Giuseppe Migliavacca nasceu em Trigolo, em 13 de junho de 1849. Entrou no seminário de Cremona e ordenado presbítero em 1874. Em 1888 foi admitido aos últimos votos na Companhia de Jesus, da qual foi depois forçado a sair.

O Arcebispo de Turim confiou-lhe a formação de algumas mulheres dedicadas ao tratamento dos órfãos, tornando-se assim o fundador das Irmãs de Maria Santíssima Consoladora.

Dez anos depois, em virtude de falsas acusações, foi afastado da Congregação e em 1900, seguindo as instruções do beato cardeal Andrea Carlo Ferrari, entrou na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, no convento de Lovere, para o ano do noviciado, tomando o nome de Fr. Arsénio de Trigolo.

Exerceu o seu ministério em Bergamo, onde morreu em 10 de dezembro de 1909.

 

Oração

Ó Deus, que destes ao bem-aventurado Arsénio, sacerdote, a graça de seguir Cristo pobre e humilde, concedei-nos também a nós que, exercitando as obras de misericórdia, vivamos com fidelidade a nossa vocação e com a vossa ajuda superemos todas as adversidades. Por Nosso Senhor.

 

A humildade é verdade, é justiça

Das «Cartas» do beato Arsénio, sacerdote,
(21 de abril de 1903: Arquivo Provincial dos Capuchinhos Lombardos [APCL, P 391/26/33])

A humildade é verdade. Com a humildade se separa o precioso do vil: dá a Deus o que é de Deus, dá a nós que é nosso. É justiça reconhecer que tudo o que temos de bem e bom vem de Deus, porque tudo é Seu, e apoderarmo-nos disso como sendo nosso é um roubo de honra e glória ao próprio Deus e, portanto, grande pecado é a soberba que faz seu aquilo que é de Deus, e, por isso, porque são culpados de pecado gravíssimo, os soberbos não podem entrar no Paraíso.

Qualquer um que queira raciocinar retamente e fazer contas certas e claras do que é realmente dele e do que é absolutamente de Deus, vai chegar à conclusão que de seu não terá nada, mas que tudo recebeu de Deus – corpo e alma com os seus poderes, faculdades e dons – tudo é de Deus. A humildade é a coisa mais justa, a mais evidente, mas que coisa é essa, então, que não não se pratica? A causa disso é o grande desejo, a mania que temos de granjear, de aparecer, o desejo de ser tratado por excelência; eis aqui a origem dos nossos males, e é isso que arruinou Lúcifer com todos os seus anjos.

A essa grandeza, à qual nos sentimos arrastados, sim chegaremos lá, mas por outros caminhos, e não agora; pelo caminho da humildade e na outra vida. Somos feitos para Deus, para estar com Ele eternamente felizes. Oh, como vivemos nós enganados aqui na terra procurando cá em baixo honras, riquezas, prazeres, coisas que não são senão sombras daquelas que o nosso coração realmente anseia e deseja, e no entanto quem se perde nelas e delas se alimenta perde irreparavelmente as verdadeiras, as eternas. E porquê isso? Porque não se pensa verdadeiramente nisso, não se medita nas verdades eternas, nas verdades do Evangelho.

A experiência no-lo mostra continuamente: por muito que alguém seja rico, poderoso, honrado, nunca se acha rico o suficiente, nem suficientemente honrado, nem suficientemente poderoso, porque o que ele possui é finito ou imperfeito e o seu coração é feito para o infinito e para a perfeição. Ouvi, portanto, a conclusão de Salomão que, depois de ter provado e possuído o que era possível alguém possuir e gozar, disse que tudo era vazio, vaidade, que não o preenchia nem o satisfazia, porque não somos feitos para estas pequenas grandezas, nem para os gostos terrenos, mas para as coisas grandes do céu. Mas não podemos alcançá-las, senão através da justiça, ou seja, da humildade, devendo dar a Deus o que é de Deus. Somente para Deus a honra e glória, honra e glória que Lhe prestamos servindo-O em tudo que é do seu agrado, e então reinaremos com Ele por toda a eternidade: servir Deus é reinar.

