O Ano Jubilar 2025, “Peregrinos da Esperança”, convocado pelo Papa Francisco e que se encaminha para o fim a 6 de janeiro de 2026, convida-nos a caminhar como peregrinos de esperança, atentos ao mundo que nos rodeia. À nossa volta, muitos corações parecem apagados, vidas esmorecidas na poeira da indiferença, e tantas almas procuram um raio de luz que lhes aqueça a alma. A esperança pode parecer ténue, quase um sopro perdido entre as sombras, mas é precisamente nesse sopro que a fé nos impele a reacender a chama, a aproximar-nos dos que sofrem e a semear gestos de amor capazes de transformar vidas.
Aqui encontramos o ideal franciscano deixado por São Francisco, que, no Alverne, recebeu os estigmas do Crucificado. Não eram apenas marcas no corpo, mas uma comunhão profunda com a Paixão de Cristo, uma entrega total ao amor que salva. Estes sinais lembram-nos que a vida cristã não é isenta de sofrimento, mas que cada dor, acolhida com amor, se pode tornar fonte de graça e transformação. Celebrar os estigmas é compreender que a nossa existência se esconde com Cristo em Deus, e que mesmo a dor mais intensa pode florescer quando vivida em comunhão com Ele.
O segredo destas chagas está no amor que lhes dá vida. A dor sem amor oprime; a dor com amor transforma-se em ponte, chama e bálsamo que alcança outros corações. Francisco entregou-se de forma total, desejando que nada nele permanecesse que não fosse devotado ao Senhor. A oração que lhe é atribuída no Alverne traduz essa entrega radical: pedir que nada no seu coração permanecesse que não fosse amor, para se poder entregar por inteiro, assim como Cristo se entregou por nós. É neste arrebatamento que os estigmas revelam a sua essência: aceitar a dor, unir-se à dor do Crucificado e transformá-la em esperança que ilumina o mundo.
Cada um de nós carrega as suas dores e sente-as de maneira singular, mas Francisco ensina-nos que sofrer com amor, por muito difícil que seja, é caminho de libertação e esperança. É neste exercício de entrega que a dor se transmuta em luz, se converte em consolo e se torna instrumento de transformação para quem está à nossa volta. Num mundo marcado por guerras, injustiças e indiferenças, este ensinamento é um farol: a nossa compaixão, o nosso cuidado silencioso e a nossa presença atenta podem fazer germinar vida nova onde parecia apenas haver desespero.
Seguir Cristo, como Francisco nos recorda, não é fugir da dor, mas deixar que ela nos molde, purifique e ensine a amar. A esperança germina nos gestos mais simples, na atenção silenciosa, no cuidado discreto que muda destinos sem alarde. Cada olhar que se detém, cada mão que se estende, cada palavra de consolo é reflexo do Crucificado.
Ser peregrino de esperança é caminhar com o coração desperto e mãos abertas, acolher a dor sem medo e permitir que ela nos guie no serviço e no amor. Que os estigmas, expressão viva da Paixão de Cristo, nos inspirem a ser luz para os que perderam a confiança, voz para os que se calam e abraço para os que caminham sós.
Que, à semelhança de São Francisco, sejamos peregrinos de esperança, capazes de reacender sonhos, transformar vidas e mostrar que o amor verdadeiro é sempre mais forte que as sombras, mais audaz que o desânimo e mais luminoso que qualquer escuridão.
Frei Ricardo Jorge, OFMCap
* Texto Publicado originalmente no Boletim da Irmã Maria Rita de Jesus, dezembro de 2025, nº 57,
Propriedade da Província Portuguesa das Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora.