António: o Santo que o mundo ama

1. Introdução

Das Florinhas de Francisco de Assis:
"Um dia que S. Francisco, terminada a oração, vinha saindo do bosque, quis Frei Masseu provar até onde chegava a sua humildade; e, indo ao seu encontro, em ar de repreensão, disse: "Porquê a ti? porquê a ti? porquê a ti?" E S, Francisco respondeu: "Que é que tu queres dizer?" Respondeu Frei Masseu: "Digo: donde vem que todos correm a ti e cada qual parece que só deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te? Tu não és formoso de corpo, não possuis grande ciência, não és nobre; donde vem, pois, que toda a gente corre atrás de ti?"

Ouvindo isto, o Santo, com grande alegria de espírito, levantando o rosto para o céu, esteve, por largo espaço de tempo, com a mente elevada em Deus e, depois que voltou a si, ajoelhou-se, deu graças e louvores a Deus, e logo, com muito fervor, voltando-se para Frei Masseu, disse:

"Queres saber porque a mim? queres saber porque a mim toda a gente corre? Isto me vem daqueles olhos do Altíssimo Deus, os quais por toda a parte contemplam os bons e os maus; e como estes olhos santíssimos não descobriram entre os pecadores nenhum mais vil, nem mais ignorante, nem maior do que eu; e, como para levar a cabo a maravilha que intentava, não achou, sobre a terra, mais vil criatura, escolheu-me a mim para confundir a nobreza, a força, a formosura e a grandeza do mundo, para que se reconheça que toda a virtude e todo o bem lhe pertencem e não à criatura, e que ninguém se pode gloriar em sua presença; mas, se alguém se gloriar, glorie-se no Senhor, a quem pertence toda a honra e glória, por toda a eternidade".

Então Frei Masseu, ao ouvir tão humilde resposta, dita com tão grande fervor, se espantou e conheceu que S. Francisco estava fundado em verdadeira humildade”.

Pergunto eu: Não se pode aplicar a mesma lição, também a Santo António? Porque, também Santo António foi um cativador de multidões, quer durante a sua vida quer depois da sua morte, até hoje: a basílica erguida em sua honra, na cidade de Pádua, e que guarda o seu túmulo, é meta de numerosíssimas peregrinações, a sua imagem encontra-se em quase todas as igrejas católicas, a sua devoção está espalhada em todo o mundo, então, porquê isso? porque todos continuam a venerá-lo, como se fosse um irmão, um amigo, um protetor?

A resposta que São Francisco deu a Frei Masseu vale também para Santo António e, de certa forma, para todos aqueles que procuram com sinceridade a verdade: só o humilde de coração, o que está disposto a mudar, a converter-se, a despojar-se de si próprio, pode chegar à Verdade e à Vida, isto é, a Cristo, a Deus. E nós, que ansiamos chegar à mesma meta, sentimo-nos fascinados por estes exemplos tão próximos de nós, embora nos separem os oito séculos da sua vida mortal.

 

2. Comentário da oração a Santo António de Ângelo Comastri

Então, para conhecer a vida de António, sirvo-me de uma singela oração, de autoria do Cardeal Ângelo Comastri, que nos oferece o fio condutor da sua vida e nos permite entender porque é um santo que todo o mundo ama.

Santo António,
amigo de Deus e amigo dos pobres,
voz de Deus e voz dos homens,
jovem capaz de falar aos jovens,
homem forte capaz de resistir perante os poderosos
com a força desarmada do Evangelho!

Hoje o mundo precisa urgentemente de Evangelho:
ajuda-nos a sermos anunciadores infatigáveis de Jesus
pelas estradas obscuras da sociedade do bem-estar;
ajuda-nos a gritar o Evangelho com a vida
tornando-nos deveras pobres,
para testemunhar a riqueza de Deus.

Santo António,
jovem apaixonado por Deus,
hoje os jovens são defraudados da Esperança
e enganados com a sedutora proposta
de diversões que não saciam o coração:
ajuda-nos a ser deveras felizes,
para testemunhar a genuína alegria
que habita no coração de Cristo.

