Mesmo em terra com poucas videiras,
o sacristão desculpa-se com as vindimas
Ao intervalo do jogo, decidimos mudar de estratégia. Até agora, visitávamos todas as paróquias mesmo quando o contato com o pároco não foi possível. Mesmo sozinhos, rezávamos em frente à igreja a oração do Jubileu, como sinal de comunhão com o bispo diocesano e toda a Igreja. Fizemos isso, por exemplo, na unidade pastoral São José e em algumas paróquias da unidade pastoral Senhora do Caminho. Mas, conscientes de que o mais importante é, realmente, estar com as pessoas, nesses casos, decidimos percorrer o centro da vila ou cidade e abordar as pessoas que vão à sede de Concelho tratar dos seus assuntos pessoais. Esta semana, isso aconteceu em parte da unidade pastoral de Ansiães e Senhora da Encarnação e na unidade pastoral da Divina Misericórdia.
Depois de quase três semanas na estrada, conseguimos perceber que há uma grande diversidade de abordagens pastorais, por vezes dentro da mesma unidade pastoral. Nalgumas paróquias, como as confiadas ao Pe. Mauro Alves e aos irmãos Pimparel, encontramos quase sempre muitas pessoas, correta e atempadamente avisadas, motivadas para nos ouvir e rezar connosco. Noutras, mesmo em terra com poucas videiras, o sacristão desculpa-se com as vindimas.
Outra diferença grande que notamos é que, em algumas unidades pastorais, encontramos as igrejas todas ou quase todas abertas; noutras, todas ou quase todas fechadas. É verdade que há sempre alguém, muitas vezes já idoso, que tem a chave, e toda a gente na aldeia sabe quem é, mas dificilmente alguém a pede para não incomodar. Será que as pessoas que gostam de entrar na igreja e rezar diante do Santíssimo Sacramento estão concentradas em determinadas paróquias? E será que os ladrões também? Se a medida serve para proteger o património material, certamente valiosíssimo do ponto de vista artístico mas também emocional e espiritual, há meios modernos que permitem manter alguma segurança e, ao mesmo tempo, as portas abertas. Por exemplo, em Cabanas de Viriato, na diocese de Viseu, o pároco instalou um alarme sonoro que só toca se as pessoas se aproximarem dos altares laterais ou do altar-mor. Deste modo, os fiéis, sabem que, durante o dia, desde que fiquem nos bancos do fundo, podem entrar à vontade na sua igreja para rezar. De que serve à Igreja proteger o seu património material a sete chaves se não conseguir proteger o seu património espiritual?
Por todo o lado, as cores fazem adivinhar a chegada do Outono, também na Igreja, mas, felizmente, há muitos sinais primaveris de esperança!
23 de setembro, terça-feira
O décimo segundo dia foi dedicado às paróquias da Unidade Pastoral Senhora da Assunção. De manhã Trindade (Santíssima Trindade), Benlhevai (Espírito Santo), Vale Frechoso (São Lourenço), Roios (São João Baptista), Vila Flor (São Bartolomeu), Vilas Boas (Santa Maria Madalena), Vilarinho das Azenhas (Santa Justa) e Nabo (São Gens), confiadas ao Pe. Mauro Alves. De tarde, Sampaio (Santo André), Lodões (São Tiago), Assares (São Miguel), Santa Comba da Vilariça (São Pedro), Freixiel (Santa Maria Madalena), Candoso (São Sebastião), Samões (São Brás), Carvalho de Egas (Santa Catarina), Seixo de Manhoses (Santa Bárbara), Valtorno (Nossa Senhora da Assunção) e Mourão (São João Baptista), confiadas ao Pe. Francisco Pimparel.
O Pe. Mauro, sacerdote desde 2010, esteve connosco toda a manhã. Isso permitiu-nos não apenas visitar igrejas, mas, sobretudo, testemunhar como o trabalho conjunto entre sacerdotes diocesanos e consagrados é possível e desejável pois os diferentes carismas na Igreja concorrem para o enriquecimento do povo de Deus. Em Vila Flor, percorremos a pé o centro da vila, abordamos as pessoas na rua e nos cafés. É impressionante como toda a gente conhece o pároco e se aproxima dele para o cumprimentar. Quando assim é, o pastor passa a ter o cheiro das ovelhas.
Ao almoço, juntou-se a nós o Pe. Francisco Pimparel, cujas paróquias haveríamos de visitar durante a tarde. Foi um belíssimo convívio para um maior conhecimento mútuo, partilha de vida e missão. Às 20h00, celebramos a Santa Missa na igreja de Mourão, onde as luzes amarelas das velas iluminaram os rostos numa noite que se avisava fria.
24 de setembro, quarta-feira
O décimo terceiro dia foi dedicado a algumas das paróquias da Unidade Pastoral de Ansiães, uma terra onde a azeitona quase deu lugar à maça. De manhã, apenas estivemos na igreja de Carrazeda de Ansiães (Santa Águeda), por as pessoas nas aldeias não estarem avisadas. Percorremos as ruas centrais da cidade, entregando a pagela com a oração do Cântico das Criaturas e conversando com as pessoas.
De tarde, passamos por Marzagão (São João Baptista), Linhares (São Miguel), Parambos (São Bartolomeu), Amedo (São Tiago), Pombal (São Lourenço), Pinhal do Norte (Nossa Senhora das Neves), Pereiros (Santo Amaro), Zedes (São Gonçalo), Belver (Nossa Senhora das Neves), Vilarinho da Castanheira (Santa Maria Madalena) e Pinhal do Douro (Espírito Santo), paróquias confiadas ao Pe. Manuel Rodrigues, que avisou e preparou as pessoas para a nossa visita e que, logo que os outros compromissos pastorais lhe permitiram, veio ter connosco e nos acompanhou até ao final do dia. Depois, convidou-nos para jantar com ele, tendo como prato principal a partilha de vida, ânsias pastorais e sonhos. Que bom que ainda há quem sonhe!
