A 23 de janeiro de 2020, o Santo Padre, recebendo o Cardeal Angelo Becciu, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, autorizou a assinatura do Decreto super martyrio de três frades capuchinhos da Província da Catalunha, Bento de Santa Coloma de Gramenet, José Oriol de Barcelona e Domingos de Sant Pere de Riudebitlles, e o Decreto super virtutibus de António Maria de Lavaur, sacerdote professo da Província da França.

 

Bento de Santa Coloma de Gramenet, José Oriol de Barcelona e Domingos de Sant Pere de Riudebitlles

Em Manresa, na Catalunha, após 18 de julho de 1936, a perseguição contra sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos, teve seu início cruento. Quatro dias depois, em 22 de julho de 1936 e poucos dias antes do assassinato dos três Servos de Deus, o seu convento tinha sido ocupado, devastado e incendiado pelos milicianos marxistas e anarquistas. Forçados a refugiar-se junto de parentes e amigos, os três Servos de Deus, em datas diversas e em circunstâncias semelhantes, foram sequestrados, torturados e assassinados sem qualquer julgamento.

O Servo de Deus Bento (no século: Josep Domènech i Bonet) nasceu no vilarejo de Santa Coloma de Gramenet em 6 de setembro de 1892, numa família camponesa humilde e profundamente católica. Foi batizado a 11 de setembro de 1892 e fez a primeira comunhão a 30 de maio de 1903. Sentindo o chamamento ao sacerdócio, em 1903 ingressou no seminário menor de Barcelona. Após alguns anos, a sua vocação definiu-se melhor como chamado à vida religiosa, por isso, vestiu o hábito capuchinho a 18 de fevereiro de 1909 no noviciado da Província de Barcelona, em Arenys de Mar, e emitiu a primeira profissão a 20 de fevereiro de 1910. Professou solenemente no convento de Sarriá (Barcelona), a 23 de fevereiro de 1913, e foi ordenado sacerdote em 29 de maio de 1915.

A sua vida de religioso decorreu no âmbito das duas casas de formação de Igualada e de Manresa, dedicando-se, além disso, ao ministério da pregação. A 6 de agosto de 1936, foi capturado pelos milicianos que queriam que blasfemasse, mas ele recusou-se. Levado a um lugar próximo a Manresa, chamado La Culla, foi trucidado.

O Servo de Deus José Oriol de Barcelona (no século: Jaume Barjau Martì) nasceu em Barcelona, a 25 de julho de 1891. A família era muito cristã e abastada. Recebeu o batismo a 28 de julho de 1891 e, a 7 de junho de 1892, recebeu o sacramento da crisma. Fez a primeira comunhão aos nove anos. Por iniciativa do seu irmão, ingressou no Seminário de Barcelona, mas, não superando os exames do primeiro ano, procurou aprender algum ofício. Sentindo forte atração à vida capuchinha, a 21 de outubro de 1906 iniciou o noviciado, continuando assim a sua formação no convento de Igualada e, sucessivamente, nos de Olot e de Sarriá, em Barcelona. Professou solenemente a 15 de agosto de 1911, e foi ordenado sacerdote a 29 de maio de 1915. Ensinou liturgia, hebraico e história eclesiástica no instituto teológico de Sarriá. Em 1925, foi destinado ao convento de Manresa, e aí se dedicou à pregação, ao ministério da confissão e à direção espiritual.

Em 24 de julho de 1936, enquanto levava a comunhão a uma religiosa clarissa, foi identificado e preso pelos milicianos. Na mesma tarde, levado para fora de Manresa, foi assassinado com tiros de pistola.

O Servo de Deus Domingos de Sant Pere de Riudebitlles (no século: Joan Romeu Canadell) nasceu a 11 de dezembro de 1882, numa família de camponeses. Recebeu o batismo a 17 de dezembro de 1882 e foi crismado a 23 de julho do mesmo ano. Fez os primeiros estudos na escola do vilarejo, mas o pároco, vendo nele os germes da vocação, preparou-o para ingressar no Seminário de Barcelona. Entrado em 1897, concluiu com êxito os estudos filosófico-teológicos e foi ordenado sacerdote a 25 de maio de 1907. Atraía-o, contudo, a vida religiosa franciscana e, no ano seguinte, em 3 de outubro de 1908, ingressou no noviciado dos Capuchinhos. Emitiu a profissão temporária a 4 de outubro de 1909, e a solene, a 4 de outubro de 1912. Durante o período da formação inicial à vida capuchinha, dedicou-se à pregação e ao ministério da confissão. Em 1913, partiu como missionário para a Costa Rica e a Nicarágua, regressando à Catalunha em 1930. Foi destinado primeiro ao convento de Sarriá, depois, ao de Arenys de Mar e, por fim, ao de Manresa.