Santo António,
torna-nos homens de silêncio,
para anunciar palavras cheias de Deus!
Arranca-nos de uma vida medíocre,
para poder percorrer o caminho belo da santidade,
com humildade, com pureza,
com a alegria evangélica e franciscana.

Ámen!

(O perfil da vida que apresento é, em boa parte, fruto de um trabalho de um meu confrade: Frei Fabrízio Bordin, para o qual vai o meu agradecimento)

António nasceu em Lisboa à sombra da Sé, de uma família nobre, mas também muito religiosa. A sua amizade com Deus é fruto da catequese e da vida litúrgica à qual participava como «menino do coro», iniciado por um tio que era cónego da Sé.

Mas António aprofundou ainda mais a sua relação com o Senhor através da leitura e estudo da Palavra de Deus, primeiro, no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa e, depois, no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra que, naquela altura, possuía a maior biblioteca de Portugal.

António chega aos vinte e poucos anos com uma formação bíblica e teológica muito profunda. É ordenado sacerdote. Mas ainda não se sabe nada dele: do seu temperamento, da sua família, das suas intervenções… é simplesmente um monge, dedicado à vida regular ritmada pela oração, pelo estudo e pelo trabalho manual. Porém, António vive no seu íntimo grandes desejos e sonhos. Talvez, queria ser missionário, sonhava uma vida mais radical, queria servir os mais pobres. Tudo isto acontecerá na altura própria.

O evento que lhe dá a coragem para tomar uma decisão, é o martírio de cinco frades franciscanos, vindos de Itália, que ele tinha encontrado na hospedaria do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. António tinha ficado impressionado com o estilo da vida deles e, sobretudo, com o derramamento do sangue por amor a Cristo. Toda a sua cultura e preparação não chegava. O que faltava? Não é suficiente ser amigo de Deus, é preciso também ser a «voz de Deus», quer dizer, anunciar o Evangelho aos homens.

António, então, deixa a Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e ingressa na Ordem dos Frades Menores. Teve coragem. Esta Ordem era muito nova, algo desconcertante, muitas vocações, mas com tantos frades um bocado aventureiros… A Igreja estava ainda a ver o que isso ia dar. Mas António não teve medo de deixar o mosteiro grande, famoso e abastado de Santa Cruz de Coimbra, por uma casa simples, pobre, fora da cidade, na colina dos Olivais, onde fez uma espécie de noviciado antes de professar a Regra dos franciscanos e, de seguida, partir para Marrocos.

Nós sabemos que não correu conforme os seus desejos. Adoeceu, iniciou uma viagem de regresso, mas o navio apanhou uma tempestade que o levou até à Sicília. Mas foi graças a esta desventura que António teve a sorte de participar numa grande assembleia de frades em Assis, chamada “Capítulo das esteiras” (1221), presidida pelo fundador: Francisco de Assis.

Simples e humilde como era, António talvez terá visto Francisco de longe ou o terá simplesmente cumprimentado sem dizer nada do seu passado. Na conclusão da assembleia António foi acolhido pelo frade Ministro provincial da Romanha, que precisava de um irmão sacerdote para celebrar a Eucaristia. Levou-o para o ermitério de Monte Paulo, próximo de Forlì, e aí António dividiu o tempo entre a lida da casa, a oração e a celebração da Eucaristia.

Em Monte Paulo, António afina a dimensão contemplativa da sua escolha franciscana. É um tempo de amadurecimento. Por vezes há pressa de fazer coisas, de lançar-se na vida pastoral, e o apostolado transforma-se em mero ativismo. António ensina-nos a dar tempo para a vida interior. A força do seu anúncio, as energias gastas na pregação e no atendimento das pessoas não só para ouvir os pecados, mas também tantas situações de indigência e de pobreza, são fruto deste tempo em que o Espírito forjou a personalidade de Santo António, tornando-o, em seguida, um pregador incansável e um apaixonado de Deus. Depois da sua pregação ocasional em Forlí, ninguém mais conseguirá travar o entusiasmo deste homem.

