O Frei Luís Gonçalves celebra as suas bodas de ouro sacerdotais neste dia 28 de março de 2021. A Comissão de Comunicações Sociais dos Capuchinhos (CCS) pediu-lhe que nos falasse um pouco da sua caminhada vocacional, desde a sua entrada no Seminário até aos dias de hoje.

«Nasci em Serafão, concelho de Fafe e distrito de Braga no dia 10 de Setembro de 1944. Foi no ambiente familiar que a minha fé se foi solidificando e esclarecendo.

Frequentei a Catequese e conservo muito boas recordações da minha catequista. O mesmo posso dizer da minha professora primária, Emiliana Ferraz, que sempre me estimulou ao longo da minha caminhada vocacional.

Fiz o exame da quarta classe em Junho de 1957. Nesse ano, o frei Vitor Arantes, foi à minha escola, falou comigo e desempenhou um papel fundamental na minha ida para o Seminário de Vila Nova de Poiares.

Entrei no Seminário no 5 de Outubro de 1957. Era diretor do mesmo o Frei Boaventura da Torre, que a todos nos acolheu com muita hospitalidade.

Em 1958 fui para o Seminário de Gondomar, onde estive até à entrada no Noviciado. Ainda me recordo com saudade do Padre Fulgêncio, que nos levou a Barcelos. Ao entrar no convento disse-me: «ó rapaz, entra com o pé direito…»

O nosso Mestre foi o Padre Anselmo de Moena, figura inesquecível, que muito contribuiu para que eu não me fosse embora. Foi ele que me ajudou a alicerçar a minha vocação Capuchinha. Que saudades, Padre Anselmo!

Fizemos a Profissão Religiosa no dia 15 de Agosto de 1964. Depois fomos para Totana, cidade da Província de Valência, onde estava o Convento dos Capuchinhos, onde se lecionava a Filosofia.

Foram dois anos cheios de peripécias, de altos e baixos, mas a estrela de S. Francisco nunca deixou de brilhar no meu coração.

Em 1966 ingressamos no Convento do Porto (Amial), onde completamos a Filosofia e a Teologia. Aí, há que destacar a figura do Frei Manuel Arantes, nosso diretor, que muito me ajudou no discernimento vocacional.

No dia 14 de Dezembro de 1968, fiz a Profissão Perpétua. Na altura chamava-se Profissão Solene.

E a ordenação sacerdotal aconteceu no dia 28 de Março na Sé Catedral do Porto. Foi bispo ordenante, D. António Ferreira Gomes.

Desde a entrada no Seminário até à ordenação sacerdotal, houve várias figuras que me marcaram substancialmente. Além das já mencionadas, queria recordar o Frei Manuel Gameiro, que um dia, em Gondomar, quando me atendeu de Confissão me deu este concelho: «reza todos os dias três Ave-Marias a Nossa Senhora, que Ela concede-te a graça da perseverança.» Eu cumpri e Nossa Senhora também cumpriu.

Também não posso deixar de recordar o D. António Monteiro (na altura chamava-se Padre Rafael de Serafão), que nas passagens pela minha aldeia, quando eu era criança, me marcou com o seu testemunho, sobretudo quando visitava a casa dos meus pais.

Nestes 50 anos de sacerdote, muitas coisas belas teria para contar.

Agradeço ao Senhor o ter-me dado o gosto pelo anúncio a Palavra de Deus. Foi ao serviço da Palavra de Deus que me desloquei várias vezes ao Canadá e aos Estados Unidos para pregar e orientar Cursos de Dinamização Bíblica. Aí pude conviver com a fé simples dos nossos emigrantes, sobretudo dos açorianos.

Também foi ao serviço da Palavra de Deus que visitei vários países da Europa, especialmente a França e a Suíça. Também nestes países verifiquei a fome da Palavra de Deus sentida pelos nossos emigrantes.

Uma vez fui a uma terra da diocese de Vila Real orientar um Curso Bíblico. Havia nesse curso uma senhora analfabeta. No ano seguinte voltei lá e ela já sabia ler. Aprendeu de propósito para puder ler a Bíblia.

Não posso deixar de mencionar as SEMANAS BÍBLICAS DE BARCELOS. Foram 30 semanas e todas elas muito participadas por pessoas de vários arciprestados.

Não posso esquecer o meu amigo António Ricardo Moreira, um leigo empenhado, que muito me ajudou. Juntos percorremos muitos milhares de quilómetros a anuncia a Palavra do Senhor.

Também alguns irmãos Capuchinhos me ajudaram. Recordo, por exemplo, o Frei Américo Santos Costa, e aquela descida de Paços de Ferreira para o Porto, quase à meia noite, em que ele me explicava o sentido da palavra ENTUSIASMO. E aquela peripécia em Vila do Conde, onde um casal de testemunhas de Jeová nos tentou boicotar o Curso Bíblico… Também o jovem Frei Ricardo Pinto me acompanhou algumas vezes, sempre com alegria e entusiasmo.

