Foi há quase vinte anos, na Universidade Pontifícia de Salamanca, que teve início esta aventura: uma exaustiva investigação sobre “A Bíblia em Portugal”. Na verdade, por ocasião da tese de doutoramento do Fr. Herculano Alves sobre «A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida», dirigida pelo Prof. José Manuel Sánchez Caro nessa Universidade Pontifícia, iniciava-se um novo caminho que já levou à publicação de quatro grossos e densos volumes. A apresentação do IV volume, que leva como título “A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida e Catálogo das suas Obras Bíblicas”, decorreu em dois momentos: no Porto, no dia 12 de Dezembro de 2019, na Universidade Católica, e em Lisboa, no dia 16 de Janeiro de 2020, na Universidade Lusófona.

Em Lisboa, coube ao Prof. Doutor Timóteo Armelim de Jesus Cavaco, da Sociedade Bíblica, coordenador pedagógico no Seminário Teológico Baptista e investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, a apresentação deste IV volume. A sessão decorreu no Auditório José Araújo da Biblioteca da Universidade Lusófona, perante uma plateia bem composta e atenta. Partilhamos com os frequentadores deste nosso “site” alguns momentos desta brilhante conferência.

O apresentador começou por manifestar a sua surpresa ao tomar conhecimento da dimensão desta obra. Lembrou os primeiros passos deste projecto, por volta de 2003, em que ele próprio colaborou, ao sugerir ao autor alguns nomes de referência, como o Pastor António Barata.

Seguidamente, olhando para os 4 volumes já publicados pelo Fr. Herculano, disse tratar-se de uma obra gigantesca e, para o efeito, mostrou ao auditório um exemplar da única obra que existia sobre “A Bíblia em Portugal” (1495-1850), da autoria de Guilherme Luís Santos Ferreira, com apenas 123 páginas, publicada em 1906, o que contrasta com “um trabalho que, com este IV volume, já vai em mais de 3 mil páginas, o que mostra bem a dimensão e a importância desta publicação do Fr. Herculano, um autor perspicaz que se tem notabilizado pela sua persistência e consistência”. Fez também menção de autores que estudaram este tema, sobretudo a partir do séc. XIX, como António Ribeiro dos Santos, com a obra “Memórias sobre algumas traduções e edições bíblicas menos vulgares em língua portuguesa”, publicada em 1806, embora com muitas imprecisões; lembrou também um pequeno trabalho de Carolina Michaelis de Vasconcelos sobre “As Bíblias Castelhanas”, publicado em 1889 e, já no século XX alguns pequenos contributos de autores, como Mário Martins (“A Bíblia na Literatura Medieval Portuguesa”), e Aires Nascimento.

“Este IV volume – continuou o conferencista –, pode ser comparado à série «Guerra das Estrelas». É o quarto volume mas deve ser lido como o primeiro desta série. Para se ler de forma sistemática esta obra, começando pelo primeiro volume como quando se começa em Génesis ou quando se começa o Novo Testamento em Mateus, temos de perceber que a dinâmica da produção da obra não foi exactamente a mesma pela qual estão organizados os volumes.”

Fixando-se agora no autor estudado neste IV volume, citou Ribeiro dos Santos, dizendo que é João Ferreira d’Almeida que nos apresenta a primeira tradução regular das Escrituras em língua portuguesa. Contudo, João Ferreira d’Almeida não traduziu os chamados Livros Deuterocanónicos, pois a sua obra é produzida num contexto protestante. Porém, essa não é só, por si, uma razão plausível, pois eles foram traduzidos noutros contextos protestantes, começando logo por Martinho Lutero, que os traduziu.

Mas “João Ferreira d’Almeida – prosseguiu o Prof. Doutor Timóteo Cavaco – é uma figura central, não só para o estudo deste tema relacionado com a Bíblia, mas também para a história da literatura e da cultura portuguesa. É de estranhar ou até de lamentar a invisibilidade que este nome continua a ter no panorama académico, científico e até na divulgação, salientando-se a inexistência de referências sobre João Ferreira d’Almeida, por exemplo, nas histórias da literatura portuguesa, nas diferentes antologias que se vão publicando. João Ferreira d’Almeida continua a estar completamente oculto nesses manuais fundamentais para a compreensão da nossa história e cultura, o que é lamentável… O autor surge até na obra, aliás interessante, «O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos», do Prof. Joaquim Fernandes, a quem presto homenagem por esse trabalho de sistematização, embora a informação biográfica que ele publica esteja bastante incompleta. Curiosamente, os primeiros biógrafos e os primeiros a preocuparem-se com a figura de João Ferreira d’Almeida são estrangeiros”.

