Há precisamente 800 anos, um homem chamado Francisco, natural de Assis, sonhou um mundo novo, onde Deus uniria os homens e onde homem algum fosse violentado, no corpo ou na alma, por causa da religião. No tempo das Cruzadas, o Pobrezinhode Assis arriscou tudo, porque nada tinha a perder, e foi ao encontro do islão, na pessoa do Sultão Mlik el Kamil, para com ele encetar um diálogo desarmado. Oito séculos passados, um outro homem, que também quis chamar-se Francisco, quis repetir o gesto do Santo de Assis, tornando-se o primeiro papa a pisar o território que viu nascer o Islão.

O profético encontro de S. Francisco de Assis com o Sultão do Egipto, Malik Al Kamil, tal como a histórica visita do Papa Francisco aos Emiratos Árabes, é a confirmação da mesma intuição: pode-se ser cristão entre os muçulmanos e muçulmano com os cristãos, sem contendas nem guerras em nome de Deus. Pode-se ser devoto de uma religião sem se ser intolerante para com credos diferentes. Mostra-se, ainda, o caminho a seguir: para haver paz, tem de haver diálogo, e para acontecer diálogo, tem de haver lugar e tempo para o encontro e hospitalidade. Por sua vez, para que o encontro se proporcione, há que correr o risco de atravessar limiares e derrubar fronteiras inventadas pelos medos humanos e interesses políticos.

 

Ao encontro do islão, em Damieta

Desde 1212 que o Santo de Assis pensava no Oriente e em ir em missão para terras do islão. Sucessivas contrariedades foram adiando o seu sonho.

Em setembro de 1218, chegou a Damieta o legado pontifício, cardeal Pelaio Galvão (1165-1232), a fim de dirigir a Quinta Cruzada. Ao chavão repetido muitas vezes por este e outros: “O islão que nasceu com a espada e se difundiu com a espada, deve agora ser destruído com a espada”, Francisco, sem denunciar abertamente as movimentações das cruzadas em andamento, pensa “aproveitar a boleia”, contrapondo-lhes o anúncio desarmado pela palavra e pelos gestos. A 24 de junho de 1219 junta-se aos cruzados que partiam de Ancona[1]. Embarcou com 12 frades, indicados por criança, entre os muitos que desejavam acompanhá-lo, cinco deles conhecidos: Pedro de Catanio, Bárbaro, Sabatino, Leonardo de Gislerio e Iluminado de Arce.

Depois de passar por Creta, Chipre e Acre, onde são acolhidos por Frei Elias e Frei Egídio, chegaram, em agosto de 1219, a Damieta, onde foi encontrar os efetivos da quinta cruzada aí acampados desde maio de 1218. O objetivo era, mais uma vez, tentar, de novo conquistar Jerusalém que, desde 1187, estava nas mãos do afamado Saladino. Cabia a um sobrinho deste, o sultão do Egipto al-Malik al-Kāmil, a defesa do território da Palestina.

Tomando consigo o já referido Frei Iluminado, por ter alguns conhecimentos de árabe prático, no fim de julho ou começo de agosto de 1219, Francisco chegou ao campo dos cruzados, perto de Damieta. Parece que os terão ainda acompanhado, até à frente da batalha, Fr. Pedro de Catanio, Fr. Elias e Fr. Cesário de Espira[2]. O recontro entre as duas forças estava marcado para o dia 29 de agosto. João de Briena e o legado pontifício, cardeal Pelaio, comandavam o exército dos cruzados.

Precisamente no dia 29 de agosto, preparava-se mais uma violenta batalha. Damieta era, na circunstância, considerada um reduto chave para ambas as partes. Se por um lado, os cruzados estavam convencidos de que em Damieta se decidiria a sorte do islão, por outro, os muçulmanos do Egipto e de todo o mundo árabe convenceram-se de que Damieta seria a garantia de defesa da agressão dos cristãos. Nem uns nem outros suspeitavam do verdadeiro sentido da “predestinação de Damieta”[3]: ali se estava a lançar, afinal, a primeira semente de um novo espírito de amizade, destinado um dia a implementar as relações entre os dois mundos.

