Timor-Leste é um país maioritariamente católico, sendo o segundo país mais católico da Ásia, com cerca de 93% da população batizada, ficando atrás apenas das Filipinas. É o país mais jovem do mundo a obter a independência, conseguindo-a em 2002, e um país de missão. Várias ONG's, Ordens religiosas e grupos de voluntariado têm trabalhado por cá com o intuito de desenvolver este país que, ao fim de mais de 40 anos de guerra e opressão, está a começar a dar os seus primeiros passos no sentido de se desenvolver e reestruturar.

Comigo na Rádio Na'i Feto Laleia, a rádio local da Paróquia da Nossa Senhora do Rosário de Laleia, distrito de Manatuto, Diocese de Baucau, tenho uma jovem que, há 5 meses atrás, decidiu deixar o conforto do seu lar para se deslocar 16.000 km a fim de se entregar de alma e coração a um povo simples e acolhedor.

Natural do Porto, Licenciada em Serviço social na Universidade Católica de Braga, chama-se Maria Campello e está em Timor através de uma associação de voluntariado com raízes na sua paróquia, a Paróquia Nossa Senhora da Boavista, chamada VIN POR TI.

 

[RNFL]: Maria, como conheceste o grupo de voluntariado VIN POR TI?

[Maria]: Essa é uma pergunta engraçada, porque eu estava lá quando o grupo VIN POR TI nasceu. Eu faço parte da Paróquia da Nossa Senhora da Boavista, no Porto, e sempre andei lá na catequese e nos grupos de jovens, e em 2014 estava eu na minha paróquia quando começou a surgir a ideia e os meus animadores, um grupo que eu agora considero meus amigos, começaram a pensar “E que tal se na nossa paróquia houvesse a oportunidade de fazermos voluntariado internacional?”. Então pusemos todos - VIN POR TI - mãos à obra e esse tal grupo de animadores falou com o pároco, o Padre Feliciano, que já tinha vindo aqui a Timor várias vezes e conhecia o Bispo D. Basílio, Bispo da Diocese de Baucau, portanto, uma coisa levou à outra e criou-se assim a associação VIN POR TI, Voluntariado internacional por Timor. Fizemos várias campanhas de angariação de fundos, nesse primeiro ano em 2014 foi tudo muito rápido, precisávamos de arranjar logo muito dinheiro para poder trazer os voluntários e tínhamos pouco tempo. Mas, sim, vi e ajudei a crescer desde o nascimento o VIN POR TI e portanto desde essa altura que estou ligada nalgumas ocasiões. Não entrei logo, mas foi assim que conheci, porque estou muito ligada às atividades da minha paróquia e o grupo VIN POR TI nasceu mesmo dos meus animadores dos jovens, por isso desde sempre que estou ligada ao VIN POR TI.

 

[RNFL]: Pode-se dizer que és quase uma cofundadora do VIN POR TI?

[M]: [risos] Isso se calhar não diria. Eu fui dando aquele apoio que todas as pessoas podem dar e que todos os jovens na altura deram: que foi ajudar nas angariações de fundos. A ideia e a concepção da Associação foi do primeiro grupo que veio cá e que eram 12, salvo o erro, e que vieram cá fazer a primeira missão. Aquilo que todos os outros jovens da minha paróquia, incluindo eu própria, fizemos foi ajudar em todas as angariações de fundos que houve, ajudar a recolher materiais para enviarmos em contentores que costumamos enviar para cá com material escolar e sementes, por exemplo. Portanto desde essa altura que, não posso dizer que sou cofundadora, isso seria de mais [risos], mas desde a criação que estou muito ligada ao VIN POR TI.

 

[RNFL]: VIN POR TI, voluntariado internacional. Este “internacional” é porque tem ligações com outras associações de outros países ou é porque vai para fora de Portugal?

[M]: Simplesmente porque vai para fora de Portugal. O VIN POR TI, na altura foi criado por uma sede de voluntariado internacional, fora de Portugal, porque na minha paróquia, felizmente, já fazemos muito voluntariado interno, animar os grupos de jovens, animar os campos de férias, catequese, o banco alimentar também ajudamos, temos bastantes atividades, é uma paróquia muito ativa e estes jovens que criaram, estes meus amigos que criaram o VIN POR TI, tinham esta sede de ir mais além, de ajudar fora de Portugal, de viver esta experiência de também conhecer outra realidade e portanto, sim, nasceu Por Timor, porque na altura o meu pároco já tinha ligação aqui, portanto juntou-se o útil ao agradável e foi mesmo Voluntariado Internacional por Timor, porque saímos mesmo de Portugal para vir para Timor.

