Rabisco estas linhas em dia do Santo Cura d’Ars, o «rude camponês», incapaz dos estudos filosóficos e teológicos para o Sacerdócio – segundo a sentença dos seus Superiores. Mas há sempre quem veja mais longe e, para além das aparências: e descubra neste «rude camponês» os dons do Espírito Santo, como a obediência, a humildade, a oração… Concedem-lhe a ordenação sacerdotal, mas com a humilhante proibição de confessar, pela sua incapacidade de orientar espiritualmente as pessoas. É enviado para uma pequenina paróquia, com apenas 230 habitantes; a igreja paroquial sempre vazia. As tabernas sempre a transbordar. Gente violenta... O Padre João Maria conhece a chave do segredo: do sacrário para o confessionário e do confessionário para o sacrário. Em pouco tempo a «transfiguração» acontece: de todo o lado vêm fiéis para serem acolhidos pelo Santo Cura d’Ars. É canonizado e proclamado pela Igreja como o Padroeiro dos Párocos. Ars continua a ser hoje um lugar de constantes peregrinações. Que aconteceu? A transfiguração de um «rude camponês» no rosto amoroso da Misericórdia de Cristo.

Sigo o Evangelho do dia (Lc 9, 28b-36), destacando apenas alguns aspetos.

 

«Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar.»

Em todas as grandes religiões o «monte» é sempre uma referência à vida superior da pessoa. É um convite a tomar consciência de que a vida da pessoa não é ave de capoeira a catar minhocas, mas águia que voa livremente pelos espaços celestes. A própria Bíblia nos fala de vários montes sagrados, onde Deus marca encontro com Deus. Cito apenas o monte Sinai onde Moisés, em nome do Povo de Israel, acolhe a Aliança, e as Bodas de Javé com o Seu Povo, que é transfigurado em povo santo, povo sacerdotal, povo eleito, povo do Senhor. Lembremos o Monte das Bem-aventuranças, onde é proclamada a profunda transformação do mundo: Felizes são os pobres, cuja riqueza é o Senhor e o seu Reino. Felizes são os que, por caminhos difíceis, se tornam artífices da paz e da concórdia. Felizes são os perseguidos por causa da sua Fé em Cristo, porque com Cristo serão glorificados. O Monte mais sagrado para os cristãos é o Monte Calvário: ali foi vencida a morte, e o desespero foi transfigurado em festa e júbilo e alegria. Porque Cristo vive e caminha connosco nas horas felizes e nas horas difíceis da nossa vida. A luz transfigurou a noite no dia mais radioso da História.

 

«Enquanto [Jesus] orava, alterou-se o aspeto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente.»

São Lucas é o Evangelista da Oração. Todas as maravilhas que Jesus realiza acontecem em contexto de oração. Ou seja, a intimidade com o Abbá querido é uma energia que transforma os escravos em filhos muito queridos, os prisioneiros em arautos da Liberdade, os pecadores em filhos cobertos de beijos e carícias por parte do Pai de Jesus…

 

«Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui!»

Pedro, Tiago e João, por uns momentos, experimentaram um pouco de Céu, destino final de todos nós. Um mimo de Jesus para que, dias mais tarde, não se escandalizem ao verem Jesus a suar grossas gotas de sangue na sua agonia, ser entregue por Judas – um dos Doze –, ser escarnecido, insultado, ser crucificado – o suplício romano reservado aos piores malfeitores da humanidade. Se, ao participarmos da Eucaristia, não formos capazes de exclamar, como Pedro: «Mestre, como é bom estarmos aqui!», jamais teremos força para enfrentar o mundo com seu cortejo de tragédias e doenças, como a pandemia, a solidão de tantos doentes e idosos, a fome de milhões de crianças… E, como Jesus, ver estas situações, sentir o coração a desfazer-se dentro do peito e curá-los, com o poder do Espírito Santo. Para isso fomos ungidos no Batismo como sacerdotes, profetas e reis.

 

«Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».»

Jesus não está no mesmo plano de Moisés ou Elias, como pensava Pedro, ao pretender fazer uma tenda igualzinha para cada um dos três. Por isso, o Pai intervém: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». Queremos, de verdade, transformar a nossa vida e sermos agentes comprometidos na transformação/transfiguração do mundo? Passar de um mundo onde a corrupção impera, onde os pobres são cada mais pobres e os ricos cada vez mais ricos? O remédio está na ESCUTA de Jesus. Escutar Jesus nas páginas sagradas da Palavra de Deus, escutar Jesus no clamor dos pobres e oprimidos, escutar Jesus nos Sinais dos Tempos, escutar Jesus ajoelhado aos pés do Sacrário… Um Mundo outro é possível. Não podemos aceitar o perverso refrão que, nestes trágicos dias da Covid-19, se vai ouvindo e trauteando: «Vai acabar tudo bem.»

Concluo com uma nota de rodapé. Para mim, pensar na Transfiguração do Senhor é pensar na transfiguração do meu querido irmão frei Mário Rito Dias: Com o coração em Angola, onde ele se entregou até à exaustão, teve de regressar a Portugal. Viveu os últimos tempos em Barcelos, estimulando em todos a dimensão missionária. No dia 6 de Agosto de 2005 - festa da Transfiguração do Senhor - o frei Mário foi celebrar a sua última Eucaristia, em Airó, à Comunidade das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora. Regressou a casa. Entrou em agonia. E aconteceu a sua Transfiguração, partindo para a Casa do Pai. Obrigado, frei Mário!

 

Texto escrito e originalmente publicado a 04/08/2020