Assinalando o Dia dos Avós (na memória de S. Joaquim e Sant’Ana, a 26 de julho), que este ano calha a um domingo, e lembrando os noivos que este ano tiveram de adiar o casamento devido à pandemia, analisamos o ícone do Encontro à Porta Dourada. Com ele iniciamos a análise dos ícones das três festas dedicadas à infância da Virgem Santa Maria. A festa da Conceição da Mãe de Deus é celebrada em dezembro, a 8 no ocidente e a 9 no oriente cristãos.

Os Evangelhos canónicos nada dizem a respeito da Virgem Maria antes da Anunciação. Para satisfazer a curiosidade dos fiéis, surgem os Evangelhos apócrifos ortodoxos. Estes são decalcados dos escritos canónicos e não contêm heresias como outros apócrifos, entre os quais os evangelhos gnósticos.

O mais antigo dos evangelhos apócrifos ortodoxos é o chamado, desde o séc. XVI, Protoevangelho de Tiago. Constituído por três partes, a mais antiga, do final do séc. II d.C., é a primeira, intitulada História da Natividade de Maria, a qual deu o nome a todo o escrito. Já no séc. III as três partes constitutivas do escrito atual formavam uma só obra, denominada pelo grande escritor eclesiástico Orígenes simplesmente como Livro de Tiago.

Segundo o nosso escrito, os pais da Virgem Maria eram de idade avançada e não tinham filhos – tal como acontece com os do patriarca Isaac (Gn 15, 17), no Antigo Testamento, ou do profeta João Batista (Lc 1,5-7), no Novo Testamento. Também eram estéreis, no Antigo Testamento, as mães do juiz Sansão (Jz 13,2) e do profeta-juiz Samuel (1 Sm 1,2.5).

Grande fonte de inspiração da primeira parte do Protoevangelho de Tiago é, aliás, a história de Ana, mãe de Samuel (1 Sm 1,2 – 2,11), de onde provém o nome dado à mãe de Nossa Senhora, e que significa ‘Misericórdia/Graça’. Na Bíblia, também se chamam Ana a esposa de Tobite e mãe de Tobias (Tb [1,9b]; 2,1a) e a velha profetisa que acolhe o Menino Jesus (Lc 2,36-38), quando Ele é apresentado no Templo.

O nome do pai da Virgem Maria, Joaquim, também aparece neste escrito, e é o mesmo de um dos reis de Judá (2 Rs 23, 34–34,6a) – que reinou de 609 a 598 a.C. – e do marido da casta Susana (Dn 13,1-4). Significa ‘elevado/preparado por Deus’.

No fim do retiro de quarenta dias e quarenta noites de Joaquim no monte deserto e das lamentações de Ana, um anjo do Senhor aparece a cada um deles, anunciando-lhes a conceção/conceição de Maria no ventre de Ana. Em alguns ícones, estes anúncios do anjo aparecem nos cantos superiores.

A cena principal e que não pode faltar no ícone desta festa é o do Encontro dos progenitores de Nossa Senhora junto da Porta Dourada da cidade de Jerusalém, assinalada pela cúpula do Templo na retaguarda. Os velhos esposos abraçam-se e beijam-se ternamente, significando, de forma pudica, o seu relacionamento sexual fecundo, reforçado em alguns ícones, como é o caso do nosso, pela presença de um leito conjugal na diagonal, atrás deles.

O ícone aqui reproduzido foi escrito pelo iconógrafo contemporâneo Luke Dingman, e encontra-se na St. John Greek Orthodox Church (Igreja Ortodoxa Grega de São João), em Memphis, Tennessee (TN), nos Estados Unidos da América do Norte (EUA).

 

frei António-José d’Almeida, OP / Convento de Cristo Rei, Porto
in revista Bíblica 389 (julho-agosto 2020), pp. 14-15.