Das lágrimas ao convívio-surpresa,
o início de uma viagem
Se eu pudesse pintar o que o meu coração vê, pintaria Nossa Senhora com os olhos verdes como as oliveiras e o cabelo doirado como o restolho dos campos de feno. Esta foi a tela que Deus me ofereceu ao iniciarmos viagem, ou, porventura, o prolongamento da oração de Laudes feita ao raiar da manhã na autocaravana aonde eu e os meus irmãos iremos passar as próximas semanas.
Frei John Naheten, Frei Hermenegildo Sarmento e Frei Hermano Filipe, todos quarentões e bons rapazes, a procurar viver o dom da fraternidade, da menoridade e da itinerância, na fidelidade ao carisma franciscano-capuchinho1.
O objetivo está bem definido: celebrar os 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, e os 10 anos da Carta Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, passando por cada uma das 321 paróquias da Diocese de Bragança-Miranda como “Peregrinos de Esperança”, rezando, certamente, mas também lembrando a urgência da justiça ambiental, pois, «num mundo onde os mais frágeis são os primeiros a sofrer os efeitos devastadores das alterações climáticas, do desflorestamento e da poluição, cuidar da criação torna-se uma questão de fé e de humanidade.»2
O itinerário está delineado: uma unidade pastoral por dia, ainda que algumas possam precisar de mais tempo.
Em cada paróquia, serão distribuídas pagelas com o Cântico das Criaturas e cópias da Mensagem do Papa Leão XIV para o X Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Depois de nos apresentarmos e cantarmos ao que vamos, rezaremos juntos a oração do Jubileu, como sinal de comunhão com a Igreja, que vive um Ano Santo, e com toda a humanidade, «porque hoje a fraternidade é a nova fronteira da humanidade»3.
Não podemos continuar apenas a aplaudir os discursos e mensagens do bispo de Roma sobre o assunto. É preciso que as dioceses, paróquias e comunidades religiosas se empenhem na concretização de um plano de conversão ecológica. «Chegou verdadeiramente o tempo de dar seguimento às palavras com obras concretas», afirmou recentemente o Papa Leão XIV.4
Vamos a isso?
09 de setembro, terça-feira
O primeiro dia foi dedicado à Unidade Pastoral Santo Cristo, que inclui as paróquias de Outeiro (Nossa Senhora da Assunção), Rio Frio (Nossa Senhora da Assunção), Quintanilha (São Tomé), Milhão (São Lourenço), São Julião de Palácios (São Bartolomeu), Babe (São Pedro), Gimonde (Nossa Senhora da Assunção), Deilão (Nossa Senhora da Assunção) e Rio de Onor (São João Baptista).
O primeiro encontro estava marcado para a Basílica do Santo Cristo de Outeiro, pela qual as pessoas nutrem um orgulho quase palpável. Apesar de muitas nunca terem visto um frade, sentiram-se logo à vontade connosco.
Mas foi uma pequena imagem de São Francisco que mais prendeu a nossa atenção, sem, no entanto, conseguir prender as nossas lágrimas enquanto cantávamos: «Como Francisco, vivemos o Evangelho, no meio do mundo, em fraternidade, na paz e na alegria». Sendo a primeira igreja visitada, encontrar ali uma imagem do Poverello de Assis, fez-nos sentir a confiança de que, realmente, ele caminha connosco e nós com ele.
Em Rio Frio, uma senhora tinha acabado de receber a notícia do falecimento de um sobrinho, ainda muito jovem, num acidente. Numa terra onde se contam pelos dedos de uma mão o número de habitantes em cada rua, a chegada de três frades, significou, ao menos, mais três abraços de consolo.
Em Quintanilha e Milhão, acompanhou-nos o pároco, Manuel João Gomes, de 81 anos, que há muitas décadas percorre estas aldeias sem nunca se queixar do pó e do calor ou do frio.
Paramos a autocaravana junto à igreja de São Julião de Palácios, onde preparamos o almoço e tomamos café de Timor oferecido por uma amiga de Barcelos.
Em Babe, reencontramos um grupo de pessoas já conhecidas de um curso bíblico. Nos seus rostos, ligeiramente dobrados pelo tempo e o trabalho duro da terra, sobressai a alegria do encontro e o seu olhar voltado para o sacrário sobe como incenso na presença de Deus.
Em Gimonde, uma senhora estava a pintar a sua pequena casa, junto à igreja, e logo largou a trincha para vir rezar connosco.
Depois de Deilão, paramos em Rio de Onor, primeiro junto à belíssima igreja paroquial e, depois, na esplanada do Bar da Associação onde tomamos café com homens das duas aldeias transfronteiriças – Rio de Onor e Rihonor de Castilla – para quem as cartas e a amizade sempre foram mais fortes do que o rio que as separa.
Depois do jantar e antes da primeira noite passada na autocaravana, celebramos a Eucaristia, tendo o chilrear dos pássaros e o fluir do rio entre as casas de xisto como coro.
10 de setembro, quarta-feira
O segundo dia foi dedicado à Unidade Pastoral Santa Maria do Sabor, que inclui as paróquias de Grijó de Parada (Santa Maria Madalena), Faílde (Santo Ildefonso), Parada (Bragança) (São Genésio), Coelhoso (São Tiago), Paradinha Nova (São Miguel), Calvelhe (São Justo e Santa Justa), Serapicos (Nossa Senhora da Assunção), Macedo do Mato (Nossa Senhora da Purificação) e Izeda (Nossa Senhora da Assunção).
