Foi promulgado o Decreto que reconhece o Martírio de Frei Leonardo Melki e Frei Tomás Saleh, frades capuchinhos da Custódia do Oriente Próximo (Líbano e Síria).

O clima hostil aos cristãos e episódios de perseguição ocorreram em várias partes do Império Otomano, em geral, e na região da Mesopotâmia, de modo especial, já a partir de 1894, com massacres organizados ou autorizados pelo governo central. Com o deflagrar da Primeira Guerra Mundial, a perseguição contra a Igreja tornou-se mais ampla, sistemática e feroz, revelando um plano de deportação em massa e de extermínio, e tornando-se assim o “primeiro genocídio do século XX” (Declaração de São João Paulo II e Karekin II, 27 de setembro de 2001). Os assassinatos começaram na madrugada entre 23 e 24 de abril de 1915 em Constantinopla, quando foram feitas as primeiras prisões entre a elite arménia. Neste Medz Yeghern (“grande crime” ou “grande mal”), encontraram a morte mais de um milhão e meio de cristãos (arménios, sírios, caldeus, assírios e gregos). Com eles, foram conduzidos à morte, sem qualquer processo, muitos bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e missionários estrangeiros, dentre os quais, também os dois Servos de Deus, em duas datas e lugares diversos, mas em circunstâncias semelhantes.

 

Frei Leonardo Melki

O Servo de Deus Leonardo (no batismo: Youssef Houais) Melki nasceu no vilarejo libanês de Baabdath (região de Metn) entre o final de setembro e o início de outubro de 1881, sétimo de onze filhos. Foi batizado provavelmente em 8 de outubro do mesmo ano e crismado em 19 de novembro de 1893. Atraído pelo exemplo dos frades, decidiu fazer-se capuchinho e missionário. Em 28 de abril de 1895 ingressou no seminário menor de Santo Estêvão em Constantinopla, pertencente ao Instituto Apostólico do Oriente. Lá, recebeu o hábito capuchinho em 2 de julho de 1899 e emitiu a primeira profissão em 2 de julho de 1900. No convento de Bugià, próximo de Esmirna, fez os seus estudos filosóficos e teológicos, emitiu a profissão perpétua em 2 de julho de 1903 e foi ordenado sacerdote em 4 de dezembro de 1904. Após o exame final em 23 de abril de 1906, foi destinado à missão da Mesopotâmia.

Campo do seu apostolado missionário foram as cidades de Mardin, Mamuret-ul-Aziz e Orfa, dedicando-se com zelo ao ministério da confissão e da pregação, ao ensino, à direção das escolas, à pastoral dos jovens, à Ordem Terceira Franciscana e a outras confrarias, com algumas breves pausas de repouso em seu vilarejo natal. Em 5 de dezembro de 1914 aconteceu a primeira irrupção dos militares na igreja dos capuchinhos de Mardin, acompanhada por atos de violência e moléstias contra os missionários, culminadas com a ordem de deixar o convento. O Servo de Deus, para não deixar só o seu confrade de 80 anos de idade, decidiu no último momento permanecer com ele propter caritatem, apesar do perigo. Em 5 de junho de 1915, o Servo de Deus foi preso e covardemente torturado durante seis dias, no intuito de fazê-lo renegar a sua fé e abraçar a religião islâmica. Em 11 de junho, festa do Sagrado Coração, foi posto à frente de um comboio com 416 homens, iniciando assim um longo percurso de deportação que chegaria a Diarbaquir. Entre os deportados, estava também o Bem-aventurado Inácio Maloyan, Arcebispo arménio católico de Mardin. A meio do caminho deste longo percurso, após ter recusado, ainda uma vez mais, renegar a sua fé, foram todos massacrados no lugar chamado Kalaat Zirzawane, e seus corpos lançados em valas e cavernas.

 

Frei Tomás Saleh

O Servo de Deus Tomás (no batismo: Géries) Saleh nasceu no mesmo vilarejo libanês de Baabdat, provavelmente em 3 de maio de 1879, quinto de seis filhos. Foi batizado nos dias seguintes e crismado em 19 de novembro de 1893. Também ele, atraído pelo exemplo dos frades, decidiu fazer-se capuchinho e missionário. Junto com seu confrade, o Servo de Deus Leonardo Melki, em 28 de abril de 1895, ingressou no seminário menor de Santo Estêvão, onde, em 2 de julho de 1899, recebeu o hábito capuchinho e, em 2 de julho de 1900, emitiu a primeira profissão. Realizou os estudos filosóficos e teológicos no convento de Bugià, onde fez a profissão perpétua em 2 de julho de 1903. Foi ordenado sacerdote em 4 de dezembro de 1904. Tendo prestado o exame final em 23 de abril de 1906, foi destinado, com o Servo de Deus Leonardo Melki, à mesma missão da Mesopotâmia.