 

[RNFL]: Quando sentiste este desejo de fazer voluntariado?

[M]: O desejo de fazer voluntariado acho que esteve sempre presente em mim de uma forma natural. Desde que sou pequenina e que estou principalmente ligada à minha paróquia, fazer voluntariado é uma coisa normal. Se nós recebemos toda a formação na catequese e nos grupos de jovens, nada mais fazemos que a nossa obrigação em retribuir isso aos mais novos que vêm a seguir a nós. E portanto esta ligação e este passar a pasta dos mais velhos para os mais novos, na minha paroquia é uma coisa muito natural e que me ajuda muito a mim também na formação. Isso foi-se desenvolvendo ao longo dos tempos, porque à medida que vamos crescendo e nos vamos tornado jovens vamos tendo outras atividades e temos de gerir as nossas prioridades, e portanto temos que aprender a perceber se estamos mais focados em viver a nossa vidinha ou então se temos também tempo para dar aos outros e graças a Deus também a maior parte dos meus amigos estão muito ligados à minha paroquia, portanto nunca tive grandes problemas em optar por fazer voluntariado na minha paróquia e depois associar isso também a outros tipos de voluntariado, porque é um coisa que nos enche o coração, isto é um bocado cliché, mas é verdade. Por exemplo, eu escolhi o meu curso de Serviço Social, porque eu acho tenho muito desta área de voluntariado e tem muito esta vertente daquilo que eu gosto muito de fazer. Eu estive um ano parada antes de entrar no meu curso, realmente para decidir, e mal vi a oferta deste curso de Serviço Social achei que era isso que se encaixava comigo. Eu não consigo escolher uma altura onde me senti chamada a fazer voluntariado, porque sempre foi uma coisa muito presente, muito vivida, muito natural em mim e nas pessoas que me rodeiam, felizmente.

Em relação ao VIN POR TI, eu sempre fui ajudando nas angariações de fundo, nos jantares que nós organizávamos, etc... Mas sabes aquela ideia de que sabes qual é a vontade de Deus, mas inventas desculpas credíveis para ires adiando um pouco.?.. e agora tenho a perfeita noção que foi exatamente isso que eu fiz. Mas pronto, o ano passado lá ganhei coragem para uma coisa, que agora vejo como perfeitamente natural, mas lá ganhei coragem para enfrentar os meus medos e as minhas inseguranças de vir para o outro lado do mundo, uma realidade completamente desconhecida, e foi uma junção de coisas, mas tive muito o apoio de vários amigos meus que ajudaram a criar o VIN POR TI que me foram chamando a atenção “Olha já está na tua vez”, “Deus já te chamou de certeza, tu é que não queres” [risos] e por isso, sim, foi um bocadinho por aí. E depois, mal cheguei, as 3 semanas que estive o ano passado, souberam-me completamente a pouco, não dá para nada e percebi logo que realmente Deus me chamava para vir mais e para dar mais de mim e por isso estou aqui faz agora 5 meses.

 

[RNFL]: Tu estás concentrada na zona de Baucau, na cidade em si, não no Distrito. Para que as pessoas percebam, qual foi o teu principal papel por cá, as tuas principais atividades?

[M]: O VIN POR TI faz uma parceria com a Diocese de Baucau. O maior objetivo do VIN POR TI é realmente ajudar a Diocese de Baucau. Desde 2014 que nós fazemos aquilo que a Diocese nos pede. Nos primeiros 2 anos andamos a distribuir material escolar e ajudar em todos os tipos de trabalhos físicos e de formação espiritual para os mais jovens. Desde 2016 que nos pedem para ensinar a língua portuguesa. E portanto, tanto no ano passado como este ano aquilo que eu vim fazer foi ensinar língua portuguesa. Mal cheguei comecei a ensinar no Seminário São João Paulo II, no Planalto, aos seminaristas que estão no ano de espiritualidade. Para além disso, também ensino língua portuguesa na SaCorJes, na Escola do Sagrado Coração de Jesus, em Vila Nova, que faz parte da paróquia de Vila Nova. Isso são os meus principais pontos de serviço que me foram pedidos pela Diocese de Baucau. Claro que também vou estando com bastante ligação às atividades que existem na Diocese e no Seminário e vou dando apoio naquilo em que posso ajudar, mas o meu principal objetivo é realmente ensinar a língua portuguesa e tendo em conta esta situação toda do Coronavírus acabei também por substituir um outro professor. Portanto, para além da língua portuguesa também ensino língua inglesa na mesma escola. Fora isso, tenho também um curso para professores da escola SaCorJes a quem também ensino língua portuguesa para praticar mais esta língua oficial.

