Há vários anos que recebemos, nesta igreja de Santo António da Cidade, muitos peregrinos que passam por Barcelos a caminho de Santiago. Entre muitas outras, há duas coisas que os peregrinos aprendem no caminho: a primeira é que parar e descansar é tão importante quanto andar; a segunda é que quem tem muita pressa de chegar ao destino dificilmente desfruta daquilo que o caminho tem para oferecer. A ‘bênção do peregrino’ procura, pois, ser uma paragem no caminho, para retemperar forças, celebrar a fé com uma comunidade e fortalecer a relação com Deus.

Os textos da Sagrada Escritura hoje proclamados ensinam-nos justamente isso. Os discípulos regressam da sua primeira viagem missionária entusiasmados e cheios de histórias para contar sobre tudo o que fizeram e ensinaram, com certeza ansiosos pela próxima aventura. Mas, Jesus, que conhece cada ser humano, as suas necessidades e motivações, enquanto os ouve, vê que o que eles realmente precisam é de descansar e de se renovarem interiormente, de se deixarem “reconfortar” pelo Senhor (Salmo), de avaliarem o que acabaram de viver e de discernirem o que fazer a seguir. Por isso lhes diz “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco.” (Mc 6,31)

A função dos pastores não é, portanto, apenas a de levar as ovelhas por um bom caminho, mas também a de as ensinar a parar, a fruir do caminho e a aproveitar a paragem, "para que cresçam.” (Jr 23,3)

Mas, entretanto, uma multidão que os procura, antecipa-se a eles e, Jesus, movido por compaixão, muda a sua agenda e o seu programa, mas não o dos seus discípulos. Enquanto eles comem e descansam, Ele mesmo assume a missão de “ensinar muitas coisas” àquela gente, “porque eram como ovelhas sem pastor.” (Cf. Mc 6,34)

Facilmente podemos deduzir que aquelas pessoas trariam consigo problemas que exigiam ação imediata: fome, enfermidades, opressão, desemprego... coisas mais urgentes do que ouvir ensinamentos. Mas, com tantas urgências que a vida tem, facilmente nos perdemos nelas e nos esquecemos de que há uma vida interior e profunda em nós, que também precisa de ser alimentada, um coração doente que precisa de cura, um espírito aprisionado pelo medo que precisa de ser libertado, um ser egoísta que precisa de se comprometer com uma comunidade. Se é verdade que há um tempo para agir, o Senhor ensina-nos, hoje, que também há um tempo para parar…

Talvez achemos que agora é urgente aquela viagem de sonho, trocar de carro, aquela roupa ou acessório de moda, tudo urgente e imediato, coisas urgentes encadeadas noutras ainda mais urgentes, como se isso fosse viver.

Porventura...

  • Gastamos muito tempo a cuidar do cabelo e das unhas mas raramente nos questionamos sobre o sentido da vida.
  • Gastamos horas a viajar nas redes sociais mas desaprendemos de passear sem pressa no Parque da Cidade, de apreciar o canto dos pássaros e o estalido dos ramos das árvores, e de deslumbrar-nos com o perfume das flores.
  • Gastamos horas atentos, por compulsão, às notificações no telemóvel, mas não temos dois minutos para Deus e, tantas vezes, para a própria família.
  • Gastamos muito tempo a alimentar amizades no Facebook que, não raras vezes, escondem uma profunda solidão.
  • Gastamos-nos a cobiçar o que ainda não possuímos em vez de desfrutar gratuitamente de tantas coisas belas que nos são dadas a contemplar: um edifício, uma escultura, o rio, o céu, a diversidade de pessoas...

Fazemos muitas coisas, compramos outras tantas, mas, que significado tem tudo isso no todo da nossa existência?

É possível que descuremos a dimensão espiritual da nossa vida, como se não existisse, a vida interior, que teimamos em ignorar.

Por isso, a Palavra de Deus, hoje, é um convite a parar. A parar um momento junto a Deus. A deixar que Ele nos fale, no silêncio, ao coração, a contar-lhe as nossas aventuras, conquistas e fracassos, a repousar n’Ele.

São Francisco de Assis, “querendo a admiração de todos, esforçava-se por ser o primeiro nos faustos da vanglória, nos jogos e passatempos, nos ditos jocosos e vãos, nos descantes, nas roupas delicadas e luxuosas” (1 Cel 2), até ser tocado pela doença, que o obrigou a parar e a perguntar-se sobre o sentido da sua vida. É assim que, aos poucos, se afasta “do bulício e dos negócios do mundo e procura conservar Jesus Cristo na intimidade do coração.” (1 Cel 6)

É preciso parar, como Francisco, oxalá não por doença, para percebermos o que Deus quer de nós, e o que nós queremos da vida. Nós temos a tendência de ver a curto prazo. Jesus prepara-nos, como aos seus discípulos, para a Eternidade!

Neste tempo de férias, em casa ou fora, usemos o tempo com sabedoria, com aquilo e aqueles que valem a pena, com a família e os amigos, com Deus. Fazendo o bem. Não tiremos férias de Deus. Tiremos férias com Deus.

Ele sabe o que realmente nos faz falta e continua ali, pronto para se compadecer e disponível mudar a sua agenda e o seu programa por nós.

 

Leituras:

1ª: Jr 23,1-6. Salmo 23/22,1-3a.3b-4.5.6. R/: O Senhor é meu pastor: nada me faltará. 2ª: Ef 2, 13-18. Evº: Mc 6,30-34. VI Semana do Saltério.

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.