Do Sul da França até ao Norte de Itália deixa a sua marca de «homem do Evangelho e da Caridade». Ensina, com o mandato de Francisco, teologia aos frades em formação, quer dizer lê, comenta, ajudando a meditar, a rezar e viver a Sagrada Escritura. É um comentar cheio de imagens retiradas da vida do dia-a-dia, do conhecimento da natureza, da vida vegetal e animal. Entusiasma o povo e, ao mesmo, tempo castiga e repreende monges e sacerdotes pela incoerência das suas vidas. Denuncia as injustiças do seu tempo, sobretudo dos ricos que escravizam as famílias pobres da cidade.

António antes de morrer, mais uma vez procurou um lugar de sossego para se preparar para o encontro definitivo com Deus. Camposampiero, uma pequena vila próxima de Pádua, é a terra que o abriga numa árvore (uma nogueira), assim como as aves fazem o ninho, respirando as cores do céu e contemplando a vida da terra. Entre o céu e a terra, António prepara-se para levantar o voo. Num carro de uma família de camponeses da vila, puxado por um par de bois, regressa à cidade de Pádua que o tinha ouvido com grande interesse e participação, ao longo de toda a Quaresma, acolhendo o firme convite à conversão. Na noite de 12 de Junho de 1231 António deixava este mundo dizendo aos seus frades: «Vejo o meu Senhor» e cantando a Nossa Senhora, com o título de Virgem gloriosa.

Nem um ano depois, o Papa acolhendo o desejo do povo, proclamava-o Santo de todo o mundo. Os frades missionários que saíram pelo mundo fora deram-no a conhecer como Santo António de Pádua (os italianos) e como Santo António de Lisboa (os portugueses). Mas lá em cima, no Céu, ele não se queixa, sorri e ama-nos a todos, intercedendo com as suas graças.

 

3. A marca característica da sua vida: a inquietação evangélica

Chegados a este ponto, surge espontânea uma pergunta: qual é o sinal que caracteriza mais a sua vida?

Santo António, depois de 800 anos, continua a interpelar-nos com uma surpreendente vitalidade e relevância, sendo um ponto de referência de uma devoção universal que caracteriza particularmente o fenómeno da “devoção popular”, bem como o frade que, graças a estudos aprofundados que o recolocaram na sua identidade, se tornou uma "figura chave" para compreender a história franciscana das origens.

Podemos mesmo afirmar que o Santo António é uma personagem "bilateral", quase "bipolar": o Santo da devoção popular e o Frei António da história, dois caminhos paralelos que raramente se cruzam, mas que falam da mesma personagem.

Qual é, então, a característica que mais define a sua identidade, e que tornou a sua pessoa tão próxima e querida a toda a gente? Podemos identificá-la - como afirma um grande conhecedor da sua vida: Frei Luciano Bertazzo - com estes dois termos: inquietação e paixão.

 

a) Inquietação evangélica

A atmosfera que António respirava no mundo cristão do seu tempo era de mudança: a busca de novos caminhos, de novas maneiras de viver o evangelho, de forma radical e sem acomodamentos com a riqueza e o poder. Já não era suficiente o espaço do mosteiro, como garantia de salvação e antecipação da "Jerusalém celeste"; começam a abrir-se novos espaços, os da cidade, do comércio, da itinerância.

O jovem de Assis, Francisco, não menos inquieto e que procurava a verdade sobre si mesmo, tinha tentado, bem como outros, novos caminhos, fascinando com o seu projeto muitos jovens, decididos a segui-lo no radicalismo evangélico que ele tinha abraçado. Alguns deles tinham chegado a Coimbra, com o projeto de atravessar a fronteira da cristandade num sonho que encontraria a sua concretização no martírio pelo Senhor. Fernando encontrara-os no mosteiro de Santa Cruz, quando ainda estava seguro de si, embora com muitas tensões; ele os "reencontra" quando são trazidos de volta, mártires de Cristo. É o toque que lhe permite tomar a decisão de mudar de vida. Para cortar os laços com a família, com o mosteiro, com a sua história anterior, até muda de nome, e lança-se numa aventura que gostaria corresse de acordo com o seu novo projeto: ser também mártir de Cristo. Não como Fernando de Lisboa, mas como Frei António.

