«Atualmente estamos inseridos num mundo muito atribulado. Costumo dizer que esta é a melhor e, ao mesmo tempo, a pior fase para se nascer. Quando começámos a acreditar que as coisas estão a seguir o rumo certo, somos bombardeados com notícias de crises financeiras, desastres naturais, guerras sem nexo, povos a viver em miséria… E foi justamente neste panorama que me encontrei. O meu nome é Lucas Correia Veloso, tenho 21 anos, sou membro do Grupo ADONAI (Barcelos) e, no final de 2019, decidi (ou pelo menos tentei) mudar a minha vida.

Como tantos outros jovens recém-licenciados sentia-me um pouco confuso quanto ao meu futuro, receoso do que a vida adulta me reservaria, ansioso por crescer rápido e realizar todos os sonhos. No entanto, nem sempre é assim tão simples cumprir as nossas expectativas. Muitas vezes perguntamo-nos qual é o nosso propósito aqui, o que estamos destinados a fazer e, na verdade, para a grande maioria das pessoas não é fácil encontrar essa resposta. Quando assim é, uma coisa posso garantir, a fé, a esperança, o acreditar e a vontade de contribuir é suficiente. Eu sei que parece pouco, ou até mesmo demasiado abstrato, mas na realidade é a fé que nos move. Eu queria mudar-me e queria mudar o mundo também, mas sei que não é possível conseguir fazer tudo e foi então que decidi partir em ‘missão’.

No dia 8 de novembro de 2019, embarquei para aquela que seria a viagem mais arrebatadora da minha vida, chegando no seguinte dia à bela cidade de Arequipa, no Peru. O meu objetivo era ensinar crianças dos 4 aos 16 anos a língua inglesa, uma vez que no Peru, tal como na generalidade dos países da América Latina (e outros tantos pelo mundo fora) a educação é bastante carenciada. Pouquíssimas são as crianças que têm a oportunidade de aprender como nós aqui em Portugal aprendemos, de ter acesso a tanta informação ou infraestruturas que proporcionem um bom ambiente de estudo. Ainda assim, posso com toda a certeza afirmar que a vontade que têm em querer saber mais, em enriquecer o seu conhecimento e ambicionar um futuro melhor estão de igual modo presentes. Foi um choque, não vou mentir, a minha chegada lá. Estando sozinho, num país desconhecido e a sensivelmente 10 mil kms de casa, do conforto, não é fácil, mas sobretudo torna-se mais complicado quando encaramos uma realidade tão distinta da nossa. Confesso que a primeira viagem de autocarro que fiz para o colégio onde lecionava me fez perder o controlo e chorar. É real. É tudo real. O que estamos habituados a ver em notícias sobre os países não desenvolvidos, ou em vídeos de sensibilização por esses povos existe mesmo. As “casas” (se é que lhes podemos chamar de casa) precárias, todas as pessoas a vender na rua o que podiam, fossem frutas, legumes, ou simples gelatinas feitas em casa para poder continuar a sobreviver e sustentar uma família. As aldeias que praticamente não tinham estradas para andar, a terra batida que se via em toda a parte, pessoas em dificuldades, o lixo que se via nas ruas… Um cenário estranho e assustador aos nossos olhos. E é então que entro pela primeira vez na escola e tudo muda. Não o cenário, mas o medo perde-se e correm crianças na minha direção para me abraçar, a fazer tantas perguntas, felizes porque alguém havia decidido ir ter com elas e tentar ajudá-las. Nesse momento cai-nos tudo, olhamos para trás e pensamos em tudo o que fizemos até então. Os erros cometidos, as vezes que julgámos sem razão, quando perdemos a paciência por motivos ínfimos, ou quando nos queixávamos de razões parvas e sem importância.

A felicidade naqueles meninos que nada tinham se não a sua simplicidade faz-nos acreditar que Deus é bom, que o caminho que está a ser feito é o caminho certo, e que afinal podemos mesmo melhorar o mundo, enquanto nos melhoramos a nós próprios. Eu acho que às vezes temos a mania das grandezas e nunca nos sentimos satisfeitos, mas esta experiência fez-me ver o contrário, abriu-me os olhos para esse mundo tão grande e não só o nosso mundinho pequenino em que estamos inseridos, com as nossas famílias, amigos e conhecidos.

Desengane-se quem crê que sozinhos não podemos fazer a mudança, pois podemos e devemos. A minha presença naquela escola foi muito mais do que apenas dar aulas de inglês. O falar com os meninos, aprender com eles, brincar nos intervalos, contar-lhes factos sobre Portugal e o resto mundo, tudo isto nos faz crescer. Agora que voltei, já nem tenho bem a certeza se fui eu que lhes ensinei ou eles que ensinaram a mim.

No Peru, a percentagem de pessoas cristãs é elevadíssima, a presença de símbolos era bem evidente em praticamente todos os sítios da cidade. Desde publicidades em autocarros a pequenas imagens em cafés ou lojas de conveniência. Nas casas, as famílias eram muito religiosas, rezando antes das refeições e mostrando-se sempre gratas por mais um dia, por ter comida na mesa e uma cama onde dormir. Talvez por essa mesma razão os peruanos sejam um povo que, ainda que sofredor relativamente ao nível de vida, é muito feliz e unido na sua simplicidade e humildade. Talvez a resposta para um mundo melhor esteja em olharmos mais para pessoas assim do que procurar as grandezas que nunca nos satisfarão.»

 

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