Frei Daniel Teixeira, da Ordem dos Frades Menores, partilha connosco um texto que escreveu sobre os primeiros mártires da Ordem Franciscana.
S. Francisco de Assis com os seus frades reunidos em Capítulo de Pentecostes em 1219 decidiram a organização de uma grande expedição missionária. S. Francisco partiu com um grupo para o Oriente e outro grupo partiu para Espanha a fim de pregar o Evangelho aos maometanos. Aqui foram presos e enviados para Marrocos onde morreram a 16 de Janeiro de 1220: Berardo, Otão (sacerdotes), Pedro (Diácono), Acúrsio e Adjuto (Leigos).
O martírio era de facto o grande desejo destes pobres frades de fé irredutível. O Miramolim ainda os tentou com dinheiro e mulheres: «Convertei-vos â nossa fé, e dar-vos-hei estas mulheres para esposas e grande quantia de dinheiro, e sereis honrados aqui na nossa terra». Responderam: «por amor de Cristo tudo abandonámos». Não havia nada a fazer e o Miramolim dizia então que só a espada poderia calar aqueles homens decididos e firmes no que diziam. «Os nossos corpos miseráveis estão nas tuas mãos sob a tua autoridade, mas as nossas almas estão nas mãos de Deus».
Os cristão portugueses residentes em Marrocos conseguiram recolher clandestinamente os restos mortais, levaram-nos ao infante D. Pedro e este ordenou que fossem colocados em duas arcas e enviados para Portugal, onde foram recebidos triunfalmente.
O rei D. Afonso II, ao aperceber-se da chegada a Coimbra das arcas com os restos mortais, cuidou da recepção e devoção no convento de Santa Cruz, onde foram colocados em altar privilegiado e cultuados com muita devoção.
A evangelização, fama e devoção dos Mártires de Marrocos, para além de merecer a atenção do Reino e das entidades eclesiásticas, mobilizou fiéis e devotos, a ponto de Santa Cruz funcionar como epicentro do culto aos Mártires.
O CULTO AOS MÁRTIRES DE MARROCOS EM PORTUGAL
Em Santa Cruz emergiu a Confraria dos Invictos Santos Mártires de Marrocos, com centenas de confrades. A comunidade religiosa e civil consignou o dia 16 de Janeiro como dia santificado e feriado, por neste dia se efectuar a Procissão dos Nús, de bastante concurso de gente, iniciada no rocio de Santa Clara, junto ao Convento de S. Francisco da Ponte, e a terminar na igreja do mosteiro crúzio.
A Procissão dos Nús advém de um voto e promessa de um cidadão de Fala, arrabaldes da cidade em 1423. Aquando de uma epidemia de peste, prometeu o cidadão aos Mártires, no caso de cura dos filhos, todos os anos ir em procissão com os filhos nús de cintura para cima e joelhos para baixo rezar a Santa Cruz. O feito materializou-se e a devoção divulgou-se, verificaram-se muitas adesões e no século XVIII constituía uma das maiores procissões de Coimbra.
Associada a esta procissão, coexistiam em Fala duas outras tradições, que permanecem activas até finais do século XIX: a bênção dos campos (em Maio) e a volta da campainha da burra (a 16 de Janeiro), um pouco na senda do processado na paróquia de Santa Cruz e de cujos vestígios mora em Santa Cruz a campainha reformada.
Em Fala, em finais do século XX, a volta da Campaínha da Burra foi recuperada por acção do Grupo Regional de Danças e Cantares do Mondego, sediado em Fala (S. Martinho do Bispo - Coimbra), e cuja praxis consiste em percorrer as casas e sítios do lugar com uma burra ou mula carregando uma mala, símbolo da guarda das relíquias dos Santos, precedida de campaínha tangida a anunciar a chegada, um percurso acompanhado com músicas e cânticos alusivos à época, no caso as Janeiras.
Uma vez chegados às casas, o chefe de família toma a campaínha, coloca-a sobre a cabeça de cada um dos membros da família, pronunciando a seguinte frase: Em nome dos Santos Mártires de Marrocos, para que dêem juizinho até à hora da morte, respondendo os presentes Amem. Uma vez concluída esta função, recebida uma pequena esmola e tomado um aperitivo, o grupo e a burra continuam por outras casas e ruas do lugar.
Esta tradição, retomada em 1998, mantém-se viva em Fala, com os membros do Grupo trajados a rigor dando corpo a um dos maiores Bens Culturais ancestrais da região de Coimbra.
TRAVASSÔ E OS SANTOS MÁRTIRES DE MARROCOS
O culto e devoção aos Santos Mártires de Marrocos em Travassô (Águeda) contém vivências ancestrais, que remontam a um período muito anterior ao século XVII e que se mantém no século XXI. Hoje é um dos únicos locais em que os protomártires franciscanos são festejados, exceptuando as Fraternidades dos Franciscanos da I Ordem em Portugal, a Missa de Festa em Santa Cruz de Coimbra e a volta da Campainha da Burra em Fala - S. Martinho do Bispo, também em Coimbra.
A festa dos Santos Mártires que se celebra nesta Paróquia de São Miguel de Travassô nos dias 15 e 16 de Janeiro de cada ano congrega um elevado número de pessoas, desde turistas a romeiros e peregrinos. No dia 16 de Janeiro a Freguesia de Travassô quadruplica a população com estes peregrinos e romeiros oriundos um pouco de todo o lado.
A vida e testemunho dos Mártires de Marrocos estão na origem da vocação do primeiro franciscano português: Santo António de Lisboa.
Imagem dos Mártires de Marrocos que se venera na Igreja Matriz de Travassô, em Águeda