De momento, porém, os ventos eram de guerra. Durante um ano de batalhas e escaramuças, a situação militar mantinha-se sem grandes avanços. Em junho de 1219, o sultão Melek-el- Kamil oferecia generosamente a paz aos cristãos, se estes deixassem o solo egípcio. Receberiam em troca a cidade de Jerusalém e a restituição da Santa Cruz.

João de Briena e alguns chefes estavam dispostos a discutir o caso. Porém, o cardeal Pelaio Galvão, confiante nas suas tropas e seguríssimo da vitória, opôs-se a tal acordo. Entre os meses de junho e Agosto de 1219, sucederam-se sucessivos assédios, entremeados por dias de trégua que apenas serviam para preparar novos combates.

Quando soube da iminência de mais uma violenta batalha, Francisco condoeu-se profundamente e revelou profeticamente a Fr. Iluminado: «Se o encontro tiver lugar neste dia, o Senhor deu-me a entender que não se resolverá com êxito para os cristãos. Mas se descubro isso, me tomarão por louco; se me calo, a consciência me reprovará. Que te parece?» Responde o companheiro: «Não te preocupes com o julgamento dos homens. Teme antes a Deus que aos homens». Correu então o Santo a tentar persuadir os cristãos a não prosseguira para a batalha. Mas em vão; os cruzados em vez de tomarem a sério o aviso, escarneceram dele e partiram para a peleja. Sofreram pesada derrota, com mais de oito mil perdas, entre mortos e prisioneiros[4].

 

O assalto geral, o sofrimento de Francisco

Segundo conta Arnaldo Fortini[5], a 14 de setembro de 1219 começou a debandada dos que escaparam, uns 20 mil cruzados. Perante o facto, o Sultão fala aos seus soldados: «Fiéis meus, homens fortíssimos e belicosos, dominadores de todo o mundo, é-vos dado finalmente a conhecer o que está escrito nas nossas leis: os filhos de Maomé passarão os montes e os mares e submeterão também o império dos romanos. Não vedes que os cristãos estão quase todos mortos ou em fuga? Combatestes virilmente contra eles e conquistastes as suas fortalezas, o ouro e a prata e todas as outras coisas que estão no acampamento. Mando que entreis no seu fosso»[6].

A 4 e 5 de novembro dá-se a preparação dos cristãos para o assalto geral. Damieta foi tomada no meio de um horror para os sarracenos. Francisco estava presente na tragédia, cheio de sofrimento[7]. No meio desta e de outras guerras que se lhe sucederam, no mesmo mês de novembro de 1219, Francisco, acompanhado de Frei Iluminado, decide dirigir-se ao cardeal Legado a pedir licença para falarem ao Sultão[8]. O cardeal ibérico, orgulhoso da tomada de Damieta, preparava agora o assalto ao Cairo e recusou atender à pretensão de Francisco.

Não tendo obtido o apoio do cardeal, lá foram os dois fradinhos, por própria conta e risco, ao encontro do Sultão. Os próprios biógrafos consideram temerária a atitude do Poverello. Mas a sua coragem, assente na fé evangélica, acabou por ser premiada.

Para o espírito de cruzada da época, o gesto dos dois, Francisco e Iluminado, era realmente uma “loucura”. Tomás de Celano, São Boaventura e Tiago de Vitry concordam em considerar temerária a atitude de Francisco. Mas, tal “loucura” acabou por dar frutos, pela razão que as palavras do mesmo São Boaventura desvelam:

«A intensidade do amor sem limites que o impelia para Deus fez com que também aumentasse a ternura afetuosa para com os que com ele participavam da natureza e da graça… para o transformar num irmão de todas as criaturas»[9].

Se a fé move montanhas, o amor é capaz de derrubar as grandes muralhas que a falta dele deixa edificar.

