Na Coleção “Evangelho da Vida” e no “Jardim Bíblico”, em Fátima, não se veem apenas presépios e árvores da Bíblia. Na Coleção, antes de se verem os primeiros presépios é narrada a História da Salvação desde a Criação até ao Nascimento de Jesus; e antes de se mostrarem os presépios dos vários continentes é anunciada a sua morte e ressurreição. E o coração ou núcleo central do Jardim Bíblico é o Cenáculo, junto do Jardim das Oliveiras, onde se evoca o tríduo pascal do Salvador do mundo.

 

O Mistério Pascal na Coleção “Evangelho da Vida”

Na Coleção, os presépios só aparecem na segunda secção do III Núcleo, sobre O CUMPRIMENTO da Promessa. E apenas são mostrados os de maior porte, portugueses e estrangeiros. A concluir, antes do IV Núcleo, um texto sintetisa a caminhada feita até esse momento na História da Salvação e no espaço museológico, preparando o visitante para os passos seguintes. Diz o texto:

 

A BOA-NOVA ACERCA DE JESUS

«A primeira Boa-Nova acerca de Jesus, transmitida pelos apóstolos, foi a da sua PAIXÃO, MORTE E RESSURREIÇÃO (At 2,36). Porque, se Jesus Cristo não tivesse ressuscitado, tudo o mais cairia pela base (ver 1 Cor 15,14).

Num segundo momento, os apóstolos e discípulos recolheram vários milagres e discursos da ATIVIDADE PÚBLICA de Jesus, para comprovar que Ele era o Messias e Salvador prometido e enviado por Deus a Israel.

mais tarde, por volta dos anos 80-90, é que os evangelistas Mateus e Lucas escreveram os EVANGELHOS DA INFÂNCIA. Com este objetivo: mostrar que Jesus, reconhecido e proclamado pelo Centurião romano como «Filho de Deus», por ocasião da sua morte no Calvário (Mt 27,54; Mc 16,39), já o era desde o primeiro momento da sua conceção no seio da virgem Maria de Nazaré (ver Lc 1,35; Mt 1,20).

É nestes Evangelhos da Infância que se encontram os dados bíblicos do Nascimento de Jesus, que servem de base às representações nos PRESÉPIOS.»

O IV Núcleo museológico – O ANÚNCIO – parte do mandato de Cristo aos apóstolos, segundo São Marcos 16,15: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura».

 

1. O primeiro apartado – O querigma inicial – vem explicitar qual foi a primeira Boa-Nova de que falava o texto-síntese no final do III Núcleo: o anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Com dois textos básicos, transcritos dos Atos dos Apóstolos:

«Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, homem acreditado por Deus junto de vós, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte… Foi este Jesus que Deus ressuscitou (…), e disto nós somos testemunhas. (…) Saiba toda a casa de Israel, com absoluta certeza, que Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado» (SÃO PEDRO, em Atos dos Apóstolos 2,22-24.32.36).

«E nós estamos aqui para vos anunciar a Boa-Nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no salmo segundo: “Tu és meu filho Eu gerei-te hoje!”» (SÃO PAULO, em Atos dos Apóstolos 13,32-33).

Dentro de uma vitrina fechada, são então apresentadas peças de arte e de artesanato nacional e estrangeiro, que visualizam o conteúdo do Mistério Pascal proclamado pelos apóstolos: imagens de Cristo crucificado e de Cristo ressuscitado; e outras em que a liberdade dos artistas junta o Senhor na cruz e o Menino no presépio.

 

2. Só depois veio o anúncio do mistério do seu Nascimento em carne humana, como Deus verdadeiro desde o princípio. Está no segundo apartado, onde se fala Do anúncio da Ressurreição ao do Natal, lendo-se à cabeça o texto da 1ª Carta de João 1,1-3:

«O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, – de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamos-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós – o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco.»

Este anúncio levou à inculturação da Mensagem, como quem diz: ao escutar o anúncio desse mistério, cada povo representou-o segundo a sua cultura e os seus costumes, incluindo a fisionomia, a paisagem e os animais do seu meio. É agora que, até final, se vê uma vasta seleção de presépios por Continentes e países em ordem alfabética: África, América, Ásia, Europa (com destaque para os portugueses, numa gruta central em favo) e Oceânia; e ainda o V Núcleo – São Francisco de Assis e o Presépio – e pratos de Natal com presépios pintados, de várias coleções.

Mas não sem antes se poder ler, na transição da Paixão para o Natal, o poema “Presépio”, de João Baptista Pinto Saraiva (Porto, 1866-1948), onde a paixão de Jesus é antevista por sua Mãe, no dia do Nascimento, quando à meia-noite ouve cantar o galo:

Numas palhinhas deitado,
abrindo os olhos à luz,
loiro, gordinho, rosado,
nasce o Menino Jesus.

Uma vaquinha bafeja
seu lindo corpo divino,
de mansinho, que a não veja
e não se assuste o Menino.

Meia-noite. Canta o galo.
Por essa Judeia além
dormem os que hão de matá-lo
quando for homem também.

E, pensativa, a Mãe Pura
ouve, fitando Jesus,
os rouxinóis na espessura
de um cedro que há de ser cruz!…

 

O Mistério Pascal no Jardim Bíblico

No Jardim Bíblico também se conta a História da Salvação através de árvores ligadas a acontecimentos e personagens, ou com especial força simbólica. E no coração dessa História está o Mistério Pascal de Jeus Cristo. É o que se evoca no CENÁCULO – lugar da instituição da Eucaristia, um espaço coberto e rico em simbolismo.

Trata-se de um anfiteatro em forma circular, o que por si já constitui um símbolo de comunhão e unidade, onde todos são irmãos, sem presidências nem precedências. É feito com muros de pedra local em degraus, para 100 pessoas sentadas, e espaço para outras tantas de pé, em redor. Os degraus estão divididos em 4 partes por uma cochia em forma de cruz, formando quatro fatias de um “pão partido”, nome que os primeiros cristãos davam à Eucaristia.

Ao centro, a mesa é feita com a mó de um lugar de azeite. Ora, “lagar de azeite” – Getsémani, em hebraico – é o nome do Jardim das Oliveiras; e esse jardim, para onde Jesus se dirigiu com os apóstolos após a Ceia, onde orou e foi preso, também se encontra aqui, ao lado do Cénáculo. Por sua vez, a mó simboliza os sofrimentos de Jesus na Paixão, torturado até à última gota de sangue, como a azeitona é esmagada até sair o azeite.

Inicialmente, em cada uma das quatro fatias, na parte posterior dos bancos era semeado trigo; e, na ramada à volta do anfiteatro, cresciam videiras, que davam intimidade ao espaço com a folhagem, formando as suas uvas, com o trigo, os símbolos da Eucaritia. Em 2012, ao ser coberto, perdeu-se esta riqueza simbólica. O espaço tem sido muito aproveitado para momentos de oração e celebração, retiros, vigílias e conferências.

Ao lado, como disse, há o JARDIM DAS OLIVEIRAS, com uma gruta simultaneamente dos Apóstolos e de Elias. Sob várias oliveiras há bancadas circulares que servem de apoio a encontros de grupos. Em encontros de reflexão, o tema é apresentado no Cenáculo ao grupo geral, este subdivide-se em grupos de diálogo pelas várias zonas de todo o Jardim e volta a encontrar-se no Cenáculo para plenário, podendo concluir com celebração.