Obrigado José, pelo silêncio,

Obrigado, porque há muito partilhamos o silêncio de não saber dizer Deus, o espanto do inaudito que as nossas vidas tocaram.

Só o sonho foi capaz de se quebrar no teu silêncio, só o sonho foi capaz de explicar o inexplicável, só no sonho o silêncio se fez voz.

Mas sofreste. Sofreste no silêncio a obrigação de calar, silenciaste o sofrimento de calar por não saber dizer, por não poder dizer; por não saberes dizer Deus na tua vida.

Obrigado José, pelo silêncio,

Tu não sabias; eu continuo sem saber. Sem saber “dizer” Deus no meu tempo que me passa, tal como tu, na passagem do teu tempo que passou.

E calámos, calamos ainda hoje o silêncio do dizer, no fazer que nos ocupa de encontrar palavras.

Perdoa a veleidade com que falo, já muitas vezes falámos disto no silêncio… e continuaremos, como sempre, cada noite no silêncio e nas palavras que trocamos.

Palavras feitas de silêncios que falem e que digam o que nós não sabemos, sobretudo que nos digam de nós a nós, porque não sabemos, e por isso calamos. Calamos os nós da história que se impõe, das histórias que se impõem e que vivemos; tu e eu, protagonistas calados de um projeto bem maior, e o teu era gigantesco!

Obrigado José, pelo silêncio.

Obrigado José, pela partilha. Partilhamos ambos o filho sem ser nosso, mas que fizemos nosso…, e ambos foram embora… e nós calamos. Calámos as palavras no silêncio, falámos sem falar o amor que não partiu na ausência feita espera.

Obrigado José, pelo silêncio,

Obrigado José, pelas partidas,

Partidas e chegadas por chegar, voltas ao mundo do mundo das voltas que o mundo nos deu e que nós demos… voltas de partir e de chegar, de passar por Herodes e por medos, por Egiptos e por terras prometidas.

Continuaremos juntos, José.

Obrigado José, pelo silêncio.

Os tempo que vivemos, têm sido tempos de silêncio!

De silêncio forçado, confinado, amargurado, feito de ausências que doem, de esperanças que tardam, de abraços proibidos, também no respeito pelo outro, mas acima de tudo na dor da espera que tarda em passar, do sorriso que tarda em abrir, que tarda em desconfinar, que tarda em libertar a vida prisioneira do indizível.

E nós, sentimos o silêncio.

Quando parecia que tínhamos respostas para tudo, de repente, veio a vida e mudou as perguntas. Literalmente, de um dia para o outro, não tinha ficado pedra sobre pedra. A realidade em mutação estava e tomar formas incompreensíveis, inconcebíveis, para as quais não tínhamos resposta. Era preciso inventar tudo, era preciso encontrar palavras novas, gestos novos, olhares novos, porque, realmente, tudo estava a ficar diferente… NÓS estávamos a ficar diferentes.

Viver é também isto, enfrentar o diferente que nos chega sem aviso, com a brutalidade inesperada dos acidentes que tudo mudam, com o desafio de tudo pôr em causa para que o novo “novo” possa nascer, revelar-se, tomar forma e novas formas.

E num primeiro momento, calámos. Em primeiro lugar, era preciso compreender o mistério.

E nós calámos e começámos a viver o tempo do silêncio diante do mistério, tal como José… no seu contexto:

«José, filho de David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1,20-21).

Era este o sentimento dominante, José sentiu medo. Um medo real. A consciência estava tranquila. O seu “processo” de casamento tinha seguido o que estava “previsto”… tudo de acordo com as normas sociais e religiosas do seu tempo. Maria perguntou ao “anjo” “como será isso?”. A José tocou perguntar “como foi isso?”. A fé de ambos estava posta à prova. Maria, teve de confiar no “anjo”; José teve de confiar em Maria, porque o que estava em causa era socialmente inaceitável.