Na noite de 27 de julho de 1936, enquanto se transferia de um lugar para outro para maior segurança, foi preso, agredido, torturado e, enfim, assassinado com tiros de arma de fogo um pouco fora de Manresa.

O forte e significativo testemunho de fé dos Servos de Deus Bento de Santa Coloma de Gramenet, José Oriol de Barcelona e Domingos de Sant Pere de Riudebitlles pode falar também hoje à Igreja e ao mundo a forte necessidade e a viva exigência de um anúncio do Evangelho e de uma evangelização que alcance mesmo as realidades mais difíceis e complexas. É a fidelidade ao Evangelho de Cristo e ao próprio estado de consagrados que levaram os três Servos de Deus a aceitar serem aquela semente caída na terra e que produz muito fruto, fecunda e duradoura, e, ao mesmo tempo, é capaz de ser sal da terra e luz do mundo.

 

António Maria de Lavaur

Homem de fé robusta e de misericórdia, Fr. António Maria de Lavaur dedicou toda a vida a levar o anúncio do Evangelho na França do século XIX, marcada por uma política anticristã.

O seu testemunho de vida permanece um exemplo de dedicação incondicional ao bem de quantos encontrava, uma dedicação sustentada pela coragem de percorrer toda a estrada possível para anunciar a todos a bondade de Deus e para socorrer quantos estavam na pobreza, na indigência e na enfermidade. Discípulo fiel de São Francisco de Assis, o Servo de Deus fez-se pobre entre os pobres, e, como os primeiros capuchinhos, capaz de assistir aos doentes contagiosos, não se preocupando com o perigo do qual ia ao encontro.

A atividade apostólica e pastoral do Servo de Deus enraizava-se numa profunda vida interior, marcada por uma forte devoção mariana, vivida e sempre mais enraizada em Lourdes, que, lançada na realidade concreta do seu tempo, visava principalmente a revigorar a vida cristã, a assistir aos pobres e a despertar as vocações.

O seu falar de Deus, com ardor e força, levava-o a uma pregação intensa e de maneiras fortes, que faz transparecer todo o seu zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas. Tal zelo pode ser, para a Igreja do terceiro milénio, um forte encorajamento a viver generosamente a nova evangelização para levar a Boa Nova às periferias existenciais.

O Servo de Deus, António Maria de Lavaur, nasceu a 23 de dezembro de 1825 em Lavaur, cidade na região do Tarn (França), numa família profundamente cristã. Foi batizado no mesmo dia com o nome de François Auguste Léon. Após os estudos elementares, em 1836, foi enviado pelos pais ao Pequeno Seminário de Toulouse, onde fez a primeira comunhão e, três anos depois, a 22 de maio de 1840, recebeu a tonsura clerical. Juntamente com os colegas seminaristas, fundou a Associação dos Pequenos Saboianos e a Associação dos Pequenos Ofícios. Dedicou-se, de seguida, aos estudos de filosofia e de teologia e foi ordenado sacerdote a 21 de setembro de 1850; no dia seguinte, celebrou a primeira missa na igreja principal da cidade natal.

Nos anos de formação, tornou-se também professor no Pequeno Seminário, função que desempenhou seguindo três princípios: “humildade, confiança, amor”. Os anos da juventude também foram marcados pelos acontecimentos da revolução de fevereiro de 1848, em que a França viveu uma forte crise política e socioeconómica.

Iniciou o ministério sacerdotal na Diocese de Toulouse com a nomeação como vigário paroquial de Saint-Gaudens, no departamento do Alta Garona, à qual se acrescentou a atividade pastoral nas paróquias de Villeneuve e de Valentine. Neste período, fez-se promotor de diversas associações, como a Associação dos Filhos de Maria, a Conferência de São Vicente de Paulo e a Associação para a Juventude, demonstrando assim o seu espírito missionário.