 

A severidade inaciana e a simplicidade franciscana

Sobre o Beato Arsénio de Trigolo, Fundador das Irmãs de Maria Santíssima Consoladora

(Carta Prot. nº 00694/17, Frei Mauro Jöhri, Ministro Geral OFMCap)

Num primeiro e rápido olhar, o percurso da vida de Fr. Arsénio de Trigolo, da Província de São Carlos da Lombardia, dá a impressão de que ele é alguém sempre em mudança, quase como algo instável. De facto, de sacerdote diocesano, passou a jesuíta e, depois, capuchinho. A sua espiritualidade é a do século XIX, mas atenção para não nos determos em aspetos exteriores, na superfície. É indispensável ir em busca do homem que está por detrás. Neste caso, encontraremos um homem que procura Deus sobre todas as coisas, que quer fazer unicamente a sua vontade. As vicissitudes de sua vida são realmente inúmeras, as mais variadas, contraditórias, e, ainda assim, é verdade também que jamais perdeu a bússola: “Seja feita a vossa vontade!”.

A vida do Bem-aventurado Arsénio encontra a sua síntese naquela reflexão que ele mesmo escrevia profeticamente em suas Anotações espirituais: “Arsénio, não deves contentar-te em ter abandonado o mundo, posses, parentes (...), deves separar-te de tudo isso também com o coração, com o afeto, pois, caso contrário, a que serve? A nada: para parecer religioso aos olhares do mundo e, na realidade, não o ser junto a Deus”. É a tensão que o acompanhou por toda a vida na busca para ser perfeito “como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48).

A sua vivência tão movimentada, com contínuas mudanças também de estados de vida, pode ser interpretada como sintoma de uma personalidade fraca, de alguém que está descontente ou de um sonhador continuamente irrequieto e em busca de uma solidez jamais encontrada. Lendo a sua vida com atenção, contudo, descobre-se uma personalidade que soube acolher a contínua desestabilização que Deus realizava para guiá-lo à perfeição. Mudar estado de vida deixando os afetos e as relações tão arduamente construídos, abandonando os lugares e as certezas encontradas com tenacidade, evidenciam o seu ser continuamente disponível não apenas em buscar a vontade de Deus, mas a deixar-se plasmar e trabalhar por Deus, aceitando as fadigas das circunstâncias concretas, sem jamais perder a coragem, melhor, rendendo-se à vontade de Deus.

Revisitemos a sua vida. O Bem-aventurado Arsénio nasceu em Trigolo, próximo de Cremona, em 13 de junho de 1849, quinto de doze filhos. Foi batizado seis dias depois com o nome de Giuseppe, na igreja de São Bento em Trigolo. Os pais, Glicerio Migliavacca e Annunciata Stumia, fiéis sinceros, eram proprietários de uma pousada e de um comércio de pães, com os quais podiam sustentar a numerosa família. Ainda criança, desejoso de servir ao Senhor no caminho do ministério ordenado, entrou no seminário de Cremona, cumprindo o itinerário formativo de 1863 a 1873, naquele clima cultural e político condicionado pelas relações pouco felizes entre o Reino da Itália e o Estado Pontifício.

A opção de Giuseppe, aos catorze anos, de ser sacerdote, não foi certamente uma escolha de comodidade ou de estabilização da própria vida, foi uma escolha corajosa, madura, decidida, de alguém que não tem medo do ambiente cultural e social que o circundava.

A aspiração do jovem Giuseppe era clara e forte: ser um sacerdote santo! Assim escreve nas Anotações Espirituais: “Oh, quanto maior bem se faria ao povo se o sacerdote fosse mais perfeito: a ciência é boa, é muito necessária, sem a qual não pode ser ordenado sacerdote, mas esta, separada da verdadeira piedade, da perfeição, incha o espírito e se eleva em soberba. A verdadeira piedade nos faz conhecer o nosso nada, a nossa miséria, e que tudo temos de Deus e, portanto, tudo a ele remetemos. Sem a verdadeira piedade, frequentemente se torna de empecilho a Deus”.

