Também aqui, o último é o primeiro… Temos fama de passar a vida a perder os comboios da História. Porém, mais grave é perdermos o comboio da vida. Porque não volta a passar.

Muita gente parece que só acordou agora para a doutrina social da Igreja acerca da Vida. Que não é nova, pois vem do longínquo Antigo Testamento e enraíza no mais espontâneo instinto de sobrevivência ou conservação da natureza humana. Por feliz coincidência, ontem, 16 de fevereiro, primeiro dia da semana, o Evangelho dava‐nos esta luz para iluminarmos todos os outros dias: «Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás!» (Mt 5,21). Já aos antigos.

É estranho andarmos todos preocupados com as muitas espécies de plantas, insetos e animais que se extinguem definitivamente com as alterações climáticas, e não zelarmos daquela a quem o Criador confiou as outras todas: a espécie humana!

Temos de cuidar da Terra, dizem, porque não há planeta B. E qual o plano B da vida, para quem acaba com ela antes do seu fim natural?

Transcrevo, apenas, o primeiro número da Carta Pastoral dos nossos Bispos, em 2 de maio de 2019, quando não se discutia o tema. Intitula‐se Um olhar sobre Portugal e a Europa à luz da doutrina social da Igreja. O seu objetivo é «ajudar os católicos do nosso País e tantos outros portugueses a abraçar os principais desafios com que hoje se deparam no mundo em geral e especialmente em Portugal e na Europa». Eis:

 

Toda a vida humana tem igual valor

«A afirmação do valor fundamental da vida baseia‐se no que o II Concílio Ecuménico do Vaticano assim enuncia: “A pessoa é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais” (Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 25). Assenta na visão bíblica e cristã do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus e chamado a uma vida de comunhão com Ele. É por isso que cada pessoa tem a dignidade de ser única e irrepetível e não pode ser reduzida a simples objeto ou instrumento ao serviço de fins que lhe sejam alheios.

Tal dignidade deriva do facto de ser membro da espécie humana e não de qualquer atributo ou capacidade que possa variar em grau ou possa ser adquirido ou perder‐se nalguma fase da existência. Depende do que ela é, não do que ela faz ou pode fazer. Ou seja:

não varia em grau, conforme maiores ou menores capacidades cognitivas;
não depende da raça, do sexo ou da idade, nem se vai adquirindo progressivamente até à idade adulta, mas existe plenamente desde o início da vida;
não deixa de o ser por deficiência ou doença, físicas ou mentais, por muito profundas que sejam;
não se perde com a idade avançada, a demência ou o estado comatoso.

Perante isto, exige‐se até uma proteção maior do ser humano mais vulnerável, por si mesmo ou pela fase da existência por que passa: o embrião, o feto, o recém‐nascido, o deficiente profundo, o demente, o doente em fase terminal. Podemos mesmo dizer que o grau de humanidade de uma civilização se pode aferir pelo cuidado com que esta trata os seus elementos mais débeis.»

 

in revista Bíblica nº 387 (março-abril 2020), p. 48.