O mesmo S. Boaventura descreve nestes termos os primeiros passos do inaudito encontro:

«Tomando por companheiro Frei Iluminado, um irmão de facto iluminado no sentido de inteligente, e também corajoso, puseram-se a caminho, quando imediatamente depararam com duas ovelhinhas. Entusiasmado com este encontro, Francisco comentou para o companheiro: Confia no Senhor, meu irmão! Está-se a realizar em nós aquele aviso do Evangelho: ‘Envio-vos como ovelhas para o meio de lobos…»[10].

 

“Agora vos direi de dois clérigos…”

Como Francisco e Iluminado repetiam o nome do Sultão, os sarracenos deixaram-nos passar, considerando-os embaixadores dos chefes ou dos cristãos com propostas de abjurar da fé.

A narração de Ernoul é talvez a mais próxima da verdade histórica:

«Agora vos direi de dois clérigos que estiveram no acampamento em Damieta. Eles foram ao cardeal, dizendo que queriam ir pregar ao sultão e que não queriam ir sem licença. E o cardeal disse-lhes que eles não iriam nem com sua licença nem com sua ordem, porque ele conscientemente não queria dar licença de irem a tal lugar onde eles seriam mortos; porque ele sabia bem que, se eles fossem, não retornariam jamais. Eles disseram-lhe que, se fossem, ele não teria nenhuma culpa, porque ele não os enviou para lá, mas apenas permitia que eles fossem. Insistiram muito. Quando o cardeal viu que eles tinham tão grande vontade de ir, disse-lhes: “Senhores, eu não sei o que há em vossos corações e em vossos pensamentos, nem se eles são bons ou maus; mas, se vós fordes para lá, cuidai para que vossos corações e vossos pensamentos estejam sempre no Senhor Deus”. Eles disseram que só queriam ir em vista de um grande bem, se aí pudessem realizá-lo. Então, o cardeal disse que bem podiam ir, se eles quisessem, mas não com a sua licença.

Então, os clérigos partiram do acampamento dos cristãos e foram ao acampamento dos sarracenos. Quando os sarracenos que faziam a sentinela do exército deles os viram chegar, pressupuseram que eles vinham como mensageiros ou para renunciar [à fé]. Foram ao encontro deles, prenderam-nos e levaram-nos à presença do sultão. Quando eles chegaram diante do sultão, saudaram-no; o sultão saudou-os também. Depois perguntou-lhes se queriam ser sarracenos ou se tinham vindo como mensageiros. Eles responderam que jamais seriam sarracenos; mas que tinham vindo ter com ele como mensageiros da parte do Senhor Deus e para entregar sua alma a Deus. “Se vós não quereis crer – dizem eles –, nós entregaremos vossa alma a Deus, porque nós vos asseguramos, na verdade, que, se morrerdes nesta lei em que vos encontrais, vós estais perdidos, nem Deus terá jamais vossa alma. E é por isso que viemos até vós. Se quiserdes ouvir-nos e escutar-nos, mostrar-vos-emos com correta argumentação – diante dos mais sábios de vossa terra, se os mandardes [chamar] – que vossa lei é falsa”.

O sultão respondeu-lhes que ele tinha na sua lei arcebispos, bispos e bons clérigos e que sem eles jamais podia ouvir o que eles (os frades) tinham a dizer. Os clérigos responderam-lhe: “Estamos muito alegres por isso; mandai-os chamar, e se eles quiserem ouvir-nos e escutar-nos e se nós não pudermos mostrar-lhes por correta argumentação que é verdade o que vos dizemos – que vossa lei é falsa –, mandai cortar-nos as cabeças”.

O sultão mandou chamá-los, e eles vieram ao seu encontro em sua tenda. E assim se reuniram os maiores homens e os mais sábios de sua terra e os doisclérigos. Quando eles estavam todos juntos, o sultão explicou-lhes por que os tinha mandado [chamar], contou-lhes por que eles estavam reunidos e o que os clérigos lhe tinham dito e por que eles tinham vindo.

E eles lhe responderam: “Senhor, tu és a espada da fé e assim deves mantê-la e guardá-la. Nós te ordenamos, da parte de Deus e de Maomé, que no-la deu, que faças cortar as cabeças deles, porque não ouviremos o que eles dizem; e também te proibimos que ouças aquilo que eles dizem, porque a lei proíbe que alguém ouça qualquer pregação. E se há alguém que queira pregar ou falar contra a lei, a lei manda que se lhe corte a cabeça. E, por isso, nós ordenamos-te, da parte de Deus e da parte da lei, que tu lhes faças cortar as cabeças, porque assim o manda a lei”.

