O apelo de inúmeros líderes religiosos por uma ação corajosa da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26) foi esta terça-feira, dia 2, reforçado com a apresentação, aos delegados, da petição “Planeta Saudável, Pessoas Saudáveis”.

A petição por uma ação urgente da COP26 traz as assinaturas e reivindicações de mais de 100 mil católicos e 425 organizações parceiras que, juntas, representam centenas de milhares de católicos dos seis continentes. Entre os subscritores encontram-se o cardeal ganês Peter Turkson, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano, e o bispo Victor Phalana, da diocese de Klerksdorp, África do Sul.

A tomada de posição apela aos governos a estabelecerem metas ambiciosas para enfrentar conjuntamente a emergência climática e a crise da biodiversidade; limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius e assegurar que não haja mais perda de biodiversidade; garantir uma ação global equitativa; e proteger e respeitar os direitos humanos, incluindo os direitos dos povos indígenas e comunidades locais nas ações relacionadas com o clima e com a biodiversidade.

O documento surgiu no mesmo dia em que foram assinados os dois primeiros acordos da Conferência: o primeiro, envolvendo 110 países (incluindo Brasil, EUA e Rússia), detentores de 85% da floresta mundial, no sentido de parar com a destruição da floresta e reflorestar zonas destruídas, o que implica um custo de 19.200 milhões de dólares; o outro, com 80 países a prometer reduzir as emissões de metano em 30% até 2030.

Também neste dia, o Papa fez chegar aos delegados, em Glasgow, uma nova chamada de atenção: “Enquanto nos preparávamos para a COP26, ficava cada vez mais claro que não há tempo a perder. Muitos dos nossos irmãos e irmãs estão a sofrer com esta crise climática. As vidas de inúmeras pessoas, especialmente as mais vulneráveis, têm sentido os seus efeitos cada vez mais frequentes e devastadores”, refere a mensagem de Francisco.

 

“O ‘mercado’ preocupa-se muito pouco com os desfavorecidos”

Os países mais ricos, prosseguiu o Papa, “precisam de assumir um papel de liderança nas áreas de financiamento do clima, da descarbonização no sistema económico e na vida das pessoas, na promoção de uma economia circular, apoiando os países mais vulneráveis para que se possam adaptar ao impacto das mudanças climáticas e responder às perdas e danos por estas causados”.

Mostrando-se entristecido com o atraso que se verifica no cumprimento do acordado no tratado de Paris há seis anos, Francisco vincou o apelo: “Isto não pode continuar! Num futuro próximo, os migrantes por razões ambientais vão ser mais numerosos do que os refugiados da guerra e dos conflitos. É chegada a hora de agir com urgência, coragem e responsabilidade.”

Mas há problemas que as medidas para reduzir drasticamente o aquecimento médio vão desencadear, nomeadamente para os trabalhadores das indústrias e setores que terão de reduzir significativamente a produção e, eventualmente reconverter-se.

Na última semana, os dirigentes dos serviços católicos de ação social na Austrália davam conta das preocupações vividas pelas famílias dos segmentos mais pobres da sociedade com as consequências das políticas de resposta à emergência climática. Por exemplo: como vai o governo acautelar a possibilidade de acesso a novas fontes de energia ou a habitação social com eficiência energética?

O Governo, de orientação liberal, confia que o mercado resolverá os problemas. Mas os resultados deste tipo de políticas que deixa a resolução dos problemas à lógica da oferta e da procura já mostraram a quem servem: “Como temos visto ao longo de décadas, ‘o mercado’ preocupa-se muito pouco com os desfavorecidos”, avisam os responsáveis católicos. “Sabemos por experiência consolidada ao longo de gerações que, quando se trata de partilhar os benefícios das mudanças impulsionadas pelo mercado, os desfavorecidos são sempre deixados à sua sorte.”