Porém, o seu projeto pessoal de martírio naufraga, não apenas na realidade natural de um mar agitado, mas também no fracasso de um sonho perseguido. Então?

Em 1221, António encontra-se em Assis. Cerca de cinco mil frades estão reunidos em torno de Frei Francisco, um fundador surpreendido, incapaz, por enquanto, de aguentar a mudança do seu sonho inicial vivido com os primeiros doze companheiros. Ele também deve recompor o seu projeto pessoal com o de Deus.

 

b) Paixão pelo Evangelho

Frei António é um desconhecido, quando é enviado para o ermitério de Montepaolo, na Romanha. Ele precisa juntar os fragmentos de seu sonho, medindo-os com a realidade. É só no "silêncio" que se pode ouvir a voz de Deus que se revela no concreto da história.

A história torna-se presente quando, em Forlì, Frei António se dá a conhecer pelos dons recebidos de um surpreendente conhecimento da Sagrada Escritura. A partir de então, aquele que foi "o amante do ermitério e do silêncio" (Vita prima), torna-se o homem da palavra, pregada, contemplada, anunciada com uma paixão incansável para converter os corações, e para que os corações convertidos estreitassem relações humanas e sociais diferentes da violência e dos abusos. Uma atividade incansável que o vê presente quer na formação dos frades, conforme o mandato recebido de Francisco, quer como pregador credível da boa nova e como guardião e ministro (servo) dos frades nas terras de França e do norte da Itália.

Ele não tinha ainda quarenta anos quando, depois de ter gasto toda a sua vida na pregação e no apostolado, morre "vendo o seu Senhor" a 13 de junho de 1231.

A sua, é uma memória bendita: reconhecida pela Igreja com a canonização menos de um ano depois da sua morte (30 de maio de 1232); memória que ultrapassou o santuário que a cidade de Pádua lhe dedicou, tornando-se o santo, o protetor dos pequenos e dos pobres, o fiador das graças, que os próprios confrades quiseram levar consigo, reconhecendo a sua santidade, como anunciador do evangelho de Cristo até os confins do mundo. Por isto tudo, Santo António é o Santo que o mundo ama.

António: o Santo que o mundo ama

1. Introdução

Das Florinhas de Francisco de Assis:
"Um dia que S. Francisco, terminada a oração, vinha saindo do bosque, quis Frei Masseu provar até onde chegava a sua humildade; e, indo ao seu encontro, em ar de repreensão, disse: "Porquê a ti? porquê a ti? porquê a ti?" E S, Francisco respondeu: "Que é que tu queres dizer?" Respondeu Frei Masseu: "Digo: donde vem que todos correm a ti e cada qual parece que só deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te? Tu não és formoso de corpo, não possuis grande ciência, não és nobre; donde vem, pois, que toda a gente corre atrás de ti?"

Ouvindo isto, o Santo, com grande alegria de espírito, levantando o rosto para o céu, esteve, por largo espaço de tempo, com a mente elevada em Deus e, depois que voltou a si, ajoelhou-se, deu graças e louvores a Deus, e logo, com muito fervor, voltando-se para Frei Masseu, disse:

"Queres saber porque a mim? queres saber porque a mim toda a gente corre? Isto me vem daqueles olhos do Altíssimo Deus, os quais por toda a parte contemplam os bons e os maus; e como estes olhos santíssimos não descobriram entre os pecadores nenhum mais vil, nem mais ignorante, nem maior do que eu; e, como para levar a cabo a maravilha que intentava, não achou, sobre a terra, mais vil criatura, escolheu-me a mim para confundir a nobreza, a força, a formosura e a grandeza do mundo, para que se reconheça que toda a virtude e todo o bem lhe pertencem e não à criatura, e que ninguém se pode gloriar em sua presença; mas, se alguém se gloriar, glorie-se no Senhor, a quem pertence toda a honra e glória, por toda a eternidade".

Então Frei Masseu, ao ouvir tão humilde resposta, dita com tão grande fervor, se espantou e conheceu que S. Francisco estava fundado em verdadeira humildade”.