Então, pediram licença, saíram e não quiseram ouvir mais. E permaneceram o sultão e os dois clérigos.

Então o sultão lhes disse: “Senhores, eles disseram-me, da parte de Deus e da lei, que eu vos faça cortar as cabeças, porque assim manda a lei. Mas irei contra o mandado [da lei], e não vos farei cortar a cabeça, porque vos daria má recompensa pelo facto de que conscientemente vos aventurastes a morrer para entregar minha alma a Deus”.

Depois, o sultão disse-lhes que, se eles quisessem morar com ele, lhes daria grandes terras e grandes possessões. Mas eles responderam que jamais ali morariam, uma vez que ele não os queria ouvir nem escutar, e que iriam voltar ao acampamento dos cristãos, se suas ordens lhes permitissem.

Então, o sultão disse-lhes que de boa vontade os faria conduzir a salvo ao acampamento dos cristãos. Depois disso, mandou trazer-lhes ouro, prata e tecidos de seda em grande quantidade e mandou que eles tomassem aquilo que quisessem. Eles disseram que não levariam nada, já que não podiam ganhar a alma dele para o Senhor Deus; porque consideravam mais cara a alma dele com o Senhor Deus do que se possuíssem tudo quanto ele tinha de valioso para eles; mas que fizesse dar-lhes de comer, pois partiriam, visto que nada mais podiam fazer. O Sultão mandou dar-lhes comida em abundância. Despediram-se do sultão, que os mandou conduzir a salvo até ao acampamento dos cristãos»[11].

 

Prioridade ao encontro

Salta à vista, em primeiro lugar, o bom ambiente hospitaleiro e cortês com que o encontro decorre. Uma vez dissipados os primeiros equívocos, cada uma das partes não deixa de expressar suas convicções e zelo pela salvação do outro.

Talvez conhecedor da ineficácia das querelas e controvérsias medievais que, desde S. João Damasceno, contrapunham cristãos e muçulmanos, Francisco dá prioridade ao encontro. Ele não vai em nome nem dos cruzados, nem do papa, nem de senhor algum… nem com sermões ou argumentação teológica, mas é ele mesmo que se apresenta, como cristão, no meio dos muçulmanos, com uma atitude nova. Com a cortesia que Deus nos pede, atitude que tocou o Sultão.

Nas cruzadas e entre os cruzados, mas contra a guerra; cristão e obediente ao Papa, mas instrumento de Paz, “em nome de Deus”.

“Sou eu, um cristão”, e não a “cristandade”. Desta vez não decorreu um debate intelectual ou apologético, mas um encontro de dois homens de fé. Deixaram ambos que Deus fosse o Deus de ambos.

O diálogo decorre sem que nenhum dos interlocutores tenha de renunciar à respetiva fé. Os “doutores da lei” são, mais uma vez os intolerantes do desprezo e da ameaça. Mas o sábio Kamil pondera melhor, lembrando do seu antepassado Saladino que soube conviver com as três leis: sarracena, judia e cristã. Pensando provavelmente no pilar do islão que consiste em dar esmola aos pobres e a construção de mesquitas, mostrando verdadeiramente uma abertura inter-religiosa (para usar os termos de hoje), o Sultão propõe aos frades que utilizem aqueles presentes para os cristãos pobres e para as igrejas. Mesmo assim Francisco rejeita: chegou sem armas, partirá sem riquezas, sem condenar o belo gesto do Sultão.

Desta vez não houve cabeças cortadas, nem conversões forçadas, senão uma ambígua magnanimidade que os bons frades logo discerniram. Fica, por outro lado, claro que Melik-el-Kamil era um homem justo e piedoso e não um “ferocíssimo Sultão”, como o apresentam alguns documentos cristãos.

