O olhar atento e hábil de Roberto Rossellini (1906-1977) concentrou-se, em 1950, na figura do santo de Assis. Entre o realizador neorrealista e o sagrado havia um subtil fio condutor: bastaria pensar na sua produção cinematográfica que teve como sujeito, precisamente a fé. O exemplo de “Francesco, giullare di Dio” (em Portugal: “O santo dos pobrezinhos”) foi só o início.

Depois, nasceram obras imortais, como “Os sete pecados capitais” (1952), “Joana d’Arc na fogueira” (1954), “Atos dos apóstolos” (1969), “Agostinho de Hipona” (1972) e, por último, “O Messias” (1975). Todos estes títulos tiveram um ponto em comum: a expressividade e o realismo dos personagens conseguem conduzir o espetador a um envolvimento interior dos e nos acontecimentos narrados.

“O santo dos pobrezinhos” não teve de imediato os favores da crítica. Todavia, os fotogramas de Rossellini inspiraram outro filme de culto do cinema religioso. Estamos a falar do famoso “Evangelho segundo Mateus”, realizado entre os penedos de Matera, em 1964, por Pier Paolo Pasolini.

Explica Rossellini: Em “O santo dos pobrezinhos” não descrevo nem o seu nascimento nem a sua morte; nem pretendi alcançar a exposição completa da mensagem e do espírito franciscano ou de abeirar-me diretamente à formidável e complexa personalidade de Francisco. Considerei, antes, oportuno mostrar os seus reflexos sobre os seus seguidores», alguns dos quais «revelam ate ao paradoxo o espírito de simplicidade, de alegria que emana do espírito de Francisco»

A simplicidade franciscana é a marca predominante desta obra-prima. Com efeito, Rossellini consegue sintetizar a vida de Francisco em apenas onze secções, extraídas das “Florinhas”, introduzidos por breves notas. “Maravilhosa ceia com a irmã Clara”, “Francisco beija o leproso”, “Elogio do irmão fogo”, “Onde está a perfeita alegria”, “Muitos são os caminhos do Senhor” são alguns dos títulos dos episódios.

Poesia e fábula, narrativa e fé entretecem-se neste filme. Francisco contado por Rossellini pode ser considerado ainda hoje uma obra-prima de simplicidade, humana e concreta, talvez por ter sido gravado com verdadeiros frades franciscanos e atores não profissionais. O neorrealismo do cineasta italiano não podia desmentir-se. Estes quadros vivos, assim os podemos definir, não têm um estilo linear: o andamento é oscilante, quase brusco e não-homogéneo, mas talvez seja esta juntura tão particular que torne o filme uma obra de fascínio eterno.

«Através desta obra o realizador aprofundou o sentido sério e religioso da vida que está nos seus filmes, convidando-nos a descobrir o divino que está no ser humano e que pode revelar-se na pequena ação», escreveu um dos maiores críticos cinematográficos do tempo. Este é o segredo do filme. E foi o que o próprio S. Francisco nos ensinou.

Original: San Francesco | Trad.: Rui Jorge Martins