Os grandes personagens da história costumam ter muitas pátrias a reclamá-los. Por exemplo, de Homero, o famoso poeta grego do século VIII a.C., há sete cidades que dizem ter sido o seu berço. De Cristóvão Colombo, quatro. E de Camões, três.

O mesmo que acontece com os grandes personagens da História, aconteceu com a Virgem Maria. O lugar do seu nascimento é um mistério, e a Bíblia não diz nada sobre o assunto. Apesar disso, existem três cidades que há muito disputam entre si o privilégio de a terem visto nascer. Quais são? Que argumentos apresentam em seu favor? Qual delas tem maiores possibilidades de ser a autêntica?

 

A candidatura de Belém

A primeira cidade apontada como lugar do nascimento de Maria é Belém. No tempo de Maria, Belém era uma pequena aldeia de uns mil habitantes, situada a 8 quilómetros ao sul de Jerusalém, e célebre por ser a pátria do rei David.

Os que defendem esta hipótese, baseiam‐se num argumento bíblico. Segundo o Evangelho de Lucas, antes de Jesus nascer realizou‐se um recenseamento em todo o país, e os cidadãos da Palestina tiveram que ir recensear‐se «cada um à sua cidade» (Lc 2,3). São José deslocou‐se de Nazaré, onde vivia, até Belém, porque tinha nascido ali (Lc 2,4), mas levou consigo a sua esposa Maria, que estava grávida. Realizar semelhante viagem não deve ter sido cómodo nem oportuno para ela. Porque a levou? A única explicação, segundo esta hipótese, é porque ela também era de Belém e tinha a obrigação de se apresentar ali para se registar. Por isso, insistem os defensores desta opinião, Lucas diz que José viajou «para se recensear com Maria», dando a entender que tinha que ir com ela.

Invocando este raciocínio, muitos Santos Padres e escritores antigos afirmaram que Maria tinha nascido em Belém.

Assim por exemplo São Cirilo, bispo de Alexandria, por volta do ano 390, ensinava que «Belém é uma povoação donde são naturais Jessé, David, e também a virgem que nos deu à luz o menino Jesus.» Também São João Crisóstomo, bispo de Constantinopla, numa homilia pronunciada no Natal do ano 396, expunha aos seus fiéis a mesma ideia. E um escritor oriental chamado Cosmas o Vestidor, por volta do ano 800, num sermão sobre os pais da Virgem Maria, afirmava que a sua mãe a trouxe ao mundo na cidade de Belém.

 

À procura de outra candidata

Mas esta crença baseia‐se numa interpretação bíblica errada. Porque, quando Lucas relata a viagem da Sagrada Família a Belém, diz expressamente que José teve que ir porque «era da família de David [isto, de Belém]» (Lc 2,4). Mas, de Maria nada diz. Ou seja, não conhecemos as razões pelas quais, segundo Lucas, José levou Maria até Belém. Na intenção de Lucas, puderam ter sido várias: para cuidar da sua gravidez, para que não ficasse só em Nazaré, para lhe fazer companhia na viagem, para ela visitar os seus parentes de Belém. Supor que foi por ser de Belém é uma afirmação infundada.

Por isso, a hipótese da origem de Maria em Belém, apesar de ter sido difundida entre vários escritores antigos, não se impôs e acabou por desaparecer. Deste modo se explica o facto de, na cidade de Belém, não existir hoje nenhuma igreja, nem capela, nem oratório, onde se conserve a recordação do nascimento de Maria.

 

O peso de Nazaré

Outro lugar teve mais êxito, na tradição, como berço de Maria: a cidade de Nazaré. No tempo de Jesus era uma pequena aldeia, de uns 500 habitantes, situada sobre uma colina com 350 metros de altura, nas montanhas da baixa Galileia, 100 quilómetros a norte de Jerusalém.

Em que se fundamenta a crença de que Maria nasceu em Nazaré? Igualmente numa dedução bíblica. Os evangelhos contam que Maria viveu durante a sua adolescência em Nazaré, e ali o anjo Gabriel lhe anunciou que iria ser a mãe de Jesus (Lc 1,26). O facto de ela ter estado em Nazaré desde a sua puberdade, levou a muitos a pensarem que também teria nascido ali.

Os defensores desta segunda hipótese são muito mais numerosos do que os da primeira. Além disso, independentemente do argumento bíblico, apresentam a seu favor um testemunho arqueológico: desde muito cedo, foi construída em Nazaré uma igreja sobre os restos de uma antiga casa onde Maria teria vivido.