O bispo Tiago de Vitry, que na altura estava em Damieta a acompanhar os cruzados, é outra fonte importante, estranho à Ordem, que reproduz assim o episódio:

«Monsenhor Rainério, prior de São Miguel, acaba de entrar na Religião dos Frades Menores. Esta Religião muito se multiplica por todo o mundo, visto que imita a forma da Igreja primitiva e em tudo a vida dos Apóstolos […]

O mestre e fundador destes frades chama-se Francisco, que é tão amável que é venerado por toda a gente. Quando veio ao nosso acampamento, inflamado pelo zelo da fé, não teve medo de ir ao exército dos nossos inimigos; onde pregou aos sarracenos a palavra do Senhor, durante alguns dias, embora tivesse tido pouco proveito. Então o Sultão, rei do Egipto, pediu-lhe em segredo que suplicasse ao Senhor por ele para que, por inspiração divina, aderisse à Religião que mais agrada a Deus (ora pro me, ut Deus legem illam et fidem, quae magis sibi placet, mihi dignetur revelare)[12][..]».

Verificamos, por este testemunho, que Francisco se demorou por alguns dias nos aposentos do Sultão, o que já de si, pressupõe uma amigável hospitalidade. Por outro lado Tiago de Vitry ficou impressionado com o destemor de Francisco que, “animado pelo zelo da fé”, interpelou o chefe muçulmano, que acabou por se revelar também um homem de coração e mente abertos, ao ponto de ambos acabarem em tom orante ao mesmo Senhor.

 

“Espantam-se com tanta humildade e virtude…”

Num outro escrito, o mesmo prelado que não esconde a sua admiração pelo poverello, reza assim:

«Os próprios sarracenos e os que vivem nas trevas do paganismo espantam-se com tanta humildade e virtude, quando os Irmãos apareceram entre eles a pregar sem qualquer receio. Acolheram-nos gostosamente e deram-lhes tudo o que precisavam. Nós próprios vimos o fundador e mestre desta Ordem, a quem todos prestam obediência como a um prior geral. Era uma pessoa simples, inculta, mas amada de Deus e dos homens. Chamava-se Irmão Francisco. O seu fervor e loucura espirituais atingiam tais excessos que, mal chegado a Damieta, no Egipto, a cujas portas acampava o exército cristão, imediatamente partiu para o campo do Sultão egípcio sem qualquer temor, defendido unicamente com o escudo da fé. Quando os sarracenos o prenderam no caminho, disse-lhes: “Sou cristão. Levai-me ao vosso senhor”. Uma vez em presença do Sultão, este tornou-se todo mansidão perante o homem de Deus, e durante vários dias ele e os seus o escutaram com muita atenção.

Finalmente, o Sultão, com medo de que alguns do seu exército se convertessem pela eficácia das palavras do Santo varão e se passassem ao exército dos cristãos, mandou devolvê-lo aos nossos acampamentos com demonstrações de honra e garantias de segurança. Disse-lhe à despedida: “Roga por mim, para que Deus se digne revelar-me a lei e a fé que mais lhe agradam”»[13].

O Sultão e Francisco, “dois espíritos nobilíssimos”, enquanto os exércitos cristãos e sarracenos procuravam o extermínio, abaixam as barreiras e acabam por entender-se e amar-se. “Grande foi, por isso, o espanto e a admiração dos cruzados, quando, cerca de um mês depois, viram reaparecer em Damieta os dois frades, escoltados por cavaleiros sarracenos, mandados pelo Sultão para os proteger e honrar, como escreve o cronista Ernoul.

Com este encontro inusitado, o Santo de Assis inaugurou um movimento em contracorrente, dentro da Igreja. Não porque tenha inventado algo, mas porque recuperou o espírito original da Igreja missionária. Isto é, da Igreja de Cristo que “veio derrubar o muro que separava” (Ef 2,14) e de um Deus que nos chama do outro lado do mar. Francisco arrisca colocar-se numa fronteira física, religiosa e missionária para suprimir o medo que inventa as fronteiras da exclusão. A peregrinação retoma agora o seu sentido original, tal como a cruz que, como ensina S. Paulo, aproximou os que “estavam longe” (Ef 2). A cruz volta a ser a porta de entrada para a nova humanidade (homem novo) que deve construir pontes e não muros.