“No Brasil – prosseguiu o conferencista – com a dimensão que o país tem, e sendo a Bíblia de João Ferreira d’Almeida um livro tão distribuído em todo aquele país, estamos a falar de valores estratosféricos. Para se ter uma ideia, só a Sociedade Bíblica do Brasil, para além de outras instituições que produzem e divulgam a Bíblia de João Ferreira d’Almeida, produz cerca de três milhões de Bíblias por ano da tradução dessa Bíblia. É natural, também, que seja no Brasil que surja esse interesse maior pela figura de João Ferreira d’Almeida. Ao nível da Academia é um interesse avassalador. A título de exemplo, gostaria de mencionar dois trabalhos que foram desenvolvidos já depois deste trabalho pioneiro de Fr. Herculano Alves: uma tese de mestrado em Ciências das Religiões, de J. Cavalcanti Filho e, mais recentemente, a tese de doutoramento em História Religiosa Moderna, de Luís Menezes Fernandes, na Universidade de São Paulo. É, portanto, um tema que continua a ser trabalhado. Não podemos ignorar outro trabalho fundamental que, embora não aborde a personalidade de João Ferreira d’Almeida no seu tempo e no seu contexto, é um guia e uma chave de leitura indispensável para se perceber a real difusão dessa obra maior, que é a tradução da Bíblia, no Portugal metropolitano ao longo do séc. XIX e primeira metade do séc. XX. Trata-se da tese de doutoramento da Drª Rita Mendonça Leite sobre a Sociedade Bíblica, trabalho importante para nós percebermos um fenómeno muito curioso: não sendo a Bíblia de João Ferreira d’Almeida traduzida no nosso contexto, acabou por levar a uma chegada e difusão tardia no território metropolitano português. Embora tenha sido traduzida no séc. XVII, acabou a sua publicação no séc. XVIII. Só ao longo do séc. XIX ela teve uma real difusão no nosso país, devido sobretudo à acção da Sociedade Bíblica.”

O conferencista, ao concluir a sua dissertação, deixou três notas relativas a esta obra do Fr. Herculano. A primeira, refere-se aos “dados biográficos que o autor analisou exaustivamente, a partir das diferentes fontes, trazendo ao leitor uma informação absolutamente fidedigna e muito rigorosa sobre João Ferreira d’Almeida. Não podemos esquecer que João Ferreira d’Almeida viveu e trabalhou num contexto colonial, não já sob o domínio português, mas holandês”. Como segunda nota, “é de mencionar que estamos perante um estudo literário, exegético, bibliográfico desta Bíblia nas suas diferentes edições, numa perspectiva simultaneamente sincrónica e diacrónica, o que releva o rigor das suas conclusões”. Tudo isto é de enorme interesse para quem quer conhecer o percurso da edição e do livro. “Há até a questão sobre se João Ferreira d’Almeida terá traduzido a Bíblia a partir das línguas originais ou não”. Neste aspecto, foi muito revelador “o achamento da edição corrigida manuscrita da edição do Novo Testamento de 1681, que está na Biblioteca Nacional. Foi o Fr. Herculano Alves que percebeu que eestava ali uma obra da maior importância: o Novo Testamento de 1681, corrigido à mão pelo próprio João Ferreira d’Almeida, o que mostra o que o autor queria para essa edição.” A terceira nota, é o “fenomenal catálogo das obras e edições bíblicas de João Ferreira d’Almeida, um instrumento de grande utilidade para os investigadores em diversas áreas”.

O Prof. Doutor Timóteo Cavaco classificou este IV volume sobre «A Bíblia em Portugal», intitulado “A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida e Catálogo das suas Obras Bíblicas”, como um trabalho magistral e ‘herculeano’. “Não é erro: esta palavra não vem de Hércules mas de Herculano. É um trabalho ‘herculeano’ de compilação, uma obra notável de sistematização desta multidão de edições da Bíblia de João Ferreira d’Almeida nos seus diferentes formatos. Fico abismado diante deste catálogo, ao qual, aliás, recorro muitas vezes”.

A terminar, deixou alguns desafios: “Será que João Ferreira d’Almeida nasceu mesmo em Torre de Tavares, Mangualde? Será que nasceu em 1628? Qual era o seu núcleo familiar? Quem era o tio que o educou e que tanta importância teve na sua formação? Do que menos se sabe sobre João Ferreira d’Almeida é do tempo em que ele viveu em Portugal, apesar de ele ter saído do nosso país com apenas 14 anos. E também questões sobre a edição da Bíblia: qual era efectivamente o texto que Almeida gostaria de ter visto impresso, dado que ele reagiu um pouco em relação àquele texto de 1681 publicado na Holanda? Também a edição do Novo Testamento de 1693 reflecte as alterações que Almeida preconizava? Haverá duas tradições textuais, uma de Batávia e outra de Tranquebar? De referir que é a única das traduções das principais línguas europeias que não é feita na Europa, o que levanta uma série de linhas de investigação muito interessantes! São desafios e perguntas que deixo aqui, pois é pela pergunta que se vai construindo novos conhecimentos.”

O último acto deste encontro cultural e bíblico foi a apresentação de algumas questões que os participantes colocaram, quer ao conferencista, quer ao Fr. Herculano Alves os quais, com prontidão e sabedoria, iluminaram brilhantemente o auditório. Encerrou a sessão o responsável pela área científica de “Ciências das Religiões” da Universidade Lusófona.

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