Um episódio que eu gosto muito da vida de São Francisco de Assis é o encontro de Francisco com o Leproso. Este episódio além de ter sido muito especial para Francisco, é-o também hoje para mim …

Para quem não se recorda do acontecimento… Francisco depara-se com um leproso e ao vê-lo sente, como de costume, nojo e desprezo por tal criatura. Só de olhar para ele lhe dava nojo, admitiu mais tarde Francisco. No entanto, naquele instante sentiu dentro de si uma força que o impulsionou a procurar vencer esse repudio e a ir ao encontro daquele leproso. Ao aproximar-se do leproso abraçou-o e beijou-o.

Parece atitude de um louco! Quem seria capaz hoje de abraçar um leproso… de beijá-lo? Dito por outras palavras mais atuais… Quem seria capaz de ir abraçar um contaminado pela Covid-19, e de o beijar?

Mas Francisco aproximou-se… e não só se aproximou como fez algo impensável, como abraçá-lo e beijá-lo. Na verdade, Francisco fez muito mais que isso. Se tivermos em conta que naquele tempo um leproso era alguém totalmente rejeitado pela sociedade, considerado já como morto… Francisco, através deste gesto, volta a dar a vida a este homem, volta a integrá-lo na sociedade, no âmbito dos afetos, de alguém que também é amado e não desprezado. Francisco dá-lhe uma segunda vida.

E se até aqui é já de grande espanto... Francisco vai mais longe. É que neste encontro com o Leproso, Francisco descobre uma grande verdade: afinal o leproso era Francisco, o leproso somos todos nós, com os nossos pecados, que procuramos esconder não só dos outros, mas também de nós mesmos. Os nossos pecados mancham a nossa alma, ao ponto de lhe dar a morte, a morte espiritual, que não só nos afasta uns dos outros, como também nos afasta de Deus. Também nós, tal como o leproso, de tanto vivermos no nosso pecado, nos esquecemos o que é sentir-se verdadeiramente amado, acolhido.

Francisco compreende que, sendo ele o verdadeiro leproso, é Deus que, num gesto de amor puro e misericordioso, nos olha com compaixão, se aproxima de nós, nos abraça, nos beija, nos limpa as feridas e nos restitui à vida. Descoberta extraordinária a de Francisco, que rapidamente se transforma na coisa mais bela e doce que ele alguma vez sentira em toda a sua vida. Dali em diante, Francisco procurará guardar essa doçura em seu coração. A doçura que é sentir que Deus nos ama infinitamente, apesar das nossas feridas e chagas purulentas, e nos volta a dar a vida no Seu amor.

Mas não fica por aqui… assim como Deus é misericordioso para connosco, também Deus nos convida a nós a usarmos de misericórdia para com os nossos irmãos. A olharmos também nós para eles com compaixão, a aproximarmo-nos deles e a acolhê-los na nossa vida e no íntimo do nosso coração, apesar dos seus muitos pecados. Assim como Deus faz para connosco, também nos diz para irmos e fazermos o mesmo para com os nossos irmãos.

Francisco de Assis dedicará toda a sua vida a proclamar esta descoberta… que Deus é Amor e Misericórdia. E isso foi mais que suficiente para lhe encher o coração e dar um novo sentido à sua vida.

Também nós hoje precisamos parar para contemplar o leproso… não tanto o leproso que há nos outros, mas o leproso que há em cada um de nós… e reconhecer as nossas chagas, os nossos pecados. Depois, seremos então capazes de deixar que o amor e a misericórdia de Deus possam dar um novo sentido à nossa vida, como fez com Francisco de Assis.