A verdadeira peregrinação proposta por Francisco não é tanto “aos lugares santos”, mas ao encontro do outro. Todo o encontro é uma peregrinação para o irmão e para Deus a descobrir no rosto do irmão distante ou diferente. A isto nos convida Jesus, e exige o Evangelho: “Se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos?” (Mt 5, 45-48).

No mês de julho de 1220, desde o porto de Acre, Francisco regressou à Itália com Fr. Elias, Fr. Pedro de Catanio, Fr. Cesário de Espira e outros. Continuaram no Médio Oriente outros frades no apostolado. Durante a viagem tocaram em Candia, Grécia, Albânia. Dalmácia e Veneza… e o Seráfico Pai foi recolher-se na ilha do Deserto com Fr. Iluminado[14].

 

“Para realizar um grande bem”

O célebre e histórico encontro de S. Francisco com o sultão aiúbida do Egipto continua a merecer leituras divergentes. Tal discordância emerge da avaliação das diferentes fontes que documentam o facto.

Se, para uns, Francisco não passa de um cruzado entre os cruzados; para outros, o santo de Assis terá transformado esta “presença” numa definitiva demarcação do espírito das cruzadas[15].

Tais divergências assentam, à partida, em duas simplificações: uma visão redutora das cruzadas, olhadas como puras empresas militares; a habitual tentação anacrónica de extorquirmos S. Francisco ao seu tempo, para o adequarmos aos nossos tempos e valores. Uma vez corrigidos estes equívocos, poderemos até começar por admitir que o espírito de “cruzada” e o espírito “missionário” não se contradizem no ideário do Santo assisiense[16]. O Pobrezinho de Assis, da mesma forma que nunca pregou nem quis impor a pobreza para todos, mas sim para os seus seguidores, também não pretendeu exigir a mesma atitude pacifista para toda a Igreja, mas apenas a si e aos seus. Por isso, não encontramos na sua boca nunca a denúncia das cruzadas ou da “guerra justa”, tanto mais que o seu espírito de submissão à Igreja, a quem se confiava totalmente como bom filho, não lhe permitiam tal atitude[17]. Verificamos, porém, que, também neste caso, Francisco põe em prática a sua eficaz metodologia, preferindo falar e corrigir com atitudes e ações do que com palavras.

Quando o príncipe do islão pergunta quem eram e ao que vinham e quem os enviara, e como tinham chegado até ali, Francisco responde que não fora enviado por qualquer homem, mas pelo Deus altíssimo, a fim de mostrar ao Sultão e ao seu povo o caminho da salvação e anunciar o Evangelho da verdade[18].

Inserido na cruzada, Francisco destaca-se desta tanto na atitude como na metodologia, sobretudo porque o seu objetivo é estritamente missionário. Move-o o amor àqueles homens que se digladiam e matam por causa de Deus, quando Deus quer a vida de todos.

O Sultão, vendo o admirável fervor de espírito e a virtude do homem de Deus, ouviu-o de bom grado e pediu-lhe para ficar com ele. A este pedido, o servo de Cristo terá respondido: Se tu e o teu povo vos converterdes a Cristo, eu ficarei de muito bom grado convosco”.

Embora encantado com o despojamento radical e a maneira de ser cordial do homem de Assis, Malik Al Kamil não aceitou o repto de se converter. Segundo São Boaventura[19], Francisco retirou-se desiludido, “ao ver que nada progredia na conversão daquela gente”, mas também por se sentir «defraudado no seu objetivo de martírio”.

Esta referência ao martírio como motivo forte desse gesto ousado de Francisco só aparece nas fontes internas à Ordem que querem fazer do seu fundador um herói de santidade e virtude. Mas, tendo em conta as demais fontes, não podemos afirmar que essa tenha sido realmente a razão fundamental que levou Francisco a Damieta.

Segundo o cronista Ernoul, o Poverello quis ir ao encontro do Sultão “para um grande bem”. Pelo contexto e outros textos entendemos que esse “grande bem” é a conquista espiritual do seu interlocutor.