A partir de 1853, o Servo de Deus amadureceu a vocação para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, sobretudo quando se viu ajudando pessoas acometidas por uma grave epidemia de cólera no território paroquial de Saint-Gaudens. Convicto de que esta era a sua estrada, certo de sua escolha, a 27 de maio de 1855 partiu para o noviciado capuchinho de Marselha, onde, a 13 de junho do mesmo ano, vestiu o hábito e assumiu o novo nome, António Maria de Lavaur. Emitiu a profissão religiosa a 13 de junho de 1856.

No ano seguinte, o Servo de Deus foi enviado pelos seus superiores a Toulouse, para fundar um novo convento capuchinho no lugar do anterior, fundado no século XVI e suprimido em 1792, após a política contrária às Ordens religiosas por parte da Revolução Francesa. Graças à ajuda da população da cidade, pôde proceder rapidamente à fundação do convento. Assim, a 18 de julho de 1861, foi consagrada a igreja, dedicada a São Luís de Toulouse. Neste período, em que se dedicava com todas as forças à construção do convento, conheceu, em Lourdes, Santa Bernadete Soubirous, entre a décima sétima e a décima oitava aparição de Nossa Senhora.

A devoção mariana do Servo de Deus foi admirável; organizou, em 1863, pela primeira vez, a “procession aux flambeaux” (procissão das velas), e tomou outras importantes iniciativas como, por exemplo, organizou a procissão com o Santíssimo Sacramento, e, a partir de 1866, a oração noturna. Além disso, a sua incansável devoção mariana e o profundo afeto por Lourdes o levaram a cumprir outras importantes iniciativas, como a ereção da Cruz de Jerusalém, nas proximidades do Santuário, e, em 1866, da Via Sacra, além do Calvário e das grutas das Espélugues, dedicadas a Nossa Senhora das Dores e a Santa Maria Madalena, em 1887. Construiu também outros santuários marianos, como, por exemplo, o Santuário de Pech.

Não obstante a dedicação às peregrinações marianas, o Servo de Deus jamais deixou de fazer obras de apostolado e de assistir às pessoas mediante as inúmeras missões populares na França e também noutros países. Aos pobres, dedicou-se totalmente, preocupando-se com seu bem-estar espiritual e material, garantindo, por exemplo, uma refeição no convento de Toulouse, e iniciou uma organização, a Obra do Pão dos Pobres de Santo António, um dos mais relevantes serviços da sua vida. Organizou e promoveu o cuidado espiritual da Terceira Ordem Franciscana e foi um grande promotor de iniciativas e atividades pastorais nos diversos congressos nacionais da Ordem, como o de Limoges em 1895, e o de Toulouse em 1897.

Empreendeu também muitas viagens de caráter religioso-vocacional. Dirigiu-se a Roma em 1862, para a canonização dos Mártires do Japão, e, em 1867, para a canonização de Santa Germana; em 1882, tomou parte da primeira peregrinação à Terra Santa, que depois se tornou um compromisso importante na sua vida; em 1893, dirigiu-se a Pádua, junto à tumba de Santo António, e, em 1900, participou em Roma no Congresso Internacional da Terceira Ordem Franciscana.

A sua vida foi marcada também por momentos particularmente difíceis, como, por exemplo, o período depois da guerra franco-prussiana, entre os anos 1870-1871, em que houve uma clara política contra o clero secular e as ordens religiosas, entre as quais, a dos Capuchinhos. Um outro motivo de grande sofrimento foi a política anticlerical francesa, que tinha como fim a “descristianização” da sociedade, e que representou um grande obstáculo às suas obras missionárias. Não obstante tudo isso, o Servo de Deus, com o apoio da população e graças também à sua tenacidade, conseguiu evitar a supressão do convento capuchinho de Toulouse, fundado por ele.

No início de fevereiro de 1907, aos oitenta e dois anos, teve um colapso físico, após ter apanhado frio ao sair do convento pela manhã cedo, para ouvir a confissão de um sacerdote enfermo. Em 4 de fevereiro, celebrou a última missa; dois dias depois, confessou-se e recebeu os últimos sacramentos, enquanto continuava a acolher junto ao seu leito quantos desejassem fazer-lhe uma última visita. Às cinco da manhã de 8 de fevereiro de 1907, morreu santamente.

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