Em Linhares, uma senhora muito emocionada, dizia: «vocês parecem os discípulos de Jesus a andar de aldeia em aldeia».
Já em Parambos, se percebeu que aquilo era terra para discípulos vestidos de verde e branco; segundo nos disseram, a aldeia orgulhosamente mais sportinguista do país.
Decidimos ir dormir a Argozelo, aonde chegamos às 23h50, para ainda celebrar a Missa da Fraternidade, sem a qual nada disto faria sentido.
Sacrário da Catedral de Bragança, com a forma do mapa da Diocese, da autoria do Mestre Mário Silva
25 de setembro, quinta-feira
O décimo quarto dia deveria ser dedicado às paróquias da Unidade Pastoral Divina Misericórdia. Mas, como as comunidades não foram avisadas, passamos a tarde no centro da cidade de Macedo de Cavaleiros (São Pedro) e, às 18h30, celebramos a Eucaristia na Igreja de Santa Maria Mãe da Igreja.
A abordagem das pessoas na rua foi fácil, nalguns casos, porque reconheceram o hábito franciscano; mas desafiante noutros, pois a maioria das pessoas não está habituada a ver este tipo de trabalho de evangelização de rua por parte da Igreja Católica. E, provavelmente, assim se manterá, enquanto as nossas sacristias continuarem a ter alguma gente com dinheiro para pagar a conta da luz.
26 de setembro, sexta-feira
O décimo quinto dia foi dedicado às paróquias da Unidade Pastoral Senhora da Encarnação, confiadas ao Pe. Paulo Pimparel: Vale de Janeiro (Nossa Senhora da Assunção), Curopos (Santa Maria Madalena), Rebordelo (São Lourenço), Vale das Fontes (São Bartolomeu), Nuzedo de Baixo, Ervedosa (São Martinho), Agrochão (São Mamede), Penhas Juntas (São Pedro) e Vilar de Peregrinos (São Salvador).
A nossa visita foi de tal modo bem preparada pelo pároco que encontramos sempre muitas pessoas em todas as igrejas paroquiais. De tarde, estava prevista a visita a outras paróquias da mesma unidade pastoral mas, com a mudança de pároco a acontecer precisamente esta semana, tal revelou-se impossível.
27 de setembro, sábado
O décimo sexto dia foi dedicado às paróquias da Unidade Pastoral São Bento: Baçal (São Romão), Aveleda (São Cipriano), França (São Lourenço), Rabal (São Bartolomeu), Meixedo (Santo André), Carragosa (Nossa Senhora da Assunção), Espinhosela (Santo Estevão), Gondesende (Nossa Senhora da Assunção), Castrelos (São João Baptista), Donai (São Salvador), Castro de Avelãs (São Bento), Gostei (São Cláudio), Carrazedo (Santa Cecília), Zoio (São Pedro), Celas (São Genésio), Nogueira (São Pelágio), Rebordãos (Nossa Senhora da Assunção), Sortes (São Mamede), Mós (São Pedro), Pinela (São Nicolau), Santa Comba de Rossas (Santa Comba), Rebordaínhos (Santa Maria Madalena), Pombares (São Frutuoso), Quintela de Lampaças (Nossa Senhora da Assunção), Sendas (São Pedro) e Salsas (São Nicolau).
Igreja de Castro de Avelãs (monumento nacional)
Em Santa Comba de Rossas, só apanhamos um grupo de três pessoas na rua. Andavam em campanha por um partido, como nós andamos por Nosso Senhor.
A maior multidão que apanhamos foi em Rebordaínhos, porque as pessoas estavam a sair da Missa Vespertina. Foi aí que nos cruzamos também com o pároco, Pe. Jorge Miguel. O diácono Joaquim Queirós teve a delicadeza de nos acompanhar na visita às últimas paróquias do dia e na celebração da Eucaristia em Salsas, às 21h00.
Esta noite, a irmã chuva, tão ansiada, finalmente visitou-nos. Talvez ainda venha a tempo de ajudar a castanha e a azeitona.
28 de setembro, domingo
O décimo sétimo dia foi dedicado a algumas das paróquias da Unidade Pastoral Senhora das Graças. De manhã, celebramos Eucaristia nas paróquias de Samil (Nossa Senhora da Assunção), São Pedro dos Sarracenos (São Pedro) e Alfaião (São Martinho), confiadas ao Pe. António Estevinho Pires que, depois, nos convidou para almoçar com ele. O Pe. Estevinho, também Coordenador do Serviço Espiritual e Religioso da Unidade Local de Saúde do Nordeste, é um amigo desde a primeira hora em que chegamos a esta diocese. Sentimo-nos sempre abençoados com a sua presença humilde e fraterna.
De tarde, visitamos a paróquia de São João Baptista, confiada ao Pe. José Manuel Bento Soares, que tem tido sempre o coração aberto e disponível para os Capuchinhos. Na Sé Catedral, está a constituir-se uma comunidade étnica e culturalmente cada vez mais rica, permitindo à Igreja dizer uma palavra em favor da diversidade e contra o racismo e a xenofobia. A Eucaristia das 18h00, presidida pelo Frei Hermano Filipe, contou com a animação do canto litúrgico pela comunidade timorense em Bragança.
Texto e fotos de Hermano Filipe