Pergunto eu: Não se pode aplicar a mesma lição, também a Santo António? Porque, também Santo António foi um cativador de multidões, quer durante a sua vida quer depois da sua morte, até hoje: a basílica erguida em sua honra, na cidade de Pádua, e que guarda o seu túmulo, é meta de numerosíssimas peregrinações, a sua imagem encontra-se em quase todas as igrejas católicas, a sua devoção está espalhada em todo o mundo, então, porquê isso? porque todos continuam a venerá-lo, como se fosse um irmão, um amigo, um protetor?

A resposta que São Francisco deu a Frei Masseu vale também para Santo António e, de certa forma, para todos aqueles que procuram com sinceridade a verdade: só o humilde de coração, o que está disposto a mudar, a converter-se, a despojar-se de si próprio, pode chegar à Verdade e à Vida, isto é, a Cristo, a Deus. E nós, que ansiamos chegar à mesma meta, sentimo-nos fascinados por estes exemplos tão próximos de nós, embora nos separem os oito séculos da sua vida mortal.

 

2. Comentário da oração a Santo António de Ângelo Comastri

Então, para conhecer a vida de António, sirvo-me de uma singela oração, de autoria do Cardeal Ângelo Comastri, que nos oferece o fio condutor da sua vida e nos permite entender porque é um santo que todo o mundo ama.

Santo António,
amigo de Deus e amigo dos pobres,
voz de Deus e voz dos homens,
jovem capaz de falar aos jovens,
homem forte capaz de resistir perante os poderosos
com a força desarmada do Evangelho!

Hoje o mundo precisa urgentemente de Evangelho:
ajuda-nos a sermos anunciadores infatigáveis de Jesus
pelas estradas obscuras da sociedade do bem-estar;
ajuda-nos a gritar o Evangelho com a vida
tornando-nos deveras pobres,
para testemunhar a riqueza de Deus.

Santo António,
jovem apaixonado por Deus,
hoje os jovens são defraudados da Esperança
e enganados com a sedutora proposta
de diversões que não saciam o coração:
ajuda-nos a ser deveras felizes,
para testemunhar a genuína alegria
que habita no coração de Cristo.

Santo António,
torna-nos homens de silêncio,
para anunciar palavras cheias de Deus!
Arranca-nos de uma vida medíocre,
para poder percorrer o caminho belo da santidade,
com humildade, com pureza,
com a alegria evangélica e franciscana.

Ámen!

(O perfil da vida que apresento é, em boa parte, fruto de um trabalho de um meu confrade: Frei Fabrízio Bordin, para o qual vai o meu agradecimento)

António nasceu em Lisboa à sombra da Sé, de uma família nobre, mas também muito religiosa. A sua amizade com Deus é fruto da catequese e da vida litúrgica à qual participava como «menino do coro», iniciado por um tio que era cónego da Sé.

Mas António aprofundou ainda mais a sua relação com o Senhor através da leitura e estudo da Palavra de Deus, primeiro, no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa e, depois, no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra que, naquela altura, possuía a maior biblioteca de Portugal.

António chega aos vinte e poucos anos com uma formação bíblica e teológica muito profunda. É ordenado sacerdote. Mas ainda não se sabe nada dele: do seu temperamento, da sua família, das suas intervenções… é simplesmente um monge, dedicado à vida regular ritmada pela oração, pelo estudo e pelo trabalho manual. Porém, António vive no seu íntimo grandes desejos e sonhos. Talvez, queria ser missionário, sonhava uma vida mais radical, queria servir os mais pobres. Tudo isto acontecerá na altura própria.

O evento que lhe dá a coragem para tomar uma decisão, é o martírio de cinco frades franciscanos, vindos de Itália, que ele tinha encontrado na hospedaria do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. António tinha ficado impressionado com o estilo da vida deles e, sobretudo, com o derramamento do sangue por amor a Cristo. Toda a sua cultura e preparação não chegava. O que faltava? Não é suficiente ser amigo de Deus, é preciso também ser a «voz de Deus», quer dizer, anunciar o Evangelho aos homens.