Não era, contudo, um sonhador, conhecia os seus limites e, portanto, sabia bem da necessidade urgente e contínua da graça de Deus para sustentar a sua determinação em seguir Jesus, e de ser sacerdote para Jesus e em Jesus.

Piedade, estudo, graça, humildade, eram os seus baluartes para ser um santo sacerdote: Piedade e estudo não podem estar desligados, “pois uma é a alma da outra”; Graça e humildade não podem estar desligadas, “pois uma é a alma da outra”. Um sacerdote como tantos, podemos dizer com tantos dotes “normais”, mas justamente esta caraterística, o ser normal, possui o raro dom da fidelidade operante e humilde do próprio ministério. Ao melhor das suas possibilidades, o Bem-aventurado Arsénio comunicou nada mais do que a graça de Deus, o seu Amor sem esconder o Evangelho e, sobretudo, sem recorrer ao consenso do mundo e esconder o mistério insensato e escandaloso da Cruz.

Em 21 de março de 1874, recebeu a ordenação sacerdotal, e foi enviado como coadjutor do pároco em Paderno di Ossolaro (hoje Paderno Ponchielli) e, em seguida, a Cassano d’Adda. Nesta última localidade, provavelmente encontra pela primeira vez a jovem Giuseppina (Pasqualina) Fumagalli, ex-religiosa da Congregação francesa de Notre Dame du Bon Secours, que, mais tarde, causará muitos problemas.

O Bem-aventurado Arsénio vive o seu sacerdócio consciente de ter sido chamado por graça, somente por graça, dedicando-se totalmente no amor de Deus, dando espessura ao seu celebrar os mistérios da salvação e, ao mesmo tempo, não deixando faltar o amor ao próximo, a caridade fraterna. Uma escolha, como a de ser sacerdote, que parecia estar bem enraizada e sinceramente vivida com afinco, contudo, escreve nas Anotações Espirituais, “há vários anos” sentia o desejo de uma consagração religiosa, em uma oferta que pudesse ser um dedicar-se completamente a Deus.

Com coragem, apesar de encontrar nos ministérios apostólicos um forte atrativo que extraordinariamente o preenchiam e muito estimava, decidiu entrar na Companhia de Jesus. Era o dia 14 de dezembro de 1875.

Não desejando outra coisa senão fazer a vontade de Deus, emitiu a primeira profissão religiosa em 1877, com a idade de 28 anos. Um pouco antes, tinha escrito: “apesar de qualquer coisa que me acontecesse, tomá-la-ei por vossa vontade e, por isso, não me agitarei” (Incipit dos Exercícios Espirituais, 20 de março de 1876)

O empenho escolar pareceu-lhe muito pesado, a ponto de ter que suspender os estudos. Transferido como Prefeito no Colégio de Cremona em 1879, levou a termo a filosofia e, sucessivamente, em 1884, em Porto Ré, na Ístria, retomou o estudo da teologia, mas com resultados escassos. Passado o ano de prova em Lainz, próximo de Viena, em 15 de agosto de 1888 em Veneza, emitia a Profissão solene como “coadjutor espiritual formado”. Estimado por todos, continua o seu ministério como pregador, confessor, diretor de exercícios espirituais, sobretudo para as comunidades religiosas femininas, e de catequese aos jovens.

Em Veneza, nos anos entre 1888 e 1890, reencontra Pasqualina Giuseppina Fumagalli, então demitida das Irmãs de Notre Dame du Bon Secours, que continuava, contudo, a vestir-se como religiosa. Também tinha iniciado um Instituto religioso, chamado “da Consoladora”, sem obter a permissão dos respetivos Bispos, e reunira ao seu redor certas moças, algumas das quais encaminhadas pelo próprio Bem-aventurado Arsénio. É esta complexa relação com Fumagalli, julgada negativamente pelos Superiores da Companhia de Jesus, que levará à decisão de transferi-lo primeiramente a Trento, em seguida a Piacenza e, enfim, de pedir-lhe para deixar a Companhia. Em 24 de março de 1892, após uma breve tentativa de resistência, foi-lhe imposto de se demitir.