 

[RNFL]: Ou seja, um "melting pot" de línguas... português, inglês, tétum, e francês, não?

[M]: Francês não, mas espanhol, [risos] porque já fiz umas amigas que são estudantes de medicina que falam espanhol, porque os professores são cubanos, portanto vou sair daqui não bilíngue, mas tetra-língue [risos].

 

[RNFL]: Qual foi a reação dos teus pais e dos teus amigos quando lhes disseste “Pessoal vou para Timor, até qualquer dia, se eu voltar”?

[M]: Eu acho que tenho um misto de reações. Graças a Deus todos os meus amigos e mesmo os meus pais me apoiam muito nesta missão, porque sabem que eu aqui estou bem acompanhada e só faz bem. Tanto faz bem para os outros que estão a receber um pouco de mim como para mim que recebo um montão de coisas e que vou muito mais crescida daqui. Tive muito apoio e houve várias pessoas que me disseram “eu já sabia que tu ias voltar, porque tu quando chegaste vinhas com aquela ânsia de querer voltar e isto não bastava para ti e nós conhecendo-te como te conhecemos já sabíamos que ias voltar mais a sério”. E tive uma amiga minha também do VIN POR TI que esteve cá um ano e fizemos uma partilha de experiências muito grande e senti um grande apoio da parte dela. Também tive aquelas tias mais galinhas [risos] “Ai Maria, coitadinha vai para Timor, não vai ter as suas coisas confortáveis que tem aqui, como vai ser?” mas é mesmo assim, também precisamos de desprender e viver na simplicidade que isso é que nos traz maior alegria…

 

[RNFL]: E aqui isso é fácil…

[M]: sim, aqui é fácil, aqui eu vejo as pessoas à minha volta e vejo Deus em todo o lado, é tão fácil, tão simples... porque não é assim em todo lado? É um bocadinho isso, sim.
Fizemos um pequeno jantar de despedida e acabamos por criar um grupo de WhatsApp com os meus amigos, eu que sou uma desnaturada, normalmente, que nunca digo nada, nem aos meus pais, posso passar 1 semana sem dizer nada, para mim é normal [risos], mas pronto, pelo menos mês a mês, 3 a 3 semanas, lá ia um texto com as partilhas pessoais, e daquilo que tinha feito e daquilo que tinha vivido, um montão de fotografias, a seleção é que é complicada, 5 meses 5000 fotografias, mais ou menos, portanto... [risos] Foi muito isso, foi uma reação de apoio, uma reação de “claro que sim, já estávamos à espera, tens toda a capacidade para isso e não é nada de especial, não vamos pôr aqui um pelourinho nem nada de mais”, foi muito isso, de apoio, de incentivo “estamos contigo e se estás bem isso é o mais importante, podes ficar aí o tempo que precisares e se estás bem é o mais importante” e aqui é fácil ser feliz.
Eu costumo dizer que vim para aqui na altura certa, não havia nada pendente e isto até foi bem pensado, a minha vinda. Vim o ano passado 3 semanas no mês de Agosto. E mal cheguei a Portugal, duas semanas depois fui falar com o meu Padre Pároco a dizer “eu em Janeiro acabo o meu curso, portanto posso ir para Timor mais tempo, estou disponível se quiserem”. E pronto, ele lá falou aqui com a Diocese e eu vim. Terminei o meu curso em Janeiro, deveria ter vindo em Fevereiro com o Padre Mário Cabral, só que ele estava em Portugal a resolver uns assuntos e teve que adiar o voo, adiou duas vezes e à terceira que ele adiou eu disse-lhe “Não, calma, eu agora vou para Timor e espero lá por si”. Eu vim e agora o Padre Mário está preso em Portugal, porque começou o Coronavírus. E portanto, isto foi Providência Divina em termos de apoio para eu vir e em termos de altura que eu vim para cá, porque eu vim, passado duas ou três semanas começou todo este surto do Coronavírus. E se eu estivesse em Portugal, eu estava fechada sem fazer nada, sem poder fazer nada, sem poder procurar trabalho, estava a viver um inferno. Eu vim para aqui dar de mim, sem querer pôr nada de especial, porque não é nada de especial o que vim fazer, mas vim mesmo na altura certa.

 

[RNFL]: Porquê Timor?