Olhando mais de perto este encontro entre Francisco de Assis e o leproso, a atitude de abraçar e beijar um leproso deixa-nos indecisos entre considerar Francisco de Assis um herói ou um louco. No meu ver, penso que terá um pouco de ambos…

Claro que primeiramente nos salta à vista a heroicidade de São Francisco, principalmente devido ao facto de ele arriscar a sua própria vida para ir ao encontro do outro, daquele que necessita da sua ajuda. Não pensando única e exclusivamente em si, procura ir ao encontro daquele que parece já estar morto. Que não tem salvação possível… que é perca de tempo…

Para nos ajudar a compreender o grau de heroicidade de Francisco, basta equipararmos a Lepra do tempo de Francisco ao COVID de hoje (atenção que não falo daqueles sintomas leves, como se de uma simples constipação se tratasse, mas daqueles casos mais graves!). A atitude que aparenta ser mais sensata é a de nos afastarmos e deixarmos que a doença acabe aquilo que começou. Quantos idosos são hoje colocados num canto para morrer (ou até mesmo praticando a eutanásia!), pois não há ventilador para todos (há que dar prioridades e fazer escolhas!). É uma realidade com a qual pouco a pouco nos vamos habituando, e até conformando…

A meu ver, o ato heroico, como o de Francisco de Assis, está hoje naqueles enfermeiros, médicos, sacerdotes, familiares, entre tantos outros, que põem em risco a sua própria vida para dar um pouco de dignidade àquele que sofre e que vê aproximar-se a morte. Um estar com, uma carícia, uma palavra de consolo, o simples ajudar a fazer uma chamada de despedida…

Os números falam por si… são milhares os que já perderam a vida ao serviço destes nossos irmãos infetados… e são ainda mais os que, mesmo conhecendo os riscos que correm, não desistem, porque sabem que a sua acção junto de quem está infetado pode fazer a diferença.

Admiro muito o facto de que vários operacionais de saúde, após recuperarem do vírus, voltam ao seu serviço… muitas das vezes voltam mesmo ao contacto direto com pacientes infetados, e quantas das vezes sacrificando mesmo o estar com a família. Isto sim é ser-se herói nos dias de hoje!

Olhemos agora para a loucura de Francisco de Assis… Sim, porque há que reconhecê-la e, dentro dos possíveis, compreendê-la.

Ao contrário do que seria de esperar, o encontro com o leproso não foi o essencial para Francisco, mas sim o pós-encontro. Ou seja, o essencial encontra-se nas marcas que esse encontro deixou em Francisco. Como já referi, Francisco vê-se como o verdadeiro leproso, aquele que até então estava contaminado com o verdadeiro vírus, o do pecado, que além de matar o corpo, mata também a alma. E ao compreender que é Deus, que num gesto de amor puro e misericordioso, nos olha com compaixão, se aproxima de nós, nos abraça, nos beija, nos limpa as feridas e nos restitui à vida, para Francisco tudo ganha um novo sentido. Aquilo que tanto amara até então passou a considerar como lixo e aquilo que lhe parecia a coisa mais amarga, se tornou na maior doçura que alguma vez experimentara.

Também hoje podemos dizer que o mais importante não será tanto a maneira como vencemos o vírus, mas o quanto ele nos fez crescer, nos transformou por dentro. Que ensinamentos nos deixou e que caminhos nos ajudou a seguir…

Francisco, perante tal realidade, deitou fora todas as suas certezas anteriores e atirou-se de cabeça para um mundo totalmente novo, acabado de descobrir, confiante num amor que ultrapassava todas as barreiras. A sua loucura? Foi por Cristo! Uma vez saboreado o amor e a misericórdia de Deus, Francisco não teve quaisquer dúvidas: não havia nada melhor do que estar nos braços de Deus. Tudo o resto perdera o seu sabor…

Também nós podemos aprender com Francisco que esta vida serve apenas para ganhar a outra, aquela que verdadeiramente importa. Na verdade, a maior desgraça não é morrer leproso ou contaminado com a COVID… mas morrer sem Deus! Se tivermos que morrer, que seja ao lado de Deus, unidos a Ele, a proclamar o Seu amor e a Sua misericórdia… não só com palavras, mas com os nossos gestos, com todo o nosso ser!

Não deixemos que as preocupações do mundo nos afastem de Deus… mas cometamos a loucura, como São Francisco de Assis, de mudar as nossas prioridades, mesmo que isso signifique ‘saltar sem paraquedas’, pois fomos criados para o Céu, para estarmos na presença de Deus.

 

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