São os anos da maior desestabilização. Só, sem nada, com um fracasso e um juízo não certamente louvável às costas, quem não se teria fechado, isolado, amargurado, tornando-se um contestador vazio?

E, mesmo assim, em 25 de abril de 1892, chegava a Turim, disponível uma vez mais para fazer a vontade de Deus, que passava através de circunstâncias também dolorosas e decisões impostas por outros. Apresentado ao Arcebispo Davide dei Conti Riccardi, assume de facto a direção espiritual do novo Pio Instituto de Maria Consoladora, formado por um grupo de religiosas que se tinha afastado de Fumagalli. Aos quarenta e dois anos, encaminha-se por uma nova estrada, quando talvez fosse o tempo da colheita das fadigas juvenis e das alegrias da idade madura. Assim, por dez anos (1892-1902), dá forma, norma e guia ao novo Instituto presente em Turim e, sucessivamente, também em Milão, escrevendo-lhe a Regra e as Constituições.

Tudo parece navegar rumo a um porto seguro, mas, no primeiro Capítulo Geral, realizado em 1899, começou a surgir o conflito entre as religiosas de Milão e as de Turim, desavenças que levaram o Arcebispo de Milão, o Bem-aventurado André Carlos Ferrari, a renovar todos os encargos e a pedir ao Bem-aventurado Arsénio para deixar a direção do Instituto. Uma vez mais é desestabilizado, uma vez mais a vontade de Deus se manifesta através de uma rutura dolorosa.

Assim, com a idade de cinquenta e três anos, após ter obtido o voto favorável dos vários Superiores, em 21 de junho de 1902 o Bem-aventurado Arsénio iniciava um novo estilo de vida, entrando no noviciado dos Frades Menores Capuchinhos em Lovere. O novo estado de vida, exigente, também lhe dava um novo nome: Frei Arsénio de Trigolo. Mesmo já idoso, o Bem-aventurado Arsénio escolheu coisas difíceis. A mudança do nome era a coisa mais simples, que mais profundamente colocava em prática o que tantas vezes tinha dito às religiosas: pedi ao Senhor a cada dia “o amor operoso, que é a verdadeira caridade em factos e obras” (Cf. Pregações para as Missões ao povo).

Emitidos os votos temporários, foi enviado a Bérgamo para guiar espiritualmente os jovens estudantes capuchinhos. Aqui, excetuado um breve período de ulterior afastamento, transcorreu os últimos anos no ministério pastoral e assistindo a Ordem Terceira.

Em 1909, começou a manifestar os problemas de saúde. Transferido do convento à enfermaria, na noite de 10 de dezembro de 1909 morreu por aneurisma cardíaco. O seu funeral, celebrado na simplicidade franciscana, viu uma imponente participação do povo, que testemunhou o bem por ele semeado.

A oração diária, a Eucaristia celebrada, o fazer a caridade concreta aos tantos necessitados, tinham realizado nele aquela transformação que acontece em quem põe toda a sua confiança em Deus e na sua Palavra viva: envolver no silêncio, no retiro e no perdão, sem jamais deixar escapar nada de si, seja o mal recebido, como o bem realizado, e deixar ao “Senhor que vê no segredo” a recompensa.

O Bem-aventurado Arsénio, na sua marca de jesuíta e de capuchinho, evidencia alguns elementos típicos de uma e outra espiritualidade. Ser inspirado pelo desejo de fazer tudo para a maior glória de Deus é o coração do ensinamento de Santo Inácio; por sua vez, a perfeita alegria em levar as tribulações, as injúrias, as maledicências, sempre agradecendo a Deus, aprendeu-o de Francisco de Assis.

 

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