Francisco foi a Damieta com o intuito de conseguir um verdadeiro “encontro”. Este só foi possível, porque o movia o amor dos muçulmanos, reconhecidos como seus irmãos.

Infelizmente, nem cruzados nem legado pontifício lhe deram ouvidos.

 

Frutos de um encontro histórico e profético

Depois da visita de Francisco, o Sultão – escreve A. Milioli no Liber de temporibus et aetatibus – entrou em conversações com o legado e com os príncipes cristãos. Ao que parece, tratou-se de diálogo de surdos, pois os cristãos aguardavam reforços por mar, e o Sultão acreditava que os cristãos se fossem embora, com medo de nova derrota. Grousset, o historiador francês das cruzadas, atribui ao legado pontifício o fracasso do tratado de paz[20].

O mesmo Vitry, em carta enviada de Damieta a amigos de França, testemunha que “Francisco, guiado por Elias Bombarone, que era ministro, foi protegido por um salvo-conduto do próprio Sultão, concedido a ele e aos seus companheiros, o qual lhes permitia ir ao Santo Sepulcro sem pagar tributo e visitar os lugares santos da Palestina”.

A partir desta palavra de Vitry e de outros testemunhos análogos, o orientalista Riant conclui que Francisco obtém para si e para seus frades um salvo-conduto semelhante aos concedidos mais tarde aos Franciscanos por Zaher Bibars I (1260-1277). Isto explicaria a preferência dos papas na escolha dos Frades Menores como seus enviados junto dos chefes maometanos e lhes darem a Custódia da Terra Santa. Foi a um franciscano que o Sultão do Egipto confiou, em 1244, uma Missão junto do Papa Inocêncio IV.

Os Lugares Santos exerceram em Francisco uma atração irresistível. Passou talvez o Natal de 1219 em Belém, a Anunciação de 1220 em Nazaré, a Semana Santa e a Páscoa em Jerusalém. Os seus biógrafos não o referem, mas Greccio e o Alverne sugerem-no[21].

 

Uma nova maneira de evangelizar

Dois anos após a experiência de Damieta, Francisco redigiu a Regra que propôs à discussão dos seus confrades no Capítulo das Esteiras, que teve lugar no Pentecostes de 1221. Nesta Regra dita “não bulada” (ainda não aprovada pelo Papa) consagra-se um capítulo (XVI) àqueles que vão para entre os sarracenos e outros infiéis (De euntibus inter saracenos et alios infideles). É um verdadeiro tratado de metodologia missionária, página única nas Regras monásticas e legislação canónica da Igreja até então.

A esta novidade acrescenta-se a ainda mais significativa novidade do método missionário face aos que confessam outra fé. A começar pela linguagem usada: nesta altura, a designação de “infiel” aplicava-se aos hereges, judeus e muçulmanos, enquanto para Francisco, “infiel” significa simplesmente aquele que não recebeu o batismo.

Segundo a referida Regra, só deve partir para esta missão “quem se sentisse inspirado” e depois da devida licença do seu “ministro e servo”. Quanto ao modo de ser missionário, Francisco propõe “duas formas de viverem entre os mouros e outros infiéis”: «O primeiro é não promoverem disputas e controvérsias, mas por amor de Deus submetam-se a toda a humana criatura, e confessem que são cristãos» (1Re 16). O primeiro anúncio é, portanto, o do testemunho da paz. Se houver condições, propõe-se um «segundo modo, nestes termos: «Quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus… para que se batizem e se façam cristãos» (Ibid.).

No capítulo XXII da mesma Regra, exorta assim seus irmãos: «Escutemos, meus irmãos, o que diz o Senhor: Amai os vossos inimigos e fazei bem àqueles que vos odeiam» (Mt 5,44). Além do mais, Francisco nunca viu no muçulmano ou outro homem qualquer um “inimigo”.