Na verdade, já em 335 um judeu convertido ao cristianismo, o conde José de Tiberíades, edificou a primeira igreja sobre uma gruta onde se dizia que o anjo falou com Maria. Desde então, os peregrinos que chegaram a Nazaré falam desse edifício sagrado. Por exemplo, um viajante chamado o peregrino de Placência, que passou por Nazaré no ano 570, narra que pôde ver «o lugar de Maria transformado em igreja».

Mais tarde, cerca do ano 670, o peregrino Arculfo recorda que em Nazaré viu uma igreja «onde tinha estado a casa na qual a virgem recebeu a anunciação do anjo Gabriel». Também o antigo peregrino Wilibaldo, quando andou por Nazaré no ano 724, se encontrou com o santuário da Casa de Maria, que as pessoas chamavam “da Anunciação”. Muitos outros visitantes que passaram pelo lugar afirmam o mesmo.

Ainda hoje se pode admirar uma impressionante e majestosa basílica de dois andares, erguida pelos franciscanos em 1964, que constitui o maior santuário cristão de todo o Médio Oriente, sobre o que teria sido o humilde quarto da casita de Maria. Baseando‐se nestes dados, vários escritores antigos garantem que Maria nasceu em Nazaré: Hipólito de Tebas (nas suas Crónicas, escritas pelo ano 700), o Synaxarion Arménio (uma antiga coleção de vidas de santos) e o monge Epifânio de Jerusalém (cerca do ano 1100). Também um evangelho apócrifo, A Natividade de Maria, do ano 850, afirma que «a virgem Maria tinha nascido em Nazaré» (1,1).

 

Por atração de dados

Não obstante a quantidade de defensores desta segunda hipótese, os estudiosos atuais defendem que não é a mais provável. Com efeito, como vimos, nenhum peregrino antigo que visitou Nazaré diz ter visto a casa onde “nasceu” Maria, mas apenas a casa “da anunciação” a Maria. Isso significa que a tradição, ali, não falava da sua casa natal, mas do lugar onde ela tinha vivido como adolescente, quando recebeu o anúncio do anjo Gabriel.

Quanto aos testemunhos literários, vemos que são muito tardios. O primeiro autor a dizer que Maria nasceu em Nazaré viveu no ano 700. Como é que ninguém, antes, ao longo de 700 anos, disse nada sobre o tema? Como se explica este silêncio de sete séculos, interrompido apenas a partir de Hipólito de Tebas? A resposta só pode ser uma: foi nessa data quando começaram a misturar‐se as duas tradições da mesma casa: a da anunciação e a do nascimento.

Ou seja, a noticia do nascimento da Virgem Maria em Nazaré, apesar de estar hoje muito difundida, não tem grande fundamento histórico. Surgiu apenas pela “atração” de outro acontecimento importante ligado a ela: a anunciação.

 

Os méritos de Jerusalém

Chegamos assim à terceira cidade que compete pelo privilégio de ter visto nascer Maria: Jerusalém. É a rainha de todas as propostas, pois apresenta as provas mais contundentes e decisivas. De facto, o documento escrito mais antigo sobre o tema afirma que ela nasceu em Jerusalém. É um evangelho apócrifo chamado Protoevangelho de Tiago, escrito pelo ano 150, ao que parece no Egito.

O livro conta que os pais de Maria, Joaquim e Ana, viviam em Jerusalém (não o diz expressamente, mas dá‐o a entender, ao afirmar que Joaquim ia diariamente de sua casa ao Templo). O casal era muito rico, mas Ana era estéril e não podia ter filhos. Envergonhado por isso, um dia, Joaquim foi para o deserto e jejuou 40 dias (1,1‐4). Ana, ao não ter noticias de seu marido, pensou que estava morto, e vestiu‐se de luto, chorou e fez luto por ele (2,1‐4).

Enquanto se lamentava, apresentou‐se‐lhe um anjo, que lhe disse: «Não te aflijas: o Senhor escutou a tua oração; conceberás e darás à luz uma filha, que será famosa em todo o mundo.»

Ana, cheia de alegria, respondeu: «Se chegar a ter uma filha, entregá‐la‐ei ao Senhor para que o sirva no Templo todos os dias da sua vida» (4,1).