[M]: Porquê Timor?! Acho que já expliquei um bocadinho isso. É mais porquê o VIN POR TI. O VIN POR TI foi criado de propósito para vir para Timor e isto aconteceu porque o meu Padre já conhecia, já tinha ligação aqui com Timor, desde 2002 que vem cá, e quando surgiu, quando se quis criar o VIN POR TI fez-se logo para Timor, porque já havia esta ponte de ligação. Portanto, porque não Timor?! Como eu sempre tive ligação à minha paróquia, porquê estar a sair, porquê estar a procurar coisas diferentes se eu tenho dentro da minha paróquia, dentro de uma coisa que faz parte da minha vida, um projeto que já ajuda fora de Portugal? Não preciso de estar a inventar. A criatividade que surgiu no início não precisa ser repetida sempre que uma pessoa se lembra de fazer alguma coisa nova. E não é tanto o porquê Timor, mas sim, porque não?! Porque não o VIN POR TI?! Está aqui ao meu lado, sempre ajudei, faz parte da minha vida, sim... Timor, porque a minha paróquia tem o VIN POR TI.

 

[RNFL]: Já estás de regresso a Portugal, a experiência está no final, a mágoa é grande, eu sei, a saudade também já deve ser muita, mas conta-nos, o que levas aqui do povo timorense, de todas as experiências que viveste por cá?

[M]: Essa é uma pergunta difícil, porque é muita coisa. Eu nestes 5 meses tive a oportunidade de conhecer vários sítios aqui de Timor. Cheguei na altura do tempo da chuva, vou embora no tempo da seca, ver a diferença mesmo do tempo é engraçado. E depois conhecer os lugares. E depois dos lugares e do tempo que é o que os turistas conhecem, também vou conhecendo a vida das pessoas. E vou passando no mercado e vou conversando com as pessoas. Mesmo que o meu tétum seja muito pouquinho, dá para desenrascar alguma coisa, e portanto vou cada vez mais tendo este sentido de pertença. E como já disse várias vezes, aqui em Timor é muito fácil ver Deus na simplicidade de todas as coisas à nossa volta. E portanto, do principal que eu levo daqui é mesmo aprender a ver Jesus nos outros e na simplicidade dos outros, nas coisas mais simples do dia-a-dia. Outra coisa é aprender a estar em silêncio. Muitas vezes a vida em Portugal é muito ativa, não temos tempo para nada, é sempre a correr de um lado para o outro, mesmo que sendo coisas boas e que nos façam bem, é preciso, e aqui aprendi muito isso, é preciso também dar o nosso tempo para parar, para refletir, para mastigar aquilo que se vai vivendo. E esta calma com que as pessoas de Timor vivem, de realmente cada coisa tem o seu tempo, ensina muito, principalmente é isso que levo. E claro que levo todas as amizades que cá fiz, claro que levo toda a alegria dos cânticos que fui aprendendo, levo a lembrança de muitos eventos que consegui estar presente e o carinho de muitas pessoas que sei que se calhar não consigo voltar a ver, mas que ficam mesmo guardadas no meu coração. Gostei imenso de ir visitando os vários sítios que fui visitar, Viqueque, Ossu, Jaco, Mehara, Lautém, Laclubar, LALEIA, claro [risos], que tem uma Igreja muito bonita! Dispensava os mosquitos [risos], mas a verdade é que como eu também fui vivendo e fui estando cá e aprendi a gostar de todo o tipo de comida, eu acho que isso ajuda e fui sendo menos picada, mas sim, levo a intensidade de como todas as coisas aqui são vividas, principalmente nos momentos de oração e nas missas. Fico de coração cheio quando ouço todas as pessoas na igreja a cantar, emociona.

 

[RNFL]: Quem quiser conhecer o VIN POR TI como pode fazê-lo?

[M]: O VIN POR TI tem as portas abertas na Paróquia Nossa Senhora da Boavista, para quem quiser e estiver no Porto, nós reunimo-nos às quartas-feiras à noite. Pela internet temos o nosso Instagram onde vamos partilhando várias das nossas atividades e podem conhecer um bocadinho mais do projeto aí, o nosso Instagram é @vinporti e se quiserem enviar-nos um email para nós podermos retribuir com um flayer ou mais informações, vinporti [@] gmail.com. Não temos nenhum site oficial para já, mas também temos facebook: vinporti.

 

[RNFL]: Instagram, facebook, e-mail, ou então visitar o lindo Porto.

[M]: Exatamente e a paróquia está sempre de portas abertas, por isso: à vontade.

 

[RNFL]: Maria, muito obrigado, a entrevista foi fantástica e espero que seja espalhada por todo o mundo, porque todo o mundo deveria conhecer esta a tua experiência, foi muito pessoal e muito vivida. Muito Obrigado.

 

NOTA: Entrevista conduzida por Ricardo Tinoco, OFMCap., para a Rádio Na'i Feto Laleia, no dia 17 de agosto de 2020

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.