O Frei João Santos Costa celebra as suas bodas de ouro sacerdotais neste dia 28 de março de 2021. A Comissão de Comunicações Sociais dos Capuchinhos (CCS) pediu-lhe que nos falasse um pouco da sua caminhada vocacional, desde a sua entrada no Seminário até aos dias de hoje.

«Nasci em Serafão, concelho de Fafe, em 1947, de família pobre mas não miserável. Meu pai, Domingos da Costa era carpinteiro e minha mãe, Maria dos Santos, além dos afazeres da casa e da horta, trabalhava de costureira. Seríamos 10 irmãos se todos tivessem sobrevivido. Atualmente estamos 5 vivos. Eu sou o mais velho, o patriarca da família.

Aos quatro/cinco anos assisti à Missa Nova do Frei Rafael de Serafão na minha terra. Foi em 1951. Ao passar pelo meu lugar da Chã, deu-me um ‘santinho’ a cores, com a figura do Bom Pastor, que a minha tia Maria guardou até que eu o descobri, cinquenta anos depois, e o ofereci ao senhor D. António Monteiro (Frei Rafael) nos seus 50 anos de sacerdócio. Pois a partir dessa Missa Nova que comecei a dizer que queria ser fradinho, só não queria ter barba grande.

Quando andava na quarta classe foi à escola da minha terra o Frei Vítor de Oleiros, acompanhado do Herculano Alves e do Luís Gonçalves que já andavam no Seminário em Poiares. Estando todos os rapazes em círculo no recreio o Frei Vítor perguntou quem queria ir para o seminário do Capuchinhos. Eu e outro rapaz levantámos a mão. Nesse mesmo dia foram comigo e falaram com a minha mãe e ficou resolvido que iria para Gondomar. Tão simples como isso. Deu-nos um folheto com a lista do enxoval a levar que devia ser marcado com o número 23.

No dia 15 de outubro de 1958, levados pelo pai do Luís Gonçalves, o senhor Remígio, ele e eu demos entrada no Seminário de Gondomar.

Aconteceu que, nesse mesmo ano, foi eleito papa o cardeal Roncalli com o nome de João XXIII.
Como me chamava João e tinha o número 23 fiquei a ser chamado de “João 23”.

No seminário sempre tirei notas baixas, mas lá fui passando de ano. Parece que só era bom a desenho e, no último ano, a comportamento. E cheguei ao Noviciado, em Barcelos, onde encontrei um bom mestre, o Frei Anselmo de Moena. Mesmo com o rigor próprio desse período formativo, foi o ano mais feliz da minha vida ou mais inocente. Só tinha 16/17 anos.

Professámos 8 noviços em 15 de agosto de 1964. Frei Francisco da Mata Mourisca, Comissário Provincial, presidiu à Missa Festiva e, na homilia, disse que nós éramos as ‘8 bem-aventuranças’ e a mim calhou-me, pela posição em que estávamos frente ao altar na igreja de Santo António, a bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Essa bem-aventurança marcou-me muito na minha ação fraterna e pastoral.

Feitos dois anos de Filosofia em Totana, Espanha, fomos para o Amial, inaugurar um convento acabadinho de fazer. Estávamos em 1966. Aí começámos a ter as aulas de Filosofia e Teologia.
Acaba o Concílio Vaticano II e a Vida Religiosa entra em ebulição com os ventos da mudança. Começámos a poder sair sem hábito. Contratou-se à pressa um alfaiate para fazer fatos para todos os frades “estudantes”. Alguns fatos deixavam muito a desejar ou os nossos corpos não estavam preparados para uma nova elegância.

Um ano depois já vinham às nossas aulas alunos beneditinos, combonianos e um redentorista. Foi a partir dessa experiência que os superiores das Ordens e Congregações pensaram no instituto superior de estudos eclesiásticos, que começou a funcionar na Torre da Marca, no Porto. Eu como já estava no segundo ano de teologia já só tive três anos de Teologia no ISEE, sendo que, no último, o segundo semestre era de Pastoral.

Foi no início desse semestre, a 28 de Março de 1971, que eu e o Frei Luís Gonçalves fomos ordenados presbíteros na Sé do Porto, por D. António Ferreira Gomes. Nesse mesmo dia celebrámos a Missa Nova na nossa igreja do Amial, às 19 horas. Com a presença de muitos irmãos capuchinhos e das nossas famílias foi uma festa memorável.

No verão foi a Missa Nova em Serafão na capela de Santo António. Tudo enfeitado com arcos e tapete de flores. Muitos irmãos capuchinhos estiveram presentes, desde o Frei Damião de Ódena ao Frei Alcindo Costa, já debilitado pela doença dos pezinhos, mas que não se deixava derrotar.

A partir daí, a vida, fraterna, afetiva, pastoral, foi-me pregando as suas partidas. Ainda em formação foram-me pedindo cargos e encargos para os quais não estaria preparado, mas fui fazendo da melhor maneira que sabia e podia. Desde vice-mestre de Noviços, a “diretor dos estudantes” no Amial, a professor de Moral na escola António Nobre do Porto, a guardião de quase todas as nossas casas, a capelão dum bairro de periferia em Lisboa, a Boavista, a pároco no Amial e no Calhariz de Benfica e até mestre de Noviços.

Embora com muitos problemas de saúde, em 1996, celebrei as bodas de prata sacerdotais na minha terra, na mesma capela da Missa Nova. Foi a 18 de Agosto. Também muitos irmãos capuchinhos e até o bispo D. António Monteiro me acompanharam nesse dia. Só tenho que agradecer tanta solicitude da parte dos irmãos.

Agora, não por problemas morais, mas de saúde, graças a Deus e aos irmãos, estou no descanso da Casa de Barcelos. Aqui, com os frades vou rezando, fazendo fraternidade e alguma pastoral com este bom povo.

Bendigamos o Senhor!»