Diz assim essa Regra não bulada, no capítulo 16:

Dos que vão entre os sarracenos e outros infiéis

«Diz o Senhor: Eis que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas (Mt 10,16). Por isso, qualquer frade que quiser ir entre sarracenos e outros infiéis, vá com a licença de seu ministro e servo. O ministro dê-lhes a licença e não contradiga, se os considerar idóneos para serem mandados; pois deverá prestar contas a Deus (cf. Lc 18,2) se nisso ou em outras coisas proceder indiscretamente.

Mas os frades que vão, podem comportar-se espiritualmente entre eles de dois modos:

Um modo é que não façam nem litígios nem contendas, mas estejam submetidos a toda criatura humana por Deus (1Pd 2,13) e confessem que são cristãos.

Outro modo é que, quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus, para que creiam em Deus onipotente, Pai e Filho e Espírito Santo, criador de tudo, no Filho redentor e salvador, e que sejam batizados e se tornem cristãos, porque quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus».

Sem discussões nem controvérsias, mas “submetidos” a todos, “Por Deus”, sem deixarem de confessar que são cristãos. A linguagem da “submissão” é bem conhecida do islão. Mas Francisco alarga-a, não apenas a Deus, mas “a toda a criatura”. E foi esta atitude que fez a diferença em terras sarracenas.

Na Segunda Regra, aprovada por Bula de Honório III a 29 de novembro de 1223, é mais resumido na descrição do método missionário a adotar entre os “infiéis”, mas diz essencialmente o mesmo: «Aconselho, admoesto e exorto no Senhor Jesus Cristo a todos os meus irmãos que, quando vão pelo mundo, não litiguem, nem questionem, nem censurem os demais, mas sejam mansos, pacíficos e humildes e a todos falem com bons modos como convém».

 

Isidro Lamelas, OFM

Ensaio publicado em 7MARGENS

 

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Notas

[1]Cf. ARNALDO FORTINI, Nova Vita di San Francesco, I/2, 43-109.

[2]Cf. JORDANO DE GIANO, Chronica11. 12. 14. Ed. Bohmer, pp. 9-11,

[3]GIULIO BASETTI-SANI, “Saraceni”, em Dizionario Francescano, Edizioni Messaggero Padova, 1983, coluna 1660.

[4]Cf. TOMÁS DE CELANO, Vita secunda, 30; TIAGO DE VITRY, Carta6.

[5]ARNALDO FORTINI, Nova Vita di San Francesco, volume I, parte II, Edizioni Assisi, 43-109.

[6]Idem, Ibidem, p. 68.

[7]Idem, Ibidem, pp. 73-77.

[8]Alguns biógrafos colocam a visita antes da tomada de Damieta. Mas tudo indica que foi depois, no começo de novembro de 1219.

[9]S. Boaventura, Legenda Maior, IX, 4. Cf. GWENOLÉ JEUSSET, Encontro na outra margem– Francisco de Assis e os Muçulmanos, Braga 1998, 133.

[10]SÃO BOAVENTURA, Legenda Maior, IX,8.

[11]Crónica de Ernoul (Chronique d’Ernoul et de Bernard Le Trésorier, c. 37. In: Golubovich, BBT I, p. 12-13).

[12]TIAGO DE VITRY, Carta 6.

[13] Tiago de Vitry, Historia del Oriente, c. 32, em San Francisco de Asis, Escritos, Biografias. Documentos da la Época, BAC, Madrid 1978, p. 967.

[14]Idem. Ibidem, p. 109.

[15]Cf. P. SELLA,San Franceso e l’incontro con il Soltano d’Egitto. Revisitazione storica per una rilettura dei rapportei com l’Islam, in AntonianumLXXX (2005), 486.

[16]Cf. FRANCO CARDINI, Nella presenza del soldan superba. Saggi francescani, Spoleto 2009,42.

[17]Cf. FRANCO CARDINI, Nella presenza del soldan superba. Saggi francescani, Spoleto 2009,75.

[18]Cf. Legenda Maiorde São Boaventura, IX, 8.

[19]Ibidem, IX, 9.

[20]R. Grousset, Histoire des Croisades, III, pp. 266s.

[21]Cf. Teodósio Lombardi, Storia del Francescanesimo, pp. 67-70.

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