Transfiguração – Teofania da divindade de Cristo e da Santíssima Trindade

Segundo os relatos neotestamentários (Mt 17,1-9; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36; e 2 Pe 1,16-19), as personagens deste ícone aparecem já no mosaico que ornamenta o quarto de esfera da abside da basílica justiniana do monte Sinai (ano 565-566), reproduzido na revista Bíblica, nº 375, p. 45/93.

O nosso ícone (cerca de 1403) é atribuído ao célebre iconógrafo bizantino, ativo na Rússia, Teófano ou Teófanes o Grego – Theophánēs, em grego; Feofán, em russo –,ou a um dos seus alunos. Esta pintura sobre madeira foi realizada para a catedral da Transfiguração do Nosso Salvador, em Pereslávlh-Zalésskiy (principado de Moscovo); trazida para Moscovo em 1923, encontra-se desde 1930 na Galeria do Estado Tretiakóv, em Moscovo (Rússia).

A composição é formada por três zonas horizontais de altura desigual. A mais alta é a superior, onde se representa Jesus transfigurado, ladeado por dois personagens ligeiramente inclinados para Ele: Moisés à sua esquerda e Elias à sua direita; os quais foram transportados por anjos sobre nuvens (segundo uma antiga tradição mantida sobretudo em ambiente eslavo), como se figura, nos cantos superiores, dentro de dois ‘quadrinhos’ redondos em forma precisamente de nuvem.

Jesus, ao centro da zona superior, todo Ele é luz (cf. Jo 1, 4), iluminando todo o ícone. Por trás dele, veem-se dois círculos luminosos sobrepostos, que representam os céus, o de fora semeado de pequenas estrelas. O interior do círculo mais pequeno é escuro, e representa a «luz inacessível», em que Deus habita (cf. prefácio da Oração Eucarística IV). Nos ícones russos desta época é habitual figurar um triângulo em forma de ponta lança, cuja base é substituída por outras três pontas do mesmo formato, simbolizando a Santíssima Trindade, dirigindo-se as três pontas da base em direção a cada um dos três apóstolos escolhidos.

No nosso ícone, aparece a duplicação deste género de triângulo (um para cima e outro para baixo), que se interpenetram, formando uma estrela de seis pontas (cf. Ap 22,16), tendo três pontas dirigidas para o alto, para os seres angélicos e celestes, e três pontas dirigidas para baixo, para o mundo e os seres terrestres; sobrepondo Jesus o losango central de interceção dos dois triângulos, significando as suas duas naturezas, divina e humana.

Moisés, à nossa direita, é figurado como jovem (cf. Dt 34, 7) e sustenta nas mãos o códice da Lei (Torah), cujas pontas inferiores se sobrepõem aos dois círculos luminosos. O círculo interior está descentrado em relação ao exterior, tendo o centro na mão esquerda de Jesus, a qual sustenta um rolo – Jesus vem dar pleno cumprimento à lei antiga, levando-a à perfeição (cf. Mt 5,17).

O profeta Elias, com longos cabelos e barbas, cruza os braços, formado um T (cf. Mt 5, 18: ῖ = iota e til), designando com a mão direita o Salvador. Aliás, a Festa da transfiguração (a 6 de agosto) foi colocada 40 dias antes da Festa da Exaltação da Santa Cruz (a 14 de setembro), que fora instituída antes.

Na zona inferior, um pouco mais pequena em altura, estão figurados os três apóstolos que tiveram a visão; da esquerda para a direita: Pedro, João e Tiago. Três raios azuis partem de Cristo em direção a estes, indicando que a transfiguração (em grego, metamórphosis) não foi tanto de Cristo como dos olhos dos apóstolos (ver, a este propósito, o meu artigo “Metamorfose do olhar”, na revista Brotéria, vol. 142, pp.413-424).

Os discípulos caem por terra. Despertando, Pedro, ajoelhado, dirige a Jesus o seu discurso errado, pois não se devem fazer tendas distintas – a Lei, os Profetas e o Evangelho –, mas, porque todas fazem par-te da Revelação divina consignada na mesma Sagrada Escritura, são guardadas na mesma tenda, que é a Igreja de Deus [cf. Orígenes].

Na zona intermédia, de altura mais pequena, vê-se, dentro de ‘quadrinhos’ em forma de grutas, Jesus seguido pelos três apóstolos escolhidos, a subir e a descer o monte, respetivamente à nossa esquerda e à nossa direita. «Contemplar e transmitir as coisas contempladas» (S. Tomás de Aquino) é o ideal do Pregador. A oração está na base do anúncio integral do Evangelho, com a vida, as palavras e ações poderosas (cf. Mt 5,16; Mc 9,29).

Pela graça todos nós podemos ser divinizados, ou seja, metamorfoseados na imagem de Cristo, pela ação do Espírito Santo (cf. 2 Cor 3,18).

 

frei António-José d’Almeida, OP / Convento de Cristo Rei, Porto
in revista Bíblica 377 (julho-agosto 2018), pp. 40-41.