Maria tinha que ser apedrejada até à morte e tocava-lhe a ele, precisamente a ele, promover a lapidação e lançar a primeira pedra…!

“Como será isso se eu não conheço homem?”

“Como será isso se eu conheço Maria?”

Na alma perturbada de José cruzava-se um turbilhão de pensamentos. A “voz” da “autoridade” que haveria de falar mais tarde, retumbava já na sua cabeça “nós temos uma lei… e segundo essa lei deve morrer”.

Maria devia morrer, José devia ser o primeiro a lançar a primeira pedra…

“Não temas Maria…”

“Não temas José…”

Disse o Anjo, diz Deus, a cada um de nós, quando o destino parece fadado à perdição… Não temas!

Não temas, tu e eu, que no silêncio afrontamos o medo, o medo de ter medo, o medo da pandemia, o medo de todas as pandemias que matam a esperança, os medos que nos matam e com que nos querem matar. Não temas, ouviu José… não temas… temos de ouvir nós…

Os tempo que vivemos, têm sido tempos de medos e de silêncios!

De silêncios forçados, confinados, amargurados, feitos de ausências que doem, de esperanças que tardam, de abraços proibidos, também no respeito pelo outro, mas acima de tudo na dor da espera que tarda em passar, do sorriso que tarda em abrir, que tarda em desconfinar, que tarda em libertar a vida prisioneira do indizível.

E José calou no silêncio, escolhendo as “palavras do silêncio”, as únicas capazes de “dizer” o mistério. Assim mesmo! O mistério só sabe usar as palavras do silêncio

Do seu jeito, também José no silêncio do seu silêncio diz:

«Faça-se segundo a tua palavra» (Lc 1,38)

“E o Verbo encarnou… e habitou entre nós!”

No silêncio e pelo silêncio, somos herdeiros desta encarnação. Deus encarnou no nosso mundo, no meu mundo e no teu mundo. Por causa de um sim, por causa de dois “sins” dados em momentos diferentes, mas num ritmo sequencial, tal como a vida, demasiado carregada às vezes de consequências inconsequentes… ou talvez não…

O silêncio que hoje é o nosso, seguiu-se a um tempo em que tínhamos respostas para tudo… de repente, veio a vida e mudou as perguntas.

Foi no silêncio que José viveu a mudança nas perguntas que Deus lhe suscitou, quando a vida, parecia ter já dado todas as respostas.

 

O “processo” de casamento de Maria e José

O casamento hebraico acontecia essencialmente em duas etapas, depois de um primeiro momento em que ambos dão a entender um ao outro a sua disponibilidade para avançar em direção a um compromisso mais sério da sua relação:

Os dois momentos seguintes são estes:

  • Kiddushin
  • Nisuin

Mishnah Kiddushin 1: 1 especifica que uma mulher é adquirida (ou seja, torna-se esposa de alguém) de três maneiras: por meio de dinheiro, de um contrato e/ou de uma relação sexual. Normalmente, todas estas três condições são satisfeitas, embora apenas uma seja necessária para efetuar um casamento obrigatório.

A aquisição por dinheiro normalmente acontece com a entrega de uma aliança de casamento. É importante notar que embora o dinheiro seja uma forma de "adquirir" uma esposa, a mulher não está com isso a ser comprada e/ou vendida como um pedaço de propriedade ou como uma escrava. Isto é óbvio pelo fato de a quantia de dinheiro envolvida ser nominal (de acordo com a Mishná, uma perutah, ou seja uma moeda de cobre do valor mais baixo, era o suficiente). Além disso, se a mulher estivesse a ser comprada como um pedaço de propriedade, seria possível ao marido revendê-la, e é claro que não é. Em vez disso, a aceitação do dinheiro por parte da esposa é uma forma simbólica de demonstração da sua aceitação do marido, assim como a aceitação do contrato ou da relação sexual.

