Eis chegada a hora da partida de Jesus, da sua «subida ao céu», esse lugar teológico, profundo e íntimo, da vida divina, que dá sentido à nossa vida humana.

Foi preparando, como pôde, os seus discípulos para esse momento, como se pode preparar alguém para o doloroso momento da despedida. Depois da Ressurreição, devolveu a fé a muitos dos que não tinham compreendido o sentido da sua entrega, sacrifício e morte, aparecendo-lhes várias vezes ao longo de uma quaresma de renovada esperança, comendo com eles e «falando-lhes do Reino de Deus».

Mas agora tinha mesmo de se «elevar ao céu», de o rasgar de baixo a cima, para que nele pudéssemos também nós entrar. Tinha de partir para o Pai. Não queria nem podia adiar mais, para nos forçar a crescer, a amadurecer, a encontrar novas formas de estar com Ele. E, de vidas redimidas, a partilharmos o dom da fé e da vida com os outros, não só na sacristia mas sobretudo no mundo, onde as relações, as estruturas e as instituições precisam de ser transformadas com o fermento do Evangelho.

Hoje celebramos também o Dia Mundial das Comunicações Sociais, este ano sob o tema: «“Vem e verás” (Jo 1, 46). Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são». Trata-se de um convite a caminhar ao encontro das pessoas, escutar, dialogar, ver com os próprios olhos, experimentar com os próprios sentidos, como Jesus fez da Galileia a Jerusalém. «Ir e ver» é condição de toda a comunicação humana autêntica.

No caso da Igreja, não se trata apenas de conseguir enviar a Boa Nova da Ressurreição para uma mailling-list com os endereços de e-mail de todas as pessoas do mundo, para que conheçam o Senhor e coloquem likes nas publicações das páginas da paróquia ou do grupo de jovens. Trata-se, sim, de ir, coração a coração, e testemunhá-lo apaixonadamente como Paulo e tantos grandes comunicadores ao longo dos séculos, com histórias que contam uma história, com narrativas edificantes, que nos fazem sonhar com o que de melhor há em nós e fora de nós, na nossa humanidade e na nossa vocação a uma vida divina. Assim se faz a comunicação da Igreja. E assim se deve fazer a comunicação em geral. Coração a coração.

Mas, diz o Papa Francisco, na sua mensagem para este dia, a atual «crise editorial corre o risco de levar a uma informação construída nas redações, diante do computador, nos terminais das agências, nas redes sociais, sem nunca sair à rua, sem ‘gastar a sola dos sapatos’».

A falta de recursos humanos e materiais e a pressão do imediatismo exigem que a notícia seja lançada já, tantas vezes nascida do copy-paste (copiar-colar), sem validação e, portanto, sem essa condição essencial para uma comunicação moralmente e intelectualmente honesta.

A comunicação verdadeira exige ir ao encontro, ao local, ver, falar com as pessoas, ouvi-las para que a notícia nasça da experiência, verificar os factos e reunir aqueles elementos que nos chegam também pela comunicação não verbal, os olhos, os lábios, os silêncios. Por isso, continua o Papa Francisco, fazer bom jornalismo é, verdadeiramente, um ato de «coragem e determinação», pelo qual nos devemos todos sentir muito gratos.

Por outro lado, as redes sociais, em particular, permitem que nos tornemos «testemunhas de acontecimentos que de contrário seriam negligenciados pelos meios de comunicação tradicionais», isto é, nós próprios podemos contar o que vemos e ouvimos, podemos partilhar acontecimentos, lugares que visitamos, experiências que vivemos.

Mas logo, facilmente, nos apercebemos também «como as notícias e até as imagens são facilmente manipuláveis, por infinitos motivos, às vezes por um banal narcisismo». E por isso se pede aos cristãos maior discernimento e sentido de responsabilidade no seu uso.

Depois do início da pandemia e do primeiro confinamento geral da população, as dioceses, paróquias, comunidades e grupos cristãos, rapidamente encontraram formas de manter o contacto com os fiéis, em alguns casos com muita criatividade, mas que, em geral, se tratava de fazer exatamente as mesmas coisas de antes, agora em formato diferente: online. Algumas paróquias - não foi o nosso caso, mas lá chegaremos, por outro caminho - investiram centenas ou milhares de euros em equipamentos para transmitirem a Eucaristia no Youtube ou no Facebook, multiplicaram-se conferências, reuniões, eventos… Com certeza fez-se o que se podia fazer, com os meios técnicos mais “acessíveis” ou mais comuns.

Bendigamos ao Senhor pelo que os Meios de Comunicação Social e as novas tecnologias nos permitiram e permitem fazer.

Mas talvez agora seja chegada a hora de definirmos como e com que instrumentos queremos comunicar a fé no mundo atual, não a partir da urgência criada pela pandemia, ou por modas ditadas por esta ou aquela app (aplicação), como tantas vezes tem acontecido, mas daqueles elementos éticos que sempre fizeram parte essencial da autêntica comunicação humana e da Igreja, e agora aparecem olvidados e trocados por argumentos fáceis e irrefletidos tais como: “temos de usar os mesmos instrumentos que todas as outras pessoas usam”.

