perderam milhões de irmãos.

E o mesmo se diga de quem enriquece à custa dos preços pornográficos dos combustíveis, água e eletricidade.

Que lugar pode ter a Palavra de Deus no meio disto tudo? A Epístola aos Hebreus (Heb 4,12-13) diz-nos que não se trata de palavras que o vento leva, mas palavra viva, que toca profundamente, «discerne os sentimentos e intenções do coração» (Cf. Heb 4,12), ajuda a perceber o que há de mais obscuro nas nossas motivações, mas também os nossos dons. É palavra que transforma a vida!

Lembram-se que «ia Jesus pôr-se a caminho, quando um homem se aproximou correndo» (Mc 10,17)? Ricos ou pobres, se não nos tornarmos verdadeiramente livres, com passos leves e um coração cheio de Deus, por muito que corramos, nunca o alcançaremos.

Por isso, mais do que ouro, prata ou pedras preciosas, peçamos ao Senhor o dom da sabedoria (Cf. Sb 7,7-11), para sabermos viver e para que saibamos com um pão, ganhar um irmão.

 

Leituras:

LEITURAS: 1ª: Sb 7,7-11. Salmo 90/89,12-13.14-15.16-17. R/ Saciai-nos, Senhor, com a vossa bondade, e exultaremos de alegria. 2ª: Heb 4,12-13 Evº: Mc 10,17-30. IV Semana do Saltério.

 

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