A sua vida missionária desenvolveu-se nas cidades de Mardin, Kharput e Diarbaquir, dedicando-se com zelo ao ministério da confissão e da pregação, ao ensino, à direção das escolas, à pastoral dos jovens e à Ordem Terceira Franciscana. Em 22 de dezembro de 1914, foi expulso, com um confrade e algumas irmãs, do convento de Diarbaquir, refugiando-se no convento de Orfa. Por dois anos, enfrentou corajosamente as moléstias da polícia e sobreviveu a duas séries de massacres de cristãos da cidade. Foi detido em 4 de janeiro de 1917, com seus confrades, sob acusação de ter escondido no convento um sacerdote arménio, chefe da sua comunidade, livrando-o da morte certa e de possuir uma arma, sendo esta última acusação falsa. Ambas as acusações determinaram a condenação à morte do Servo de Deus. Levado de um lugar a outro, sofreu todo tipo de violências e torturas, vindo a contrair tifo. Tendo chegado a Marash, já extenuado, morreu provavelmente em 18 de janeiro de 1917, exortando seus companheiros a ter confiança no senhor e renovando seu pedido a Jesus-Hóstia para carregar os sofrimentos do sacerdote arménio.

O forte e significativo testemunho de fé e caridade heroica dos Servos de Deus Leonardo Melki e Tomás Saleh pode dizer também hoje à Igreja e ao mundo a forte necessidade e a viva exigência de um anúncio do Evangelho que alcance também as regiões mais difíceis e distantes, não obstante os perigos e as perseguições. Foi a fidelidade corajosa a Cristo, ao próprio estado de consagrados e à própria vocação de missionários que levaram os dois Servos de Deus a aceitar serem “trigo de Deus, triturado pelos dentes das feras para tornar-se o puro pão de Cristo” (Inácio de Antioquia, Carta aos romanos, IV, 1), luz do mundo e sal da terra.

 

Maria Lourença Longo

O Santo Padre Francisco também autorizou a promulgação do Decreto que reconhece o milagre atribuído à Venerável Serva de Deus Maria Lourença Longo, monja capuchinha.

De Maria Lourença Longo, não se conhece com precisão nem o lugar, nem o ano de nascimento. Certamente era de origem catalã, nascida provavelmente em Lérida por volta de 1463, da nobre família Riquençá ou Requesens. Muito jovem, contraiu matrimónio com Juan Llonc, regente do Conselho de Aragão. Um dia, durante uma festa, foi envenenada por uma empregada, que nutria ressentimento em relação a ela, deixando-lhe paralisados os membros inferiores. Apesar desta condição, em 1506 acompanhou o marido a Nápoles.

Falecido o marido, Maria Lourença, em 1509, fez-se conduzir a uma peregrinação ao Santuário de Loreto, onde obteve a graça de uma cura inesperada. De volta a Nápoles, após ter providenciado o sustento de seus filhos, dedicou-se inteiramente ao exercício da caridade no hospital de “San Nicola al Molo”. Em 1519, encorajada por Ettore Vernazza, empreendeu a fundação do Hospital dos Incuráveis, inaugurado em 23 de março de 1522.

Os doentes chamados “incuráveis” eram principalmente as vítimas do “mal-francês”, isto é, a sífilis. O seu zelo a levou a se ocupar também das mulheres em situação de rua, em favor das quais fundou o Mosteiro das Penitentes.

Em 1530, chegaram a Nápoles os primeiros Capuchinhos, e foram recebidos por Maria Lourença Longo nas dependências do hospital. Três anos depois, praticou a mesma obra de caridade hospitaleira para com os Teatinos.

A ela se uniram algumas mulheres, com as quais amadureceu a decisão de dar vida a uma nova instituição de clausura. Em 19 de fevereiro de 1535, o Papa Paulo III a autorizava a construir, nas adjacências do Hospital dos Incuráveis, um mosteiro sob a Regra de Santa Clara. Nascia um novo ramo reformado de irmãs da Segunda Ordem franciscana, que, a exemplo dos Capuchinhos, tomaram a mesma via de vida pobre e austera e o nome de Capuchinhas. Em julho de 1535, as primeiras religiosas entraram no novo mosteiro de Santa Maria em Jerusalém.

Em 30 de abril de 1536, com um novo Breve Pontifício, Maria Lourença obteve a faculdade de elevar a trinta e três o número de irmãs, que, a partir de então e até hoje, é conhecido com o nome de Mosteiro das Trinta e três. Em 10 de dezembro de 1538, Paulo III concedia, fato totalmente excepcional, usufruir do cuidado e da direção espiritual dos Capuchinhos.

Enquanto o ano de seu nascimento é totalmente incerto, com base em várias várias indicações documentárias, sabe-se que a morte da Venerável Maria Lourença ocorreu no segundo semestre de 1539.

20201106 maria lourenca