Então chegaram dois mensageiros, que lhe disseram: «O teu marido Joaquim voltou, e um anjo disse‐lhe que tu conceberás uma filha com ele.» Ana saiu de casa a correr, e ao ver Joaquim abraçou‐o e exclamou: «Agora compreendo que Deus me abençoou. Até há pouco era viúva, e já não o sou; era estéril, e vou conceber» (4,2‐4). Nove meses depois, teria nascido Maria em Jerusalém.

 

Os testemunhos acumulam-se

Como o Protoevangelho de Tiago não indicava o lugar exato de Jerusalém onde Maria nascera, os seus habitantes trataram de identificá‐lo e localizaram‐no num bairro chamado Betesda, ao norte de Jerusalém, a 200 metros do Templo, perto de uma antiga piscina chamada Probática. A identificação teve êxito e, pelo ano 440, a imperatriz bizantina Eudóxia mandou construir no lugar uma basílica com o nome de Santa Ana, para comemorar o sítio do nascimento de Maria e onde os seus pais viveram a sua velhice.

Uma vez situado o lugar da casa, a tradição começou a referi‐la. No ano 450, um evangelho apócrifo chamado Evangelho do Pseudo‐Mateus (por se julgar que São Mateus o tinha escrito) afirma que Maria tinha nascido em Jerusalém (1,1). Mais tarde, no ano 603, o patriarca Sofrónio de Jerusalém compôs um cântico à casa de Maria nesta cidade, que dizia: «Beijarei aquelas queridas paredes, e irei à casa onde nasceu a virgem Rainha.» Em 740, São João Damasceno, um teólogo grego, afirma: «Lá, na casa paterna, nasceu aquela de quem quis nascer o Cordeiro de Deus.» O Commemoratorium de Casis Dei, um inventário das igrejas da Terra Santa, escrito cerca do ano 800, diz que Maria «nasceu na Probática». E um peregrino inglês, chamado Seawulfo, que viajou a Jerusalém no ano 1102, escreveu: «A igreja de Santa Ana, mãe da bem‐aventurada Maria, onde aquela viveu com o seu esposo, é também o lugar onde Maria nasceu.»

Em 1187, os muçulmanos conquistaram Jerusalém, e o sultão Saladino apoderou‐se da igreja de Santa Ana, remodelou‐a e transformou‐a numa escola de estudos do Corão. A basílica permaneceu em poder dos árabes durante sete séculos, até que, em 1871, os turcos a devolveram aos cristãos, e a estes pertence atualmente.

 

O desmentido da Arqueologia

Mas, apesar da antiguidade desta tradição (século II), e dos numerosos testemunhos que a defendem, Jerusalém tão‐pouco pode ser apoiada como lugar do nascimento de Maria.

De facto, as escavações arqueológicas realizadas no século XX nos arredores dessa casa de Maria demonstraram que, no tempo de Jesus, ela se encontrava fora da área habitada da cidade. Os judeus tinham construído ali uma grande piscina pública para recolher a água da chuva, e muitos enfermos, crendo que a água tinha propriedades curativas, iam com a esperança de se curarem. Ou seja: onde hoje se encontra a suposta casa de Maria, era um lugar desabitado, fora das muralhas e junto de um tanque público.

Mas, se não foi nessa casa, pôde Maria ter nascido em qualquer outra parte de Jerusalém? Os estudiosos respondem que não. Porque o nascimento de Maria em Jerusalém não parece ser um dado neutral e objetivo, mas vinculado a uma mensagem espiritual. Com efeito, o Protoevangelho de Tiago, que é o que dá pela primeira vez esta noticia, diz que, quando a Virgem Maria cumpriu três anos, os seus pais levaram‐na ao Templo e ali a deixaram para que a menina tecesse o véu sagrado do Santuário, que só mãos puras e santas podiam tocar. Com este dado, o livro trata de transmitir um ensinamento: Maria, futuro templo de Deus, esteve desde menina dedicada ao Templo de Deus. Aquela que um dia ia tecer no seu ventre o menino divino, quando pequena começou a tecer o véu divino.

Portanto, a noticia do nascimento de Maria em Jerusalém, criada pelo Protoevangelho e repetida pela tradição, não pretende transmitir um dado histórico, mas um ensinamento teológico.

 

O surgimento de Séforis

Perante o fracasso das três cidades pretendentes, ainda será possível saber qual a terra natal da Virgem Maria? Sim. Pouco a pouco, e silenciosamente, foi abrindo passo uma quarta candidata: Séforis.