Permitam-me discordar e repetir aqui a pergunta que tenho feito em surdina a alguns amigos: desde quando é que usar o que toda a gente usa, só porque é viral, sem que se reflita sobre o seu valor ético e moral, passou a ser critério para a Igreja? Pois é isso que está a acontecer um pouco por todo o lado nas dioceses e paróquias do nosso país.

Creio que temos, isso sim, de elevar o nível ético das escolhas que fazemos no mundo da tecnologia e da informática, de nos permitirmos uma ascese nos nossos critérios ou, ao menos, refletirmos sobre o assunto e tomarmos decisões conscientes, porque usar o WhatsApp ou o Signal não é a mesma coisa, assim como usar o Youtube ou o Peertube, o Zoom ou o Jitsi Meet, não são a mesma coisa. Há alternativas que levantam menores dúvidas éticas e essas deviam ser procuradas, usadas e apoiadas pela Igreja.

Se o fazemos em relação ao que comemos, por exemplo, porque não havemos de o fazer relativamente ao software que usamos? Se pensamos cuidadosamente no que vestimos, porque não havemos de pensar nas app’s que instalamos no telemóvel?

O modelo de negócio de grandes empresas como a Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft, assenta hoje, em grande medida, na venda de publicidade dirigida e monetização dos dados obtidos, o que implica enormes riscos para os utilizadores no caso de um uso indevido dos mesmos. Considera-se, por isso, que assentam num modelo de negócio que não é ético, por muitas campanhas de lavagem de imagem, denominadas de “responsabilidade social”, que façam.

Veja-se, por exemplo, como o caso da “Cambridge Analytica” provou que esses abusos são já hoje uma realidade, capazes de influenciar pessoas na compra de produtos de que não precisam, influenciar grupos imensos de pessoas e até eleições em países de longa tradição democrática.

 

Porque é que a Igreja e os cristãos se deveriam preocupar?

O que está em causa, também aqui, é o bem comum, é o futuro da humanidade, é a democracia moderna, como a conhecemos, com as suas imperfeições mas também com muitas e importantes conquistas, como o direito à privacidade, à liberdade de expressão e, não nos enganemos, à liberdade religiosa.

Na sexta-feira, o parlamento aprovou, na generalidade, um projeto-lei que pretende consagrar o “direito ao esquecimento”, impedindo que pessoas que tenham superado doenças graves, como cancro, por exemplo, sejam discriminadas no acesso ao crédito ou seguros.

Mas estas leis, muito necessárias, de pouco nos servirão se continuarmos nós, como utilizadores, a alimentar o negócio bilionário de empresas que lucram com a venda dos nossos meta-dados, da informação sobre os locais que visitamos, dos fóruns que frequentamos, das pessoas que contactamos e das palavras que pesquisamos, e dos seus “parceiros”, que bem podem ser regimes opressores ou empresas que um dia nos vão negar emprego ou gerar uma qualquer forma de discriminação porque têm acesso a informação que lhes permite saber que um dia tivemos Hepatite C, consumimos drogas, estivemos presos, frequentamos esta ou aquela igreja, temos esta ou aquela orientação sexual, temos filiação neste ou naquele partido, quando tínhamos vinte anos dissemos isto ou aquilo no Twitter, ou qualquer outra coisa que passados anos deveria permanecer só e só na nossa consciência e nunca numa espécie de "cadastro digital" que nos perseguirá o resto dos nossos dias, podendo ser usado indevidamente e a qualquer altura contra nós próprios.

Veja-se como a Coreia do Sul, Singapura, China ou Israel têm usado a Covid-19 para fortalecerem a vigilância em massa dos seus cidadãos e restringirem as liberdades individuais. E veja-se como em Hong Kong, no último ano, a arma mais usada pelo regime Chinês, foi a censura e o bloqueio de comunicações com o exterior.

Ainda vamos a tempo de acordar. A Igreja ainda vai a tempo de trazer aportações éticas e morais de grande relevância para esta discussão. É tempo de colocar estas questões em cima da mesa, dialogar sobre elas, e procurar alternativas de "código aberto" (open source), desenvolvidas pela comunidade de programadores e utilizadores, e não por empresas que usam os nossos dados de forma pouco ou nada clara. Mas mais do que programas, é do futuro da humanidade e da Igreja que falamos!

Ainda vamos a tempo de lutar pelo direito à privacidade, à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. Oxalá, viciados como estamos nos “rebuçados” do TikTok, WhatsApp, Facebook, Instagram, Zoom, Messenger, Snapchat e Tinder, ainda o queiramos…

E comecemos a pensar estas coisas por cabeça própria em vez de as deixar entregues a um algoritmo.

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.