Este foi um dia muito feliz pois pudemos contar com a presença do Pe. Victor Magalhães, vigário paroquial, e do seu sobrinho de 6 anos de idade, o João Pedro, que despertava sorrisos por onde passávamos.
Na paróquia de Faílde, o lar de idosos foi a nossa igreja.
Em Coelhoso, as gentes não são muito diferentes das de Argozelo, a que já estamos acostumados. Uniu-as, noutros tempos, o trabalho nas minas.
Depois do almoço, fomos tomar café. Ninguém se senta para ficar sozinho no seu canto com o telemóvel na mão. Quando alguém vai ao café é para socializar a sério, para partilhar a vida e quebrar a monotonia das horas.
Em Calvelhe, depois da igreja paroquial, paramos na taberna onde era maior o número de fiéis.
Já em Sarapicos, primeiro fomos à igreja paroquial consolar dois jovens em luto pela perda da mãe e, depois, fomos rezar ao Santuário de Nossa Senhora do Aviso.
Em Izeda, celebramos a Santa Missa às 20h00, na igreja matriz, e, depois, despedimo-nos dos nossos companheiros na peregrinação deste dia, o Pe. Victor e o João.
11 de setembro, quinta-feira
O terceiro dia foi dedicado à Unidade Pastoral Santo Ambrósio, que inclui as paróquias de Vinhas (São Miguel), Salselas (São Lourenço), Vale da Porca (São Vicente), Morais (Santo André), Talhinhas (Nossa Senhora da Assunção), Talhas (São Miguel), Bagueixe (São Vicente) e Lagoa (São Martinho).
Em todas e em cada uma delas fomos rezando com as pessoas e ouvindo-as enquanto os nossos olhos se deleitavam com o esmero no cuidado das suas igrejas. Ouvi-las desfiar o rosário das suas vidas ajuda-nos a compreender que o rococó dos retábulos não era vaidade humana mas como um bordado laborioso em linho mourisco antes fiado com a roca e o fuso de uma vida árdua.
12 de setembro, sexta-feira
O quarto dia foi dedicado a algumas das paróquias da Unidade Pastoral Senhora da Visitação: Algoso (São Sebastião), Campo de Víboras (Nossa Senhora da Assunção), Uva (Santa Marinha), Silva (São Pedro), Vilar Seco (São Tiago), Caçarelhos (São Pedro), Vimioso (São Vicente), Vale de Frades (Santo André), Avelanoso (São Pedro) e Angueira (São Cipriano). As paróquias de Pinelo, Argozelo, Carção, Santulhão e Matela deverão ser visitadas no dia 4 de outubro.
Tal como no dia anterior, na hora marcada, fomos parando em cada igreja paroquial para rezar e conversar com as pessoas, muitas delas já nossas conhecidas dos cursos bíblicos feitos em Vimioso, Algoso e Caçarelhos.
Em Vale de Frades, uma família que estava a conversar no banco de pedra no exterior da sua casa, convidou-nos a sentar e tomar café com eles. Quando falamos de São Francisco de Assis, logo uma senhora nos perguntou: «e Santa Clara»?
Celebramos a Eucaristia na igreja paroquial de Angueira.
Igreja Paroquial de Uva. Foto © Hermenegildo Sarmento
13 de setembro, sábado
O quinto dia foi dedicado à Unidade Pastoral Santa Maria Maior, que inclui as paróquias de São Martinho de Angueira (São Pedro), Cicouro (São João Baptista), Constantim (Nossa Senhora da Assunção), Ifanes (São Miguel), Paradela (Santa Maria Madalena), Póvoa (São Sebastião), Malhadas (Nossa Senhora da Expectação), Miranda do Douro (Santa Maria Maior) e Genísio (Santa Eulália). A pedido do pároco, fomos ainda a Especiosa.
Em pleno Planalto Mirandês, os campos de feno, são entrecortados por vinhas que nos ensinam o valor do tempo.
Depois de rezarmos com o povo na igreja de Paradela, pensamos dar uma paradela para descansar no Miradouro de Peinha Las Torres, a dois quilómetros da aldeia. Minutos depois de nos sentarmos a uma mesa de pedra comprida, à sombra de uma árvore, vimos chegar quatro carros cheios de gente que trazia o seu almoço para partilhar: coelho, frango, enchidos caseiros, diversas saladas, bolinhos de bacalhau, vinho e fruta de casa. Eram as mesmas pessoas com quem tínhamos estado minutos antes na igreja e antes nos pareciam insossas. Realmente, é à mesa que se conhecem as pessoas.
Convívio junto ao Miradouro de Peinha Las Torres. Foto © Hermenegildo Sarmento
Depois de um tempo de convívio maravilhoso, partimos para Póvoa, onde nos encontramos com o pároco, Pe. Manuel Marques, que nos acompanhou o resto da tarde. Celebramos juntos a Eucaristia em Genísio, ou, como se escreve em mirandês, Zenízio.
Texto de Hermano Filipe
Fotos de Hermenegildo Sarmento
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1 Cf. Constituições dos Irmãos Menores Capuchinhos, nn. 4,2; 13,3; 16,5; 79,6; 100,4.
2 Mensagem do Papa Leão XIV para o X Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação 2025.
3 Intervenção online do Papa Francisco no Dia Internacional da Fraternidade Humana, 04/02/2021.
4 Mensagem do Papa Leão XIV para o X Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação 2025, ibidem.