Começamos a Liturgia da Palavra sentados. Nós nos bancos da igreja, cada um com os seus motivos para dar glória a Deus, Elias debaixo de uma árvore, no deserto, desanimado. Diríamos, até, desesperado, pois “deitou-se por terra e adormeceu” (1 Rs 19,5) na esperança de não mais acordar. Preferia morrer.

Todos temos dias destes, quando a realidade não corresponde às nossas expectativas, quando os sonhos tardam em concretizar-se, quando o dia é interrompido por más notícias, ou quando a vida é suspensa pela morte de alguém que amamos.

Elias é despertado por duas vezes por um anjo insistente que lhe oferece pão e água, e lhe diz: “Levanta-te e come, porque ainda tens um longo caminho a percorrer” (1 Rs 19,7). Senhor, envia-me sempre anjos teimosos, quando eu tardo em despertar.

É Deus que se manifesta naquele alimento que não só lhe mata a fome como lhe dá novo vigor. É Deus que, de algum modo, nos toca no ombro e sussurra ao ouvido ‘filho, amanhã é outro dia, coragem’, nos impede de desistir, nos devolve a esperança e nos faz levantar de novo.

Mas no Evangelho de hoje, Jesus nem distribui pães nem manda distribuir. Dá-se a si próprio como alimento.

Dá-se a quem se quer relacionar com Ele, comungar e alimentar-se da sua vida divina. Dá-se a quem se deixa atrair pelo Evangelho, a quem o quer imitar na doação aos outros e a quem se abre aos sonhos de Deus. Dá-se a quem se deixa atrair pelo Pai do Céu, pois Ele é ‘beleza’, ‘gozo’ e ‘alegria’, como cantava São Francisco.

Dá-se mais por atração e sedução do que por preceito e obrigação. Mas, uma vez mais, num diálogo de liberdades: Quem quiser. Quem comer. “No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram. […] Quem comer deste pão viverá eternamente” (Cf. Jo 6,49-51). Comer e morrer; comer e viver. A escolha parece óbvia. Mas não é...

O que andamos a comer? São Paulo fala em “azedume, irritação, cólera, insulto, maledicência e toda a espécie de maldade” (Ef 4,31). É prato do dia à mesa do ‘mafarrico’. É comida de morte. Novamente São Paulo: “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros e perdoai-vos mutuamente. […] Caminhai na caridade” (Cf Ef 4,32.5,2). É pão nosso de cada dia à mesa de Jesus. É comida de vida.

Mas que vida? O que é viver?

• ‘Cuscar’ horas sem fim a vida dos famosos?
• Suspirar pelo corpo e roupas das famosas?
• Trabalhar para roupas iguais, silicone e botox?
• Sonhar com as viagens e as casas das estrelas?
• Invejar vidas que têm muito - mas mesmo muito - de morte?

Ver o mundo através de um pequeno ecrã enquanto me lamento e queixo não é vida. Há uma vida em direto, aqui e agora, que estou a perder. A minha! E há uma vida em direto que não posso perder. A minha!

É preciso aceitar que nem tudo é perfeito.

• Talvez o casamento não tenha sido perfeito.
• Talvez os meus filhos não sejam bem o que eu esperava. Mas são os meus filhos.
• A minha casa, alugada ou comprada, é pequenina. Mas é a minha casa.
• A minha carreira está longe de ser o que eu merecia? Agarrarei todas as oportunidades.
• O salário é baixo. Mas vivo com dignidade.
• O meu marido não se declara a mim nas redes sociais como os atores da ‘praça da vaidade’ e do ‘jardim dos narcisos’? Ainda bem. Amo-o na intimidade do nosso lar.
• Não posso passar férias nas Maldivas, mas posso ir até Esposende ou à Apúlia, sentir a brisa do mar, o cheiro a sargaço, ler um livro ou tomar café com a família e amigos, e sentir o coração pulsar. Pequenas coisas que nos fazem sentir vivos.

Há uma vida em direto que não posso perder. A minha!

Então, diz Sophia de Mello Breyner,

“Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.”

(In Em todos os jardins, Sophia de Mello Breyner)

E há uma vida - a de Jesus - que é eterna e é oferecida a mim e a quantos acreditam e se alimentam do “pão que desce do Céu” (Jo 6,58). É uma vida ainda mais profunda, que permite ‘viajar’ além de nós próprios, pois é já uma participação na vida divina. Vida que começa e acaba no colo e no abraço de Deus.

Estamos no Verão.
Temos tido dias lindos, cheios de sol,
orvalho pela manhã.
Vou rodear-me de tranquilidade e de paz,
riso e brincadeira das crianças,
flores e ‘pão que os anjos comem’.
“A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre nos meus lábios” (Sl 34/33,2).
E terei um olhar grato por tudo quanto Ele me deu,
sobretudo essa possibilidade de ser
ser pessoa
mais pessoa do que sou
ser de Deus
mais de Deus que me ama
e desejo de vida eterna
em qualquer estação,
certo de que, como escreveu Florbela Espanca,

"Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."

(In Amar, de Florbela Espanca)

Há uma vida em direto que não posso perder. A minha!

E se tiver de me perder… que seja pra me encontrar!

 

Leituras:

1ª: 1 Rs 19,4-8. Salmo 34/33,2-3.4-5.6-7. 8-9. R/ Saboreai e vede como o Senhor é bom. 2ª: Ef 4, 30–5,2. Evº: Jo 6,41-51. III Semana do Saltério.

 

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