Em Portugal, posso dizer que preguei ou orientei Cursos bíblicos, em todas as dioceses. Tive a alegria de pregar para grandes multidões, como foi o caso da Mãe Soberana em Loulé, das festas de Nossa Senhora do Porto de Ave ou de Santa Maria de Távora em Arcos de Valdevez. Preguei a novena da Senhora da Conceição em Vila Viçosa e na Sé catedral de Évora. Que belas recordações das gentes do Alentejo.

Durante a Quaresma tive a alegria de pregar os Sermões do Senhor dos Passos, com destaque para o Sermão do Encontro em dezenas de paróquias. Também nesta atividade senti sempre o aconchego de grandes multidões.

Tive a honra de ser escolhido, no Ano da Misericórdia, para missionário. Foi linda a experiência vivida em Roma naqueles dias inesquecíveis.

E foi, exatamente, ao serviço do atendimento de penitentes no Sacramento da Reconciliação, que tive alegrias maravilhosas. Tantos penitentes me disseram: «obrigado, senhor padre, pela paz que me deu.»

Também não posso esquecer o apostolado dos doentes. Fui capelão do IPO do Porto durante 9 anos. Tantas lições aprendi naquela casa. Tantos testemunhos maravilhosos no contacto com os doentes. Recordo, por exemplo, uma sexta feira santa em que uma doente deu à luz uma criança por volta das 3 horas da tarde. Pouco depois administrei -lhe o batismo e mãe e filho partiram para a Casa do Pai.

Não posso esquecer, também, os 15 anos em que fui capelão do Hospital de Barcelos. Um dia, a esposa de um doente, quase moribundo, pediu-me para lhe dar a Santa Unção. Assim fiz e juntamente com ela rezamos por aquele homem. Pouco a pouco ele foi melhorando e passados 15 dias teve alta. Quando me encontrava na rua dizia-me: «senhor padre, eu sou aquele doente que ressuscitou…»

Posso dizer com verdade, que ao longo de todos estes anos sempre me senti realizado e feliz. O que agradeço também a todos os meus irmãos Capuchinhos.

Em toda esta caminhada, recordo com saudade os meus pais. O meu pai faleceu estava eu no noviciado. A minha mãe viveu até aos 94 anos. Recordo com emoção as últimas palavras que ela me disse antes de partir para a Casa do Pai, quando lhe administrei a Santa Unção: «meu filho, agora até ao Céu.» A minha irmã, Maria Alice, foi uma santa que o Senhor colocou no meu caminho. Uma vez, andava eu no 4.º ano, fui com ela a pé ao Santuário da Senhora do Sameiro. Foi uma promessa que ela fez pela minha perseverança vocacional.

Não posso esquecer as horas lindas que passei durante muitos anos, nas férias, com o D. António Monteiro, o Frei Joaquim Monteiro, o Frei Avelino de Amarante e a Maria Ana. Belas recordações das termas de Vidago e das Caldas de Saúde em Santo Tirso.

Mas, a página mais dolorosa, foi possivelmente, os 15 dias que passei no Hospital Militar das Forças Armadas no Porto infetado com a Covid 19. Quando lá dei entrada, cheguei a pensar que nunca mais veria os meus irmãos. Mas o Senhor, na sua infinita misericórdia, quis que eu voltasse para a Fraternidade de Barcelos. Durante o internamento, foram muitos os irmãos que me confortaram e animaram com mensagens telefónicas. Não posso deixar de mencionar o Frei Acílio e o Frei Manuel Pires Ferreira, que no dia da solenidade de Nossa Senhora da Conceição me disse: «A Senhora da Conceição, em honra de quem pregaste tantas vezes, vai permitir que voltes curado para casa.» e cumpriu-se a profecia. Louvado seja o Senhor.

Também o Frei José António da Fonseca Santos, vigário da Fraternidade, me deu todo o seu apoio.

Ao celebrar as Bodas de Ouro sacerdotais, quero agradecer ao Senhor o ter estado sempre comigo, o nunca me deixar perder a bússola do caminho que um dia iniciei em Vila Nova de Poiares. Quero agradecer-Lhe todos os anjos da guarda que foi colocando no meu caminho, todos foram sinais da sua presença misericordiosa.

E quero, ao mesmo tempo, pedir perdão aos meus irmãos pelas minhas faltas de caridade ou pelos maus exemplos que possa ter dado. Sei que nem sempre fui luz. Pelas trevas que possa ter espalhado peço ao Senhor e aos irmãos o seu perdão e a sua paz.

Confio no Senhor, rico em misericórdia, que me ajudará a chegar ao Porto da Salvação.

Que tudo isto seja para maior glória de Deus.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo dom da Vida Consagrada e da Vocação sacerdotal.

Louvado sejas, ó meu Senhor, por teres dado S. Francisco de Assis à Igreja!

Louvado sejas, ó meu Senhor pela Ordem dos Franciscanos Capuchinhos, na qual cresci e dentro da qual quero morrer

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Mãe Maria Santíssima.