Um franciscano e os U2

Cada vez mais teólogos analisam a música e as artes em geral para explicar o Mistério aos jovens que escutam o rock. Este é o princípio fundador do livro “One. Uma maneira para se aproximar de Deus. Os U2 entre rock e Bíblia”, composto pelo frade franciscano Federico Russo, e publicado este ano em Itália.

O religioso faz uma sinopse entre o texto bíblico e a discografia da banda irlandesa, considerando as letras fruto de inspiração divina, e assim as toca nas encruzilhadas das estradas para encurtar as distâncias entre Deus e quem está à procura da Verdade.

 

Porque é que um frade franciscano decide escrever um livro sobre os U2?

O livro é uma reelaboração da minha tese de licenciatura em Teologia. A paixão pela música rock e pelos U2 em particular remonta à minha adolescência, e desde então não diminuiu. Sabia que os textos de Bono [vocalista] são impregnados de referências à Bíblia, e então pensei aprofundar a questão.

 

Numa audiência o papa Bento XVI citou o pintor russo Marc Chagall, para quem os escritores, durante séculos, mergulharam o seu pincel nesse alfabeto colorido que é a Bíblia. Também é assim para os autores de música moderna?

Penso que sim. A música moderna, e o rock em particular, inspira-se na Bíblia muito mais do que habitualmente se pensa. É um aspeto negligenciado durante demasiado tempo. Muitas vezes sublinharam-se apenas, neste fenómeno cultural, os elementos transgressivos ou de contestação em relação à tradição cristã (elementos que, indubitavelmente, não faltam), ao passo que não se evidenciou suficientemente como a música popular deu, em muitos casos, também voz à pergunta religiosa do homem contemporâneo.

 

Aquilo que é belo é verdadeiro, e aquilo que é verdadeiro equivale ao bem. Quão belas são as canções dos U2?

Quando uma banda continua a encher os estádios em todo o mundo após 40 anos de carreira, significa que há uma beleza naquelas canções à qual as pessoas são atraídas, ao ponto de estarem dispostas a fazer longas viagens e a gastar quantias nada irrisórias para assistir a um concerto; o ser humano vai em busca da beleza, move-se quando há alguma coisa pela qual se sente profundamente tocado. Sem dúvida que existe também uma componente subjetiva nos gostos musicais. Tenho, no entanto, um episódio interessante para contar: após a publicação do livro, fiz escutar o álbum “The Joshua tree” a um frade idoso da minha comunidade, grande amante de Bach e da música sacra; nunca tinha ouvido um disco rock, mas foi favoravelmente tocado. Pessoalmente, gosto sobretudo dos U2 dos anos 80 e 90. Nos discos mais recentes, penso que há algumas coisas seguramente aprazíveis e outras menos convincentes.

 

A denominada “teologia pop” legitima uma nova forma de pastoral, porque poderia não bastar a aprovação dos superiores maiores para percorrer novos caminhos de evangelização e ser credível. Quem é preciso convencer tratando-se de música rock e espiritualidade?

Não saberei como responder. Talvez em alguns contextos existam ainda preconceitos em relação a determinadas expressões da cultura contemporânea. No que diz respeito à pastoral juvenil, creio que o diálogo com um certo tipo de linguagem, como pode ser a das canções modernas, é desde há muito amplamente utilizado por muitos responsáveis.

 

Quando te exibes sobre um palco com a guitarra e o hábito, fazes isso por puro divertimento, porque queres ser um bobo de Deus, ou porque és inconscientemente louco?

A expressão “bobo de Deus” vem de S. Francisco de Assis, que no seu tempo conhecia e gostava das canções dos trovadores franceses, compôs o “Cântico das criaturas” e enviou um certo frade, Pacifico, chamado “o rei dos versos” pela sua habilidade em compor e executar canções, para cantar por vários locais os louvores de Deus, juntamente com outros frades músicos. A minha atividade de cantautor procura repropor, atualizando-a, essa intuição do nosso santo fundador.

 

Na discografia dos U2 há canções sobre o ateísmo, como “Drowning man” e “Exit”, na qual toma vida o protagonista do conto “Sangue sábio”, de Flannery O’Connor. Hazel Motes é um jovem que prega a «Igreja da Verdade sem Jesus Cristo crucificado». Em síntese… percursos de fé nem sempre realizados nas canções dos U2.

Como todo o bom escritor, Bono não apresenta a realidade a partir de um único ponto de vista, mas é capaz de pôr à luz muitas cambiantes diferentes. Isto vale também para aquilo que se refere ao tema da fé: nas canções dos U2 há espaço para o crente e para o não crente, para a luz e para a treva, para a certeza e para a dúvida. A linguagem poética, por outro lado, nunca deve ser excessivamente didática, não pode ser como a do catecismo.

 

Que versos escritos por Bono Vox poderia dirigir um jovem para a religião?

Poderiam ser muitos. Tendo de fazer uma citação, digo esta: «Hear me coming, Lord/ Hear me cal/ Hear me knocking, knocking at your door». Trata-se de uma estrofe que Bono acrescentava, nas interpretações ao vivo dos anos 90, à parte final da canção “One”. A canção fala de uma crise na relação de um casal, mas, com este acrescento, resultava numa oração, numa evocação a Deus. Poderia ser o estímulo para erguer o olhar, no meio das complexas vicissitudes da vida, e descobrir que não somos órfãos, abandonados a nós próprios, mas temos um Pai que escuta o nosso grito.