António, então, deixa a Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e ingressa na Ordem dos Frades Menores. Teve coragem. Esta Ordem era muito nova, algo desconcertante, muitas vocações, mas com tantos frades um bocado aventureiros… A Igreja estava ainda a ver o que isso ia dar. Mas António não teve medo de deixar o mosteiro grande, famoso e abastado de Santa Cruz de Coimbra, por uma casa simples, pobre, fora da cidade, na colina dos Olivais, onde fez uma espécie de noviciado antes de professar a Regra dos franciscanos e, de seguida, partir para Marrocos.

Nós sabemos que não correu conforme os seus desejos. Adoeceu, iniciou uma viagem de regresso, mas o navio apanhou uma tempestade que o levou até à Sicília. Mas foi graças a esta desventura que António teve a sorte de participar numa grande assembleia de frades em Assis, chamada “Capítulo das esteiras” (1221), presidida pelo fundador: Francisco de Assis.

Simples e humilde como era, António talvez terá visto Francisco de longe ou o terá simplesmente cumprimentado sem dizer nada do seu passado. Na conclusão da assembleia António foi acolhido pelo frade Ministro provincial da Romanha, que precisava de um irmão sacerdote para celebrar a Eucaristia. Levou-o para o ermitério de Monte Paulo, próximo de Forlì, e aí António dividiu o tempo entre a lida da casa, a oração e a celebração da Eucaristia.

Em Monte Paulo, António afina a dimensão contemplativa da sua escolha franciscana. É um tempo de amadurecimento. Por vezes há pressa de fazer coisas, de lançar-se na vida pastoral, e o apostolado transforma-se em mero ativismo. António ensina-nos a dar tempo para a vida interior. A força do seu anúncio, as energias gastas na pregação e no atendimento das pessoas não só para ouvir os pecados, mas também tantas situações de indigência e de pobreza, são fruto deste tempo em que o Espírito forjou a personalidade de Santo António, tornando-o, em seguida, um pregador incansável e um apaixonado de Deus. Depois da sua pregação ocasional em Forlí, ninguém mais conseguirá travar o entusiasmo deste homem.

Do Sul da França até ao Norte de Itália deixa a sua marca de «homem do Evangelho e da Caridade». Ensina, com o mandato de Francisco, teologia aos frades em formação, quer dizer lê, comenta, ajudando a meditar, a rezar e viver a Sagrada Escritura. É um comentar cheio de imagens retiradas da vida do dia-a-dia, do conhecimento da natureza, da vida vegetal e animal. Entusiasma o povo e, ao mesmo, tempo castiga e repreende monges e sacerdotes pela incoerência das suas vidas. Denuncia as injustiças do seu tempo, sobretudo dos ricos que escravizam as famílias pobres da cidade.

António antes de morrer, mais uma vez procurou um lugar de sossego para se preparar para o encontro definitivo com Deus. Camposampiero, uma pequena vila próxima de Pádua, é a terra que o abriga numa árvore (uma nogueira), assim como as aves fazem o ninho, respirando as cores do céu e contemplando a vida da terra. Entre o céu e a terra, António prepara-se para levantar o voo. Num carro de uma família de camponeses da vila, puxado por um par de bois, regressa à cidade de Pádua que o tinha ouvido com grande interesse e participação, ao longo de toda a Quaresma, acolhendo o firme convite à conversão. Na noite de 12 de Junho de 1231 António deixava este mundo dizendo aos seus frades: «Vejo o meu Senhor» e cantando a Nossa Senhora, com o título de Virgem gloriosa.

Nem um ano depois, o Papa acolhendo o desejo do povo, proclamava-o Santo de todo o mundo. Os frades missionários que saíram pelo mundo fora deram-no a conhecer como Santo António de Pádua (os italianos) e como Santo António de Lisboa (os portugueses). Mas lá em cima, no Céu, ele não se queixa, sorri e ama-nos a todos, intercedendo com as suas graças.

 

3. A marca característica da sua vida: a inquietação evangélica

Chegados a este ponto, surge espontânea uma pergunta: qual é o sinal que caracteriza mais a sua vida?

Santo António, depois de 800 anos, continua a interpelar-nos com uma surpreendente vitalidade e relevância, sendo um ponto de referência de uma devoção universal que caracteriza particularmente o fenómeno da “devoção popular”, bem como o frade que, graças a estudos aprofundados que o recolocaram na sua identidade, se tornou uma "figura chave" para compreender a história franciscana das origens.