Trata‐se de uma cidade muito importante da Galileia, a 5 quilómetros ao noroeste de Nazaré, assente no alto de umas colinas. Durante a infância de Jesus, era a capital da Galileia, e tinha uns 12.000 habitantes. Ali vivia o governador Herodes Antipas, até decidir trasladar a capital para a cidade de Tiberíades, no ano 18 da nossa era.

Existem argumentos literários para considerarmos Séforis o berço de Maria? Sim. Segundo as crónicas antigas, já no ano 352 o conde José de Tiberíades construiu ali uma primeira basílica. Para honrar a quem, se Séforis nunca é mencionada nos Evangelhos? Não o diz. Mas no ano 570, o peregrino de Placência dá‐nos a resposta: «Ali (em Séforis) adoramos a bacia e o berço de Santa Maria.» Isto indica que desde há muito se venerava ali a casa onde tinha nascido Maria.

O dado é corroborado por vários testemunhos posteriores. Assim, um livro de 1130, conhecido como De Situ Urbis Ierusalem, afirma que «de Séforis era natural Ana, mãe da mãe de Cristo». E em 1165 o sacerdote alemão João de Wirzburg, na sua obra Descriptio Terrae Sanctae, defende que «em Séforis nasceu a Virgem Maria». A noticia será repetida por Thetmarus (em 1217). Também pelo livro anónimo Si quis voluerit ire ab Acon (de 1250). E pelo dominicano Burchardo do Monte Sião (em 1283).

Durante o século XII, os cruzados edificaram em Séforis uma esplêndida basílica, justamente para comemorar a casa natal de Maria. Dela fala Nicolau de Poggibonsi (1348). E Francisco Quaresmio, Custódio da Terra Santa em 1626 conta‐nos, na sua monumental obra Elucidatio Terrae Sanctae, que Séforis «é célebre e digna de ser visitada, por se crer que foi a terra de Joaquim e Ana; e no lugar onde estava a casa de São Joaquim foi construída uma ilustre igreja».

 

Aproximar Maria da terra

Concluindo: das quatro cidades que ao longo da história se propuseram como a terra natal de Maria, três não parecem sê‐lo. Belém, por se basear numa interpretação bíblica errada. Nazaré, porque nasceu a partir de uma confusão com a anunciação. E Jerusalém, porque surgiu da necessidade de mostrar Maria ligada ao Templo desde menina.

A única tradição que não é suspeita de qualquer interesse teológico, que não parte de nenhuma dedução bíblica, e que por isso resulta imparcial, é a de Séforis. Por isso, quando os autores antigos garantiam que Maria tinha nascido ali, faziam‐no por um único motivo: porque, com toda a probabilidade, era a sua terra natal.

Identificar a terra de Maria permite‐nos conhecer o contexto social da mãe de Jesus: a sua geografia, a sua história, os seus problemas políticos, as suas carências económicas, as suas tensões sociais – tudo realidades que, sem dúvida, marcaram e condicionaram a sua vida desde a infância. E ajuda‐nos a aproximar‐nos daquela a quem a piedade popular tanto elevou ao céu, à glória e ao âmbito divino, que às vezes se torna difícil imaginar que ela tenha caminhado pela nossa terra.

No filme A força do carinho há uma cena em que Aurora, personagem magistralmente interpretada por Shirley MacLaine, está a atravessar uma situação angustiosa na sua vida, e diz a Jack Nicholson, seu vizinho, que era astronauta: «Pelo menos tu tiveste a oportunidade de pisar a lua.» Ao que ele responde: «Mas tu tens a sorte de caminhar pela terra.»

A grandeza de Maria não está em a elevarmos ao céu e a transportarmos para o âmbito divino. A sua maior grandeza reside em ter vivido e caminhado nesta terra. Uma terra que a tornou ditosa porque lhe deu a possibilidade amar, servir, sacrificar‐se, dar‐se totalmente. Uma terra capaz de nos engrandecer também a nós, se lutarmos e trabalharmos como ela. Uma terra amada e abençoada por Deus. Tão amada, que até o seu próprio Filho quis um dia vir à terra para caminhar connosco.

 

Publicado na Revista Bíblica, nº 383 (julho-agosto 2019) pp. 3-9
Tradução do Castelhano / LOPES MORGADO