No meio da conversa entre vizinhos, cada qual na sua varanda, da ginástica e da música ao fim do dia e do coro de palmas às 10 da noite, repete-se, dentro e fora de nós, o grito de Marta: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido» (Evangelho), o mundo não estaria a morrer com a Covid-19!

Eu não teria visto tantas pessoas sofrerem em Timor-Leste, não teria testemunhado os efeitos do tsunami em Sumatra, nem teria ouvido o testemunho de solidão de tantos idosos em Portugal…

[respira fundo para acalmar esse grito]

Na verdade, perceber que a missão de Jesus não é impedir a nossa morte, mas, antes, rasgar um caminho de Ressurreição sobre a morte, é um passo difícil de crescimento espiritual, mas necessário. Quem se recusa a dá-lo cai, inevitavelmente, no desespero ou na descrença.

Jesus chorou, comovido e perturbado, com a morte do seu amigo Lázaro. É Filho de Deus, mas sabe que a morte pertence à lei da vida, faz parte da condição humana a que Ele próprio não fugiu. Resta-lhe a dor, as lágrimas, a oração que aceita a morte, mas sobretudo a esperança da Ressurreição, que oferece a Lázaro, às suas irmãs, e a todos nós. Lembra-nos que a Ressurreição e a Cruz florida do Compasso são uma história que começa com lágrimas.

Deste modo, a Quaresma aponta já para o anúncio da Páscoa, e a quarentena move-nos ao empenho pelo bem comum e ao cuidado da vida.

Lázaro parece ter tido uma morte natural, que não se podia evitar, mas a morte de muitas pessoas pode e deve ser evitada, por exemplo, com melhores sistemas de saúde e maior justiça no seu acesso. Com a forma de amar e viver de Jesus, podemos impedir a morte, a dor, a injustiça, a fome e a solidão de milhares de pessoas, suscitando redes de solidariedade e comunhão.

A ressurreição de Lázaro, nesse sentido, separa o trigo do joio, os bons dos maus políticos, os bons dos maus líderes, os bons dos maus gestores, os bons dos maus pastores. Definitivamente “encosta à parede” Caifás e as suas gentes que, logo depois, procuraram dar a morte a Jesus.

Em Timor-Leste, ao ver crianças – sempre inocentes – doentes ou a morrer, eu e pessoas maravilhosas com quem tive a graça de poder viver e trabalhar, podíamos inundar as redes sociais com a nossa revolta, ou, como fizemos, reforçar o trabalho de educação para a saúde e abrir uma clínica para atender senhoras grávidas e crianças. Onde estava Deus? Agora parece-me bastante óbvio.

Ao ver crianças – de 4 e 5 anos de idade – que andavam descalças, de catana na mão, mas que nunca tinham pegado num lápis, nós abrimos um Jardim de Infância. Onde estava Deus? A ti não parece óbvio?

Ao ver pessoas portadoras de deficiência, sem apoio social e vítimas de discriminação, nós criamos um programa de acompanhamento em quatro distritos. Onde estava Deus? É mais fácil criticar e debitar sabedoria no Facebook do que fazer realmente alguma coisa, não é?

A sociedade civil e muitas igrejas estão a dar esse testemunho belo de cuidado da vida, de cuidar uns dos outros:

Uns fazem compras pelos vizinhos mais idosos, outros oferecem espetáculos musicais na internet. Uns recolhem donativos para comprar ventiladores, outros oferecem as suas casas para que profissionais de saúde possam descansar mais próximos do hospital onde trabalham. E muitas fábricas reorientaram a sua linha de produção para produzirem equipamentos individuais de proteção e gel desinfetante.

Também vários seminários e casas religiosas abriram portas para acolher profissionais de saúde. Alguns padres transmitem a Eucaristia nas redes sociais, outros fazem-se próximos das pessoas através do telemóvel, entre muitas outras iniciativas cheias de criatividade pastoral.

Mas sabemos que Caifás e as suas gentes, os que querem manter tudo como até aqui, continuam ativos na política, nas empresas, no comércio e em muitas paróquias e casas religiosas, ansiosos que isto passe, o consumismo desenfreado retome o seu curso e os campeonatos de futebol voltem a ocupar as nossas vigílias… até que alguma Marta tenha a coragem de chorar em público as suas dores e dar dois berros na direção certa!

 

Leituras:

1ª: Ez 37,12-14. Salmo 130/129,1-2.3-4ab.4c-6.7-8. R/ No Senhor está a misericórdia e abundante redenção. 2ª: Rm 8,8-11. Evº: Jo 11,1-45. I Semana do Saltério.

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.