Podemos mesmo afirmar que o Santo António é uma personagem "bilateral", quase "bipolar": o Santo da devoção popular e o Frei António da história, dois caminhos paralelos que raramente se cruzam, mas que falam da mesma personagem.

Qual é, então, a característica que mais define a sua identidade, e que tornou a sua pessoa tão próxima e querida a toda a gente? Podemos identificá-la - como afirma um grande conhecedor da sua vida: Frei Luciano Bertazzo - com estes dois termos: inquietação e paixão.

 

a) Inquietação evangélica

A atmosfera que António respirava no mundo cristão do seu tempo era de mudança: a busca de novos caminhos, de novas maneiras de viver o evangelho, de forma radical e sem acomodamentos com a riqueza e o poder. Já não era suficiente o espaço do mosteiro, como garantia de salvação e antecipação da "Jerusalém celeste"; começam a abrir-se novos espaços, os da cidade, do comércio, da itinerância.

O jovem de Assis, Francisco, não menos inquieto e que procurava a verdade sobre si mesmo, tinha tentado, bem como outros, novos caminhos, fascinando com o seu projeto muitos jovens, decididos a segui-lo no radicalismo evangélico que ele tinha abraçado. Alguns deles tinham chegado a Coimbra, com o projeto de atravessar a fronteira da cristandade num sonho que encontraria a sua concretização no martírio pelo Senhor. Fernando encontrara-os no mosteiro de Santa Cruz, quando ainda estava seguro de si, embora com muitas tensões; ele os "reencontra" quando são trazidos de volta, mártires de Cristo. É o toque que lhe permite tomar a decisão de mudar de vida. Para cortar os laços com a família, com o mosteiro, com a sua história anterior, até muda de nome, e lança-se numa aventura que gostaria corresse de acordo com o seu novo projeto: ser também mártir de Cristo. Não como Fernando de Lisboa, mas como Frei António.

Porém, o seu projeto pessoal de martírio naufraga, não apenas na realidade natural de um mar agitado, mas também no fracasso de um sonho perseguido. Então?

Em 1221, António encontra-se em Assis. Cerca de cinco mil frades estão reunidos em torno de Frei Francisco, um fundador surpreendido, incapaz, por enquanto, de aguentar a mudança do seu sonho inicial vivido com os primeiros doze companheiros. Ele também deve recompor o seu projeto pessoal com o de Deus.

 

b) Paixão pelo Evangelho

Frei António é um desconhecido, quando é enviado para o ermitério de Montepaolo, na Romanha. Ele precisa juntar os fragmentos de seu sonho, medindo-os com a realidade. É só no "silêncio" que se pode ouvir a voz de Deus que se revela no concreto da história.

A história torna-se presente quando, em Forlì, Frei António se dá a conhecer pelos dons recebidos de um surpreendente conhecimento da Sagrada Escritura. A partir de então, aquele que foi "o amante do ermitério e do silêncio" (Vita prima), torna-se o homem da palavra, pregada, contemplada, anunciada com uma paixão incansável para converter os corações, e para que os corações convertidos estreitassem relações humanas e sociais diferentes da violência e dos abusos. Uma atividade incansável que o vê presente quer na formação dos frades, conforme o mandato recebido de Francisco, quer como pregador credível da boa nova e como guardião e ministro (servo) dos frades nas terras de França e do norte da Itália.

Ele não tinha ainda quarenta anos quando, depois de ter gasto toda a sua vida na pregação e no apostolado, morre "vendo o seu Senhor" a 13 de junho de 1231.

A sua, é uma memória bendita: reconhecida pela Igreja com a canonização menos de um ano depois da sua morte (30 de maio de 1232); memória que ultrapassou o santuário que a cidade de Pádua lhe dedicou, tornando-se o santo, o protetor dos pequenos e dos pobres, o fiador das graças, que os próprios confrades quiseram levar consigo, reconhecendo a sua santidade, como anunciador do evangelho de Cristo até os confins do mundo. Por isto tudo, Santo António é o Santo que o mundo ama.