Uma vida simples, fraterna, missionária

A fundação da fraternidade dos Capuchinhos de Tiaret está relacionada com uma decisão do Capítulo eletivo da Província da França-Valónia de 2006. Após a conferência de Madrid de 2005, sobre a secularização na Europa, dois frades, Dominique Lebon e Hubert Lebouquin, fizeram um primeiro reconhecimento e apresentaram um dossier, que foi aprovado por grande maioria. Fr. René juntou-se a eles na Argélia, em Tiaret, lugar onde o bispo de então imaginava que pudesse florescer esta presença franciscana. E foi o que aconteceu. Fr. Mariusz, da Província polaca de Cracóvia, chegou em 2013, e Fr. Pascal, em 2017, enquanto Fr. Dominique regressou a França após 10 anos de presença.

 

A simplicidade, uma marca franciscana

A nossa vida fraterna, em Tiaret, cidade dos altiplanos, nos limites de Orã, desenvolve-se na simplicidade franciscana. Ocupamo-nos dos afazeres domésticos, ajudados por uma funcionária a tempo parcial, que também se ocupa da limpeza do espaço da comunidade paroquial. Somos responsáveis pela paróquia de Santa Madalena de Tiaret, da qual Fr. Mariusz é o pároco, que acolhe sobretudo estudantes subsaarianos (cerca de vinte) e alguns cristãos argelinos.

Temos um oratório para a vida de oração comunitária e pessoal, além de uma sala polivalente para as celebrações dominicais e festivas, que ocorrem sábado à tarde e nos dias festivos.

A nossa economia é garantida por uma espécie de renda de subsistência (como encoraja o Papa Francisco), depositado mensalmente pela Diocese por cada irmão ativo, no valor de 21.000 dinares argelinos (cerca de 100 euros). Acrescentam-se a aposentadoria mensal de Fr. René, a solidariedade da Província para os seguros sociais e outras doações. Os custos, além da vida diária, são para ajudar pessoas em dificuldade, para a Província ou para os instrumentos da missão.

 

A fraternidade como primeiro testemunho

Os irmãos são conscientes de que o seu primeiro testemunho é o seu modo de viver juntos. Observam esta maneira de viver na relação uns com os outros, com o auxílio dos instrumentos tradicionais da vida capuchinha: a celebração regular do capítulo local, a liturgia simples e imersa no silêncio da oração, a corresponsabilidade da gestão da casa. Não são sobrecargas de trabalho. Consideram a hospitalidade como elemento central da sua existência e um testemunho da vida que acolhem no silêncio da oração e da partilha fraterna.

 

A missão pacífica e gratuita no meio dos muçulmanos

A nossa relação com o mundo deve levar em conta os limites impostos pelo país: por exemplo, é vetado trabalhar sem um visto de trabalho (um contrato por parte de uma empresa estrangeira autorizada). A religião de Estado é o islamismo; extremamente minoritária, a presença cristã em geral, e católica em particular, está sob constante vigilância. Isto remete-nos à primeira regra de São Francisco. Buscamos, assim, permanecer “humildes e submetidos a todos”, sem, por isso, perder a nossa dignidade. Não escondemos que somos cristãos. Quando é necessário e nos parecer “agradar a Deus”, dizemos mais. Acontece frequentemente os argelinos e argelinas nos virem falar de Deus e de uma experiência de Cristo, frequentemente vivida através de um sonho ou um milagre. O acompanhamento daqueles que Cristo chama faz parte da missão da Igreja neste país. Estamos aqui também para eles.
Não há nada de especial a fazer a não ser estarmos presentes, desarmados e acolhedores, permanecer no tempo e aprender as línguas do país (o árabe clássico e o cabila, um dialeto berbere, mas também o árabe dialetal).

 

Um chamamento urgente e uma necessidade vital

Qual é a situação da Igreja na Argélia? E como pode o carisma capuchinho responder aos desafios que se apresentam?

 

Na Argélia, uma Igreja frágil

O mundo em que vivemos tem uma longa tradição islâmica. As relações sociais respeitam a separação entre público e privado, em que as mulheres dominam o segundo, enquanto os homens ocupam maioritariamente o primeiro. Esta relação pode mudar nas administrações, na escola e no campo da saúde.

A presença da Igreja Católica é ligada à história colonial francesa. Esta origem ainda é percebida: os edifícios, os costumes, as referências são inegavelmente europeias. A presença das congregações africanas e, sobretudo, a presença viva e dinâmica de estudantes subsaarianos, de todas as confissões cristãs, vem hoje renovar esta face. Imigrantes cristãos que trabalham nas empresas estrangeiras ou nas embaixadas enriquecem esta bela diversidade.

 

Os desafios do novo milénio

A missão na Argélia é inseparável do contexto atual do mundo em que vivemos. Ela confronta-se, à sua maneira, com os desafios contemporâneos mais difíceis.

 

A migração, início de um fenómeno ainda por vir

O primeiro desafio que perpassa a vida da nossa Igreja local é o da migração. A cidade de Tiaret não está no percurso dos migrantes subsaarianos rumo à Europa; Orã, pelo contrário, encontra-se na “primeira linha” de todas as rotas ligadas a este fenómeno. As pessoas detidas nas prisões argelinas, por motivos que vão desde o tráfico de drogas à falsificação, da fraude à falsificação de dinheiro, são também nossos “paroquianos”. Quase 80 membros da Igreja argelina, entre os quais dois frades capuchinhos, visitam estes prisioneiros, em todo o território. Esta missão é uma das mais evidentes para a nossa Igreja, e das mais significativas para a administração argelina.

Os migrantes são também objeto de uma atenção particular dos vários projetos mantidos pela Caritas Argélia, alguns dos quais veem um frade envolvido: o “Jardim das Mulheres” é ponto de escuta e acolhida, no Centro diocesano “Pierre Claverie”, ambos em Orã.

Mas, sobretudo, percebemo-nos como uma Igreja de migrantes!

 

Religiões que se confrontam ou fiéis que se reconhecem?

O diálogo inter-religioso é, obviamente, uma das principais preocupações da nossa missão. Mudando de perspectiva, desta margem do Mediterrâneo, despontamos de longe no chamado “choque de civilizações”, com as diversas correntes sobre a pluralidade em ato na Europa e no mundo. Para nós, trata-se de nos comprometermos numa busca paciente, e menos espetacular, de um verdadeiro renascimento de uma civilização inclusiva. Os fiéis, como convida o Papa Francisco, devem receber juntos a paz e viver da bem-aventurança dos que promovem a paz.