 


Massimo Granieri In: L'Osservatore Romano

Um franciscano e os U2

Um franciscano e os U2

Cada vez mais teólogos analisam a música e as artes em geral para explicar o Mistério aos jovens que escutam o rock. Este é o princípio fundador do livro “One. Uma maneira para se aproximar de Deus. Os U2 entre rock e Bíblia”, composto pelo frade franciscano Federico Russo, e publicado este ano em Itália.

O religioso faz uma sinopse entre o texto bíblico e a discografia da banda irlandesa, considerando as letras fruto de inspiração divina, e assim as toca nas encruzilhadas das estradas para encurtar as distâncias entre Deus e quem está à procura da Verdade.

 

Porque é que um frade franciscano decide escrever um livro sobre os U2?

O livro é uma reelaboração da minha tese de licenciatura em Teologia. A paixão pela música rock e pelos U2 em particular remonta à minha adolescência, e desde então não diminuiu. Sabia que os textos de Bono [vocalista] são impregnados de referências à Bíblia, e então pensei aprofundar a questão.

 

Numa audiência o papa Bento XVI citou o pintor russo Marc Chagall, para quem os escritores, durante séculos, mergulharam o seu pincel nesse alfabeto colorido que é a Bíblia. Também é assim para os autores de música moderna?

Penso que sim. A música moderna, e o rock em particular, inspira-se na Bíblia muito mais do que habitualmente se pensa. É um aspeto negligenciado durante demasiado tempo. Muitas vezes sublinharam-se apenas, neste fenómeno cultural, os elementos transgressivos ou de contestação em relação à tradição cristã (elementos que, indubitavelmente, não faltam), ao passo que não se evidenciou suficientemente como a música popular deu, em muitos casos, também voz à pergunta religiosa do homem contemporâneo.

 

Aquilo que é belo é verdadeiro, e aquilo que é verdadeiro equivale ao bem. Quão belas são as canções dos U2?

Quando uma banda continua a encher os estádios em todo o mundo após 40 anos de carreira, significa que há uma beleza naquelas canções à qual as pessoas são atraídas, ao ponto de estarem dispostas a fazer longas viagens e a gastar quantias nada irrisórias para assistir a um concerto; o ser humano vai em busca da beleza, move-se quando há alguma coisa pela qual se sente profundamente tocado. Sem dúvida que existe também uma componente subjetiva nos gostos musicais. Tenho, no entanto, um episódio interessante para contar: após a publicação do livro, fiz escutar o álbum “The Joshua tree” a um frade idoso da minha comunidade, grande amante de Bach e da música sacra; nunca tinha ouvido um disco rock, mas foi favoravelmente tocado. Pessoalmente, gosto sobretudo dos U2 dos anos 80 e 90. Nos discos mais recentes, penso que há algumas coisas seguramente aprazíveis e outras menos convincentes.

 

A denominada “teologia pop” legitima uma nova forma de pastoral, porque poderia não bastar a aprovação dos superiores maiores para percorrer novos caminhos de evangelização e ser credível. Quem é preciso convencer tratando-se de música rock e espiritualidade?

Não saberei como responder. Talvez em alguns contextos existam ainda preconceitos em relação a determinadas expressões da cultura contemporânea. No que diz respeito à pastoral juvenil, creio que o diálogo com um certo tipo de linguagem, como pode ser a das canções modernas, é desde há muito amplamente utilizado por muitos responsáveis.

 

Quando te exibes sobre um palco com a guitarra e o hábito, fazes isso por puro divertimento, porque queres ser um bobo de Deus, ou porque és inconscientemente louco?

A expressão “bobo de Deus” vem de S. Francisco de Assis, que no seu tempo conhecia e gostava das canções dos trovadores franceses, compôs o “Cântico das criaturas” e enviou um certo frade, Pacifico, chamado “o rei dos versos” pela sua habilidade em compor e executar canções, para cantar por vários locais os louvores de Deus, juntamente com outros frades músicos. A minha atividade de cantautor procura repropor, atualizando-a, essa intuição do nosso santo fundador.

 

Na discografia dos U2 há canções sobre o ateísmo, como “Drowning man” e “Exit”, na qual toma vida o protagonista do conto “Sangue sábio”, de Flannery O’Connor. Hazel Motes é um jovem que prega a «Igreja da Verdade sem Jesus Cristo crucificado». Em síntese… percursos de fé nem sempre realizados nas canções dos U2.

Como todo o bom escritor, Bono não apresenta a realidade a partir de um único ponto de vista, mas é capaz de pôr à luz muitas cambiantes diferentes. Isto vale também para aquilo que se refere ao tema da fé: nas canções dos U2 há espaço para o crente e para o não crente, para a luz e para a treva, para a certeza e para a dúvida. A linguagem poética, por outro lado, nunca deve ser excessivamente didática, não pode ser como a do catecismo.

 

Que versos escritos por Bono Vox poderia dirigir um jovem para a religião?

Poderiam ser muitos. Tendo de fazer uma citação, digo esta: «Hear me coming, Lord/ Hear me cal/ Hear me knocking, knocking at your door». Trata-se de uma estrofe que Bono acrescentava, nas interpretações ao vivo dos anos 90, à parte final da canção “One”. A canção fala de uma crise na relação de um casal, mas, com este acrescento, resultava numa oração, numa evocação a Deus. Poderia ser o estímulo para erguer o olhar, no meio das complexas vicissitudes da vida, e descobrir que não somos órfãos, abandonados a nós próprios, mas temos um Pai que escuta o nosso grito.

 


Massimo Granieri In: L'Osservatore Romano