Para satisfazer os requisitos de aquisição por dinheiro, o anel deve pertencer ao noivo. Não pode ser emprestado, embora possa ser um presente de um parente. Deve ser dado à esposa de forma irrevogável. Além disso, o valor do anel deve ser conhecido pela esposa, para que não haja nenhuma alegação de que o marido a enganou para que se casasse, induzindo-a em erro quanto ao seu valor.

Em todos os casos, o Talmud especifica que uma mulher só pode ser adquirida com o seu consentimento, e não sem ele (Kiddushin 2a-b).

Como parte da cerimónia de casamento, o marido entrega à esposa uma ketubá. A palavra "Ketubah" vem da raiz Kaf-Tav-Bet, (KaTaV) que significa "escrever/escrita". A ketubá também é chamada de contrato de casamento e nela ficam registadas/escritas as obrigações do marido para com a esposa durante o casamento, as condições de herança após sua morte e as obrigações relativas ao sustento dos filhos do casamento. Prevê também o sustento da esposa em caso de divórcio. Existem condições padrão; no entanto, podem ser incluídas condições adicionais de comum acordo. Os acordos de casamento deste tipo eram comuns no antigo mundo semita.

A ketubá tem muito em comum com os acordos pré-nupciais, que estão a ganhar popularidade um pouco por toda a parte. Embora a existência da Ketubá possa dar a entender que a pré-disposição não é a de manter o casamento “até que a morte os separe”, na realidade a experiência mostra que a Ketubá serve também justamente para desencorajar o divórcio; serve como um lembrete das obrigações financeiras substanciais em que o marido incorre em caso de divórcio. De notar que, à época, só o marido podia pedir o divórcio. Esta situação manteve-se inalterada no ordenamento jurídico de Israel até praticamente à década de 60 do século passado.

A ketubá costuma ser uma bela obra de caligrafia, emoldurada e exibida em casa.

 

Kiddushin e Nisuin

Como dissemos, o processo de casamento ocorre em dois momentos distintos: kiddushin (comumente traduzido como noivado) e nisuin (casamento completo). Kiddushin ocorre quando a mulher aceita o dinheiro, o contrato ou as relações sexuais oferecidas pelo futuro marido. A palavra "kiddushin" vem da raiz Qof-Dalet-Shin, (QaDoSH) que significa "santificado". Reflete a santidade da relação conjugal. No entanto, a raiz da palavra também significa algo que é deixado de lado para um propósito específico (Kadosh/Kodesh/Sagrado); o ritual de kiddushin, na sua sacralidade, faz com que a mulher passe a ser esposa de um determinado homem e de mais nenhum outro.

Kiddushin é muito mais vinculativo do que um noivado, como entendemos o termo nos nossos dias; na verdade, Maimónides fala de um período de noivado antes do kidushin. Uma vez que o kiddushin esteja completo, a mulher é legalmente a esposa do homem. O relacionamento criado a partir deste momento só pode ser dissolvido por morte ou divórcio. No entanto, os cônjuges ainda não moram juntos durante esse tempo, e as obrigações mútuas criadas pelo relacionamento conjugal não têm efeito até que o nisuin seja concluído.

Nisuin (deriva de uma palavra que significa "elevação") completa o processo de casamento. O marido traz a esposa para sua casa e começam então a sua vida de casados juntos.

No passado, o kiddushin e o nisuin ocorriam rotineiramente com um intervalo de até um ano. Durante esse tempo, o marido prepararia um lar para a nova família. Havia sempre o risco de que, durante esse longo período de separação, a mulher descobrisse que queria casar com outro homem, ou o homem desaparecesse, deixando a mulher na situação incómoda de ser casada, mas sem marido. Hoje, as duas cerimónias normalmente são realizadas juntas.

Porque o casamento sob a lei judaica é essencialmente um acordo contratual privado entre um homem e uma mulher, não se requer a presença de um rabino ou qualquer outro oficial religioso. É comum, entretanto, que os rabinos oficiem, em parte imitando a prática cristã e em parte porque a presença de um funcionário religioso ou civil é exigida pela lei civil.

A cerimónia de nisuin acontece debaixo da Chuppah (leia-se rupá), a tenda (que relembra toda a simbologia do história do povo na sua relação com Deus no deserto e na Aliança), feita em pano, muitas vezes é mesmo um Talit (xaile de oração) aberto sobre os noivos, símbolo da casa comum a ser ocupada pelo casal, aberta por todos os lados num símbolo de hospitalidade incondicional e coberta, protegida por Deus (cf. Tenda da Reunião)

Ao tempo dos acontecimentos da Anunciação “processo de casamento canónico” de Maria e José, estava já entre Kidushin e Nisuin, entre os dois, a ketubá cujo conteúdo desconhecemos totalmente estava já escrita e entregue. Maria e José tinham chegado ao seu acordo pré-nupcial. Desconhecemos as condições.

O que os Evangelhos relatam, - justamente porque não são nem nunca quiseram ser, nem um documento jornalístico, mas sim um resumo do essencial da mensagem -, é “simplesmente” o essencial do que acontece num momento inexplicável de um processo que de repente toma uma direção inesperada.

Maria, obviamente, fica perturbada e José fica numa situação de drama interior profundo. Tudo o que está a acontecer a ambos, foge da normalidade normal espectável. Maria, mãe solteira e José tem que assumir uma paternidade que não é sua. Mais ainda, José está “obrigado” a matar por apedrejamento, aquela com quem tinha decidido construir o futuro da sua vida.

Não podemos fazer mais do que imaginar o drama. Como quer que fosse, dali por diante, nada mais seria igual. Na vida de ambos, de repente, não tinha ficado pedra sobre pedra.

Os evangelhos que narram todos estes acontecimentos à luz da fé, não deixam, nem podiam deixar, de registar precisamente estes estados de alma.

Deixada a nossa imaginação livre para completar o quadro dos factos, os textos não deixam dúvidas quanto à realização do casamento de José e de Maria, bem quanto à época em que o casamento terá acontecido.

Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo… Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa. (Mt 1, 18-20; 24)

Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. (Lc 2, 1-5)

Duas conclusões a partir do texto:
1 – José não consegue entender nada do que está a acontecer. A sua confiança em Maria é inquestionável, mas o drama interior existe. José procura uma solução, uma forma de sair da situação que o obriga a um comportamento que ele não pode não rejeitar.

Mateus apresenta-o como um homem justo que não quer expor Maria à difamação.

José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. (Mt 1,19).

Não sabemos como isto seria possível sem “comprometer” nenhum dos dois. Mateus “resolve” o drama com esta expressão: “Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.” (Mt 1, 20-21)

2 – O casamento aconteceu de facto… e recebeu sua esposa…, sob condições “anormais”… E, sem que antes a tivesse conhecido, ela deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus. (Mt 1,25)

Mateus insiste nesta “anormalidade”, “sem que antes a tivesse conhecido”. Sem que kidushin tivesse sido celebrado com uma relação sexual. O menino que há-de nascer, é anunciado nesta catequese de Mateus destinada à sua comunidade de origem judaica, na linha da continuidade genealógica com que ele dá início ao seu Evangelho, colocando Jesus na linha messiânica como descendente de David ao ser filho de José a quem este deu o nome.

De notar um facto curioso aparentemente contraditório quanto à paternidade do próprio José. Em Lucas, José é filho de Eli, em Mateus é filho de Jacob. Não há “mentira” em nenhum dos dois. Lucas segue a tradição dos nomes de acordo com as regras da Lei; Mateus segue a descendência biológica pela Lei do Levirato (Cf. Dt 25,5; ler Livro de Rute)

Nada disto fazia sentido. José não entende, mas no silêncio do sonho e no sonho do silêncio, avança também ele como Maria, em direção ao desconhecido, que cada vez mais se há-de fazer para ele, ocasião de memória e motivo para guardar estas coisas no seu coração.

Dando como certa e não discutindo aqui esta “geografia” apresentada pelos Evangelhos, é no caminho de Nazaré a Belém, de Belém de regresso a Nazaré, passando pelo Templo e pelo encontro revelador com Joaquim e Ana, e no regresso, de novo à “normalidade” de Nazaré, Maria, José e o Menino, vão fazendo a sua viagem, na aparente normalidade normal dos dias, em que a vida vai revelando a história e revelando-se na história, na sua história pessoal e relacional, de cada um consigo, com os outros e com Deus.

Neste sentido, Maria e José fazem, em conjunto, a sua viagem na fé e pela fé. Para eles, tal como para nós, a vida há-de ir revelando e desmontando os “sem sentidos” da história, como a nossa, feita tantas vezes de não entendimentos, a serem vividos no silêncio e na fé, sem que a humanidade que é nossa se agite e preocupe, como tantas vezes acontece, chegando ao ponto de “ralhar” com Deus.

Três dias depois, encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas.

47Todos quantos o ouviam, estavam estupefactos com a sua inteligência e as suas respostas.

Ao vê-lo, ficaram assombrados e sua mãe disse-lhe: «Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!» Ele respondeu-lhes: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?»
Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse. (Mt 2, 46-50)

Não, não tinham compreendido, nem Maria nem José, nem o próprio Jesus, conheciam previamente o guião da missão que os esperava. Tal como nós!

É na história, pela história e com a história que Deus se revela, na vida vivida na normalidade de ser, de ser e de estar, connosco mesmo, com os outros e com Ele.

A família de Nazaré vive justamente esta normalidade. No episódio da perda e encontro de Jesus no Templo, temos a última aparição de José. De algum modo, para o evangelista, a missão de José termina ali.

Ali, naquele ali do Templo, aos 12 anos, era o tempo da profissão de fé do Menino, o seu Bar Mitzvah, o momento a partir do qual passava a ser adulto no seio da comunidade e a “contar” para o minian, o número mínimo de 10 homens para que se possa celebrar validamente a liturgia judaica.

Os 12 anos, marcam o momento da “passagem” do menino para os cuidados mais diretos do pai, com o qual deve aprender e continuar a sua profissão, e da menina passar a estar mais aos cuidados da mãe, com quem deve aprender as atividades da vida quotidiana, depois de ambos, meninos e meninas, terem aprendido a ler e a escrever, como um mandamento, uma mitzvah que há mais de 3500 anos está presente na cultura judaica.

Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?

Não, não sabiam, provavelmente nem o próprio Menino sabia…

Estamos diante de uma catequese e não diante de uma reportagem.

Jesus, Maria, José, não tinham um “pré-conhecimento” do desenrolar da sua história. O mesmo acontece com cada um de nós. Partilhamos com a família de Nazaré, a tarefa de ir descobrindo o que Deus nos tem a propor, à liberdade que somos, à “criaturalidade” que temos, como criaturas que somos, convidadas a caminhar na fé e a descobrir a nossa missão, de filhos, de irmãos, de sonhadores de eternidade, no tempo e na história que são nossos e que podemos, se quisermos, transformar em eternidade.

Sei que tudo isto abre a novas possibilidades de discernimento e de discussão, oxalá venhamos a ter essa possibilidade…

Para todos, o meu abraço de amizade e gratidão e os meus votos de que todos, sem exceção, saibamos fazer deste ano dedicado a S. João, um ano para iniciar a agir, tal como José, como cuidadores, cuidadores uns dos outros, cuidadores de todos aqueles que por motivos vários se vêm confrontados com os Herodes de todos os tempos, com a necessidade de partir, de atravessar tantos “Egiptos”, tantos desertos, tantos calvários, até chegarem à Ressurreição